A
verdade é que somos atraídos não só pela qualidade física de uma pessoa –
buscamos, rapidamente, saber o que vai no repertório afetivo dela. E quando
somos bem sucedidos, gostamos do que sentimos. Sentimos o prazer da familiaridade.
Se não, a sensação é de que os “santos não batem”.
A história é
comum. Pode acontecer de chegarmos ao novo local de trabalho, conhecer a equipe
e, em alguns dias, perceber que o relacionamento com determinado colega não
flui. O pior é quando isso acontece com o superior hierárquico. Dizemos que é
porque “os santos não batem”.
Não
“harmonizar santos” é tarefa habitual de uma estrutura cerebral denominada
amígdala, gestora das emoções (especialmente as mais fortes). Área do tamanho
de uma ervilha, temos um par delas localizado na intimidade do lobo temporal de
cada hemisfério. Dali ela dispara para neurônios para todos os cantos do
cérebro. O objetivo é reduzir a atividade dos setores lógicos e exasperar as
reações de enfrentamento verbal. A especialidade dela chama-se antipatia.
Por outro
lado, parece termos encontrado uma contrapartida, uma forma de harmonia
interindividual que vai na direção oposta.
Pesquisa
publicada na Proceedings of The National Academy of Sciences, em abril
de 2016, explora a sensação de familiaridade que decorre do fato de sermos
atraídos por pessoas cujas emoções essenciais parecemos compreender. Imagens do
encéfalo mostram que este grau de compreensão é assinado pela parte que cuida
da sensação de prazer – uma conexão entre o estriado e o córtex prefrontal
medial.
Trata-se de
uma descoberta fascinante, porque ela indica que uma das razões pela quais
somos atraídos a alguém tem a ver com nossa capacidade de decodificar as
emoções alheias. Para decodificarmos uma emoção no outro, precisamos, em
primeiro lugar, abrigá-la dentro de nós. Neste aspecto, o cérebro age como se
fosse um espelho. Essa capacidade pode estar desenvolvida para mais ou para
menos, mas quando presente, o link é imediato, mediado pela mistura entre
palavras, linguagem do corpo e (principalmente) a linguagem da face.
Isso não
significa que o inverso seja verdadeiro – o fato de acharmos alguém atraente
não quer dizer que entendemos suas emoções. Estudos anteriores já haviam
demonstrado que a atração ativa o sistema de prazer, mas estes estudos
concentraram-se no aspecto físico, não no emocional.
O cientista
Silke Andrews e colaboradores da Universidade de Lübeck, na Alemanha, mostraram
que compreender o conteúdo emocional de alguém exige vocabulário emocional
comum. Precisamos ser capazes de encontrar em nossa biblioteca interna aquilo
que o outro está tentando expressar (ou esconder).
Os
pesquisadores testaram homens e mulheres que assistiram a um vídeo com imagens
emotivas enquanto seus cérebros eram escaneados pelo equipamento de ressonância
magnética funcional. Os vídeos incluíam imagens de uma mulher com
expressões faciais de medo ou de tristeza. Os voluntários deveriam especificar que
tipo de emoção se tratava e o grau de confiança percebido ao tentar identificar
a emoção.
Aos que
participavam do experimento, era solicitado que aumentassem a resolução da
imagem da pessoa no vídeo para que se encaixasse em um tamanho confortável no caso
de ambos conversarem pessoalmente – uma indicação do grau de prazer envolvido.
Os
participantes foram, em geral, bem sucedidos em identificar o tipo de emoção.
Além disso, o grau de confiança demonstrado correlacionava-se diretamente com o
grau de ativação da conexão entre o estriado e o córtex prefrontal medial, a
região cerebral envolvida no sistema de recompensa responsável pela sensação de
prazer. Os achados eram específicos para duplas – os autores conseguiram
estabelecer não se tratar de uma atratividade genérica percebida pelos
participantes.
A conclusão
do estudo é que somos atraídos não só pela qualidade física de uma pessoa –
buscamos, rapidamente, saber o que vai no repertório afetivo dela. E quando
somos bem sucedidos, bem, parece que gostamos do que sentimos. Sentimos o
prazer da familiaridade. Se não, a sensação é de que os “santos não batem”.
Pelo sim e
pelo não, identificar a emoção em curso em si próprio deverá ser a primeira
etapa para tentar conquistar um novo aliado no local de trabalho ou na vida.
Martin Portner - Neurologista e Mestre em Neurociência pela Universidade
de Oxford e especialista em Mindfulness. Há mais de 30 anos divide suas
habilidades entre atendimentos clínicos e palestras, treinamentos e workshops sobre sabedoria, criatividade e mindfulness.
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