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sábado, 11 de outubro de 2025

Dia das Crianças: brincar sozinho ou em grupo?

Especialista explica a importância das diferentes formas de interação 

Segundo estudo da Mattel, cerca de quatro em cada dez entrevistados dizem não brincar o suficiente, seja por não ter companhia (38%), ou pela falta de segurança (34%); 

Letícia Amici, médica psiquiatra e professora da Faculdade São Leopoldo Mandic, também comenta o papel das atividades lúdicas no relacionamento familiar.

 

Existe um meme famoso que ilustra a diferença da relação de pais e filhos com as atividades lúdicas (ou brincadeiras) até os anos 1990 e agora. No primeiro quadro, representando o passado, a mãe pede para o filho voltar para a casa. No segundo, mais atual, a mãe pede que o filho vá brincar na rua. Um estudo* conduzido em sete países – incluindo o Brasil – pela empresa de brinquedos Mattel, com apoio dos institutos de dados e pesquisa MADO e Dynata, mostrou que a grande maioria das pessoas consideram a brincadeira como parte fundamental da vida cotidiana (85%) e uma forma de reduzir a solidão (87%). Porém, cerca de quatro em cada dez entrevistados dizem não brincar o suficiente, seja por não ter companhia (38%), ou pela falta de segurança (34%). 

Segundo Letícia Amici, médica psiquiatra e professora da Faculdade São Leopoldo Mandic, a brincadeira possui um papel fundamental para o desenvolvimento do processo cognitivo na infância. E brincar sozinho é tão importante quanto em grupo – com papéis específicos, essas duas atividades se complementam. De acordo com a especialista, enquanto a primeira estimula o desenvolvimento de habilidades cognitivas, as atividades coletivas favorecem a interação social e o gerenciamento das emoções. 

Já as brincadeiras em família são igualmente importantes nesta fase da vida: “Brincadeiras [em família] auxiliam na interação de diversas maneiras, estreitam os vínculos, aproximando membros de gerações diferentes, além de permitir reforçar aspectos importantes para a parentalidade saudável, com o direcionamento da atenção para o filho, a implementação de respostas cuidadosas, atentas, assim como a clareza e consistência das regras e limites”, acrescenta Letícia. 

Nesta entrevista, a especialista também comenta a dicotomia entre telas e mundo real, explicando a necessidade dos pais buscarem o equilíbrio, e importância da brincadeira para outros aspectos da formação da criança, como criatividade e desenvolvimento físico.
 

O que a ciência já comprovou sobre os impactos das atividades lúdicas no cérebro e na saúde mental?

Sabemos que as atividades lúdicas contribuem para a estruturação das circuitarias cerebrais, estimulando conexões neuronais e ativação de redes cerebrais importantes. Durante jogos e brincadeiras, por exemplo, sabemos que circuitos associados às funções executivas são estimulados, sejam através do controle inibitório, planejamento ou direcionamento da atenção, além de estimular regiões associadas à linguagem e à criatividade. Além desse estímulo direto nestes circuitos, o brincar também estimula a liberação de substâncias importantes para o funcionamento cerebral, como, por exemplo, a dopamina, associada ao prazer, aprendizado e motivação, contribuindo, consecutivamente, para o bem-estar.
 

Existe diferença entre brincar sozinho (ex.: montar um jogo de construção) e brincar em grupo (ex.: jogos de tabuleiro) em termos de benefícios para a saúde?

Sim, existem diferenças entre brincar sozinho ou em grupo, e de maneira geral, os efeitos se complementam. As brincadeiras “individuais" estimulam o desenvolvimento de habilidades cognitivas, como planejamento, flexibilidade, criatividade, imaginação, capacidade de abstração, estratégias autorregulatórias e de resiliência, além de contribuir com habilidades emocionais, como o gerenciamento de sentimentos, desenvolvimento da confiança, independência e senso de autoeficácia. 

Já o brincar com outras pessoas favorece a interação social, seja durante à cooperação e parcerias nos jogos, contribui com habilidades de comunicação efetiva, estimula o desenvolvimento de habilidades empáticas, além de auxiliar na aprendizagem do gerenciamento das emoções, seja nas vitórias, como também nas derrotas.
 

Qual é o papel do brincar em família no fortalecimento de vínculos entre pais e filhos?

Em nosso cotidiano, muitas vezes tão acelerado e sobrecarregado, cada vez mais estimulamos que as famílias consigam tempo de qualidade para interagirem de forma saudável. Brincadeiras como os jogos auxiliam na interação de diversas maneiras - estreitam os vínculos, aproximando membros de gerações diferentes, o que muitas vezes pode ser desafiador; podem servir como oportunidades de ensinar comportamentos e estratégias durante os jogos ou faz-de-conta, aumentando a confiança e autonomia dos filhos; aumentam as formas de comunicação, expressão e apoio emocional. Durante as brincadeiras os pais podem reforçar aspectos importantes para a parentalidade saudável - seja com o direcionamento da atenção para o filho, a implementação de respostas cuidadosas, atentas, assim como a clareza e consistência das regras e limites.
 

Brincadeiras mais físicas (ex.: jogar bola, correr com filhos) também podem ser consideradas formas de exercício com impacto positivo na saúde cardiovascular e metabólica?

Definitivamente! Atividades físicas, mesmo durante as brincadeiras, contribuem de forma positiva tanto no controle da pressão arterial, na melhora da função cardiovascular, como um todo, e na capacidade cardiorrespiratória. Também auxiliam no controle das taxas de glicemia, colesterol e triglicerídeos e favorecem o controle do peso corporal, essenciais pra saúde metabólica.
 

Em uma sociedade cada vez mais conectada a telas, o que os pais deveriam priorizar para estimular o brincar nas crianças?

Enfrentamos um grande desafio em como conciliar o desenvolvimento de nossas crianças com um acesso saudável a telas e jogos digitais. Recentemente, a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomendou que até os dois anos de idade, as crianças não sejam expostas às telas, e entre os dois a cinco anos, esse tempo seja reduzido e limitado, para no máximo uma hora ao dia. O brincar, então, passa a ter um papel crucial nas atividades saudáveis nesse período do desenvolvimento, estimulando de forma adequada o desenvolvimento cognitivo, motor, social e emocional das crianças. Jogar junto, brincar de faz-de-conta, construir e criar personagens e histórias, usar a imaginação, compreender as regras, tudo isso é extremamente importante para evitar a exposição às telas nesse período. 



*The Shape of Play 2025", pesquisa conduzida entre março e abril de 2024, com apoio da MADO e da Dynata, envolvendo 33.449 participantes de todas as idades de sete países: Estados Unidos, China, Japão, Alemanha, Finlândia, Brasil e África do Sul.


Leopoldo Mandic
slmandic.edu.br
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