Especialista explica
a importância das diferentes formas de interação
Segundo estudo da Mattel, cerca de
quatro em cada dez entrevistados dizem não brincar o suficiente, seja por não
ter companhia (38%), ou pela falta de segurança (34%);
Letícia Amici, médica psiquiatra e
professora da Faculdade São Leopoldo Mandic, também comenta o papel das
atividades lúdicas no relacionamento familiar.
Existe um meme famoso que ilustra a diferença da relação de
pais e filhos com as atividades lúdicas (ou brincadeiras) até os anos 1990 e
agora. No primeiro quadro, representando o passado, a mãe pede para o filho
voltar para a casa. No segundo, mais atual, a mãe pede que o filho vá brincar
na rua. Um estudo* conduzido em sete países – incluindo o
Brasil – pela empresa de brinquedos Mattel, com apoio dos institutos de dados e
pesquisa MADO e Dynata, mostrou que a grande maioria das pessoas consideram a
brincadeira como parte fundamental da vida cotidiana (85%) e uma forma de
reduzir a solidão (87%). Porém, cerca de quatro em cada dez entrevistados dizem
não brincar o suficiente, seja por não ter companhia (38%), ou pela falta de
segurança (34%).
Segundo Letícia Amici, médica psiquiatra e professora da Faculdade
São Leopoldo Mandic, a brincadeira possui um papel fundamental para o
desenvolvimento do processo cognitivo na infância. E brincar sozinho é tão
importante quanto em grupo – com papéis específicos, essas duas atividades se
complementam. De acordo com a especialista, enquanto a primeira estimula o
desenvolvimento de habilidades cognitivas, as atividades coletivas favorecem a
interação social e o gerenciamento das emoções.
Já as brincadeiras em família são igualmente importantes nesta
fase da vida: “Brincadeiras [em família] auxiliam na interação de diversas
maneiras, estreitam os vínculos, aproximando membros de gerações diferentes,
além de permitir reforçar aspectos importantes para a parentalidade saudável,
com o direcionamento da atenção para o filho, a implementação de respostas
cuidadosas, atentas, assim como a clareza e consistência das regras e limites”,
acrescenta Letícia.
Nesta
entrevista, a especialista também comenta a dicotomia entre telas e mundo real,
explicando a necessidade dos pais buscarem o equilíbrio, e importância da
brincadeira para outros aspectos da formação da criança, como criatividade e
desenvolvimento físico.
O
que a ciência já comprovou sobre os impactos das atividades lúdicas no cérebro
e na saúde mental?
Sabemos
que as atividades lúdicas contribuem para a estruturação das circuitarias
cerebrais, estimulando conexões neuronais e ativação de redes cerebrais
importantes. Durante jogos e brincadeiras, por exemplo, sabemos que circuitos
associados às funções executivas são estimulados, sejam através do controle
inibitório, planejamento ou direcionamento da atenção, além de estimular
regiões associadas à linguagem e à criatividade. Além desse estímulo direto
nestes circuitos, o brincar também estimula a liberação de substâncias
importantes para o funcionamento cerebral, como, por exemplo, a dopamina,
associada ao prazer, aprendizado e motivação, contribuindo, consecutivamente,
para o bem-estar.
Existe
diferença entre brincar sozinho (ex.: montar um jogo de construção) e brincar
em grupo (ex.: jogos de tabuleiro) em termos de benefícios para a saúde?
Sim,
existem diferenças entre brincar sozinho ou em grupo, e de maneira geral, os
efeitos se complementam. As brincadeiras “individuais" estimulam o
desenvolvimento de habilidades cognitivas, como planejamento, flexibilidade,
criatividade, imaginação, capacidade de abstração, estratégias
autorregulatórias e de resiliência, além de contribuir com habilidades
emocionais, como o gerenciamento de sentimentos, desenvolvimento da confiança,
independência e senso de autoeficácia.
Já o
brincar com outras pessoas favorece a interação social, seja durante à
cooperação e parcerias nos jogos, contribui com habilidades de comunicação
efetiva, estimula o desenvolvimento de habilidades empáticas, além de auxiliar
na aprendizagem do gerenciamento das emoções, seja nas vitórias, como também
nas derrotas.
Qual
é o papel do brincar em família no fortalecimento de vínculos entre pais e
filhos?
Em
nosso cotidiano, muitas vezes tão acelerado e sobrecarregado, cada vez mais
estimulamos que as famílias consigam tempo de qualidade para interagirem de
forma saudável. Brincadeiras como os jogos auxiliam na interação de diversas
maneiras - estreitam os vínculos, aproximando membros de gerações diferentes, o
que muitas vezes pode ser desafiador; podem servir como oportunidades de
ensinar comportamentos e estratégias durante os jogos ou faz-de-conta,
aumentando a confiança e autonomia dos filhos; aumentam as formas de
comunicação, expressão e apoio emocional. Durante as brincadeiras os pais podem
reforçar aspectos importantes para a parentalidade saudável - seja com o
direcionamento da atenção para o filho, a implementação de respostas
cuidadosas, atentas, assim como a clareza e consistência das regras e limites.
Brincadeiras
mais físicas (ex.: jogar bola, correr com filhos) também podem ser consideradas
formas de exercício com impacto positivo na saúde cardiovascular e metabólica?
Definitivamente!
Atividades físicas, mesmo durante as brincadeiras, contribuem de forma positiva
tanto no controle da pressão arterial, na melhora da função cardiovascular,
como um todo, e na capacidade cardiorrespiratória. Também auxiliam no controle
das taxas de glicemia, colesterol e triglicerídeos e favorecem o controle do
peso corporal, essenciais pra saúde metabólica.
Em
uma sociedade cada vez mais conectada a telas, o que os pais deveriam priorizar
para estimular o brincar nas crianças?
Enfrentamos
um grande desafio em como conciliar o desenvolvimento de nossas crianças com um
acesso saudável a telas e jogos digitais. Recentemente, a OMS (Organização
Mundial da Saúde) recomendou que até os dois anos de idade, as crianças não
sejam expostas às telas, e entre os dois a cinco anos, esse tempo seja reduzido
e limitado, para no máximo uma hora ao dia. O brincar, então, passa a ter um
papel crucial nas atividades saudáveis nesse período do desenvolvimento,
estimulando de forma adequada o desenvolvimento cognitivo, motor, social e
emocional das crianças. Jogar junto, brincar de faz-de-conta, construir e criar
personagens e histórias, usar a imaginação, compreender as regras, tudo isso é
extremamente importante para evitar a exposição às telas nesse período.
*The Shape of Play 2025", pesquisa conduzida entre março e abril de 2024, com apoio da MADO e da Dynata, envolvendo 33.449 participantes de todas as idades de sete países: Estados Unidos, China, Japão, Alemanha, Finlândia, Brasil e África do Sul.
Leopoldo Mandic
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