Operação da PF mirou gigantes do setor de carnes no país
Foto:
Tadeu Vilani
O esquema deflagrado na
Operação Carne Fraca atinge diretamente a mesa e a saúde do brasileiro.
Gigantes do setor de carnes no país, como a BRF Brasil, dona das marcas Sadia e
Perdigão, e a JBS, dona da Friboi, Seara e Swift, entre outras marcas, teriam
cometido ao menos uma das irregularidades descritas pela polícia: carne
vencida, armazenada em temperaturas inadequadas, sem inspeção e com uso de
produtos cancerígenos ou em excesso com objetivo de ocultar as características
que deveriam impedir o consumo.
A pedido de ZH, o professor de
Microobioliga de Alimentos na UFRGS, Eduardo César Tondo, analisou algumas
irregularidades descritas dos despachos sobre o esquema. Veja:
Carnes vencidas
O que diz o despacho do juiz:
"Carnes vencidas há 3 meses para a produção de outros alimentos (se é que
se pode chamar de alimento algo composto por restos não mais aptos ao consumo
humano)"
O que diz o especialista:
"Quem estipula a durabilidade do produto sempre é a indústria produtora.
Essa informação deve constar no rótulo. Se for refrigerada, a validade é de
dias; se congelada, o prazo é maior. Além de ser proibida pela legislação,
carne vencida pode prejudicar a saúde do consumidor, porque pode ter
microrganismos em quantidades muito altas e que causam doenças, como Salmonella
ou Campylobacteriose. A carne, depois que passa da validade, estraga ou fica
muito contaminada, podendo levar a doenças graves. A pessoa que come esse tipo
de produto pode ser infectada por bactérias perigosas, podendo desenvolver
infecção intestinal, com sintomas como vômitos, diarreia e febre, e que pode
levar à morte, principalmente se o produto for mal armazenado (temperaturas
acima do recomendado), as bactérias vão se multiplicar. É um perigo real."
Temperatura
O que diz o despacho: "É
inacreditável a sucessão de irregularidades gravíssimas que, tudo está a
indicar, cometem diariamente no manuseio, industrialização e comercialização de
derivados da carne que a sua mera descrição causa náuseas. Armazenamento em temperaturas
absolutamente inadequadas."
O que diz o especialista:
"Se não for armazenada entre 5°C, 7°C, as bactérias que vivem naturalmente
na carne podem se multiplicar e causar doenças. Quanto mais tempo passar fora
da temperatura ideal, maior chance de contaminação. A carne é um dos principais
causadores de doenças transmitidas pelo alimento, ou seja, precisa ser muito
bem controlada."
Água
O que diz o despacho:
"Descoberta a venda irregular de produtos alimentícios - absorção de água
em frango superior ao índice permitido e reembalagem de produtos inadequados
para a venda."
O que diz o especialista:
"Se injeta água na carne do frango para aumentar o peso. É uma fraude
econômica. Não há risco para a saúde do consumidor, mas ele está pagando mais
por menos. Já a reembalgem de carne imprópria vai causar os problemas já
mencionados."
Ácido ascórbico
O que diz o despacho:
"Comprava notas fiscais falsas de produtos com SIF (Serviço de Inspeção
Federal) para justificar as compras de carne podre, e utilizava ácido ascórbico
para maquiar as carnes estragadas."
O que diz o especialista:
"Para segurar a contaminação da carne mal armazenada ou vencida, podem ser
adicionados conservantes ou produtos com esse ácido, que alteram a cor e o
cheiro da carne e estendem, de certa forma, a validade do produto. Vale lembrar
que há muitos conservantes que são permitidos por lei, mas que podem causar
câncer se usados em excesso. A PF afirma que as doses eram altas, por isso, é
provável que a concentração estivesse além do permitido e (o produto) pode,
sim, ser cancerígeno."
Carne de cabeça
O que diz o despacho:
"Mesmo cientes da proibição de utilização de carne de cabeça na linguiça,
ordena que sejam comprados 2 mil quilos do produto para a fabricação de
linguiças."
O que diz o especialista:
"Tudo isso é regulamentado por lei e, principalmente os frigoríficos
grandes, têm inspeção federal para coibir esse tipo de fraude, de usar uma
carne 'pior' irregularmente nos produtos."
Vanessa Kannenberg
Fonte: Zero Hora

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