Avanço da Maquila, incentivos fiscais e custos competitivos aumentam interesse de empresas brasileiras, mas análise completa da operação é considerada essencial antes da decisão de investir
O crescimento
dos investimentos, a expansão do regime de Maquila e a modernização dos
incentivos fiscais vêm consolidando o Paraguai como um dos destinos avaliados
por empresas brasileiras interessadas em internacionalizar suas operações.
Apesar do cenário favorável, especialistas alertam que benefícios tributários e
custos menores, isoladamente, não são suficientes para determinar se uma
operação será mais rentável no país vizinho.
Entre janeiro e julho de 2026, projetos enquadrados no regime paraguaio de incentivos fiscais somaram aproximadamente US$ 448 milhões, alta de 32% na comparação com o mesmo período do ano anterior. Segundo dados do Ministério de Industria y Comercio (MIC), foram 116 projetos aprovados, com expectativa de geração de 2.621 empregos. Cerca de 73% dos investimentos estavam concentrados no setor secundário, especialmente em atividades industriais e produtivas.
A indústria maquiladora também registra expansão. Até julho, as exportações do
setor chegaram a US$ 860 milhões, crescimento de 28% sobre o mesmo período de
2025. No período, 42 novos programas haviam sido autorizados, representando
cerca de US$ 59 milhões em investimentos e a projeção de 1.946 novos empregos.
Para Jonathan Roger Linzmeyer, fundador e presidente da CN Mercosul, o aumento
da divulgação sobre as oportunidades existentes no Paraguai precisa ser
acompanhado de uma análise individualizada de cada projeto. “Hoje existe muita
informação sobre o Paraguai circulando nas redes sociais, na imprensa e no
próprio mercado de consultoria. Isso é positivo porque apresenta o país ao
empresário brasileiro. O problema é utilizar uma informação geral para concluir
que determinada operação será automaticamente mais lucrativa no Paraguai. Cada
empresa precisa fazer a sua própria conta”, afirma.
Análise deve ir além dos impostos
Segundo Linzmeyer, uma avaliação
consistente de internacionalização deve considerar muito mais do que
tributação, logística, classificação fiscal, NCM, certificados de origem ou
percentuais de agregação de valor. Entre os fatores que podem interferir
diretamente no resultado estão custos com matéria-prima, mão de obra, energia,
transporte, estrutura societária, importação e exportação, incentivos
disponíveis, investimentos necessários e características específicas de cada
produto ou atividade.
A CN Mercosul desenvolveu uma metodologia de Estudo de Viabilidade que busca
reunir esses elementos e comparar a operação mantida ou projetada no Brasil com
um possível modelo estruturado no Paraguai. O trabalho já foi aplicado, segundo
a empresa, em negócios de diferentes portes e segmentos, incluindo pequenas e
médias empresas, multinacionais e companhias de capital aberto. “Nosso trabalho
não começa tentando provar que o Paraguai é melhor. Começa tentando descobrir
se o Paraguai é economicamente viável para aquela empresa, para aquele produto
e para aquela operação específica”, explica Linzmeyer.
Um dos objetivos do estudo é chegar a uma Demonstração do Resultado do
Exercício (DRE) projetada, permitindo ao empresário visualizar de maneira mais
ampla os impactos econômicos do investimento. “Antes da fábrica, antes da
empresa e antes do investimento, precisamos ter uma DRE. Não adianta descobrir
que determinado imposto é menor se, quando colocamos matéria-prima, logística,
mão de obra, estrutura, investimento e custos operacionais e comerciais dentro
da mesma conta, a margem não justifica o projeto”, ressalta.
Novas regras ampliam possibilidades
O interesse pelo Paraguai ocorre também em
um momento de mudanças na legislação de atração de investimentos. A Lei nº
7.547/2025 estabeleceu um novo marco para o Regime de Maquila, posteriormente
regulamentado pelo Decreto nº 5.714/2026, enquanto a Lei nº 7.548/2025 criou um
novo Regime de Incentivos Fiscais para Investimentos Nacionais e Estrangeiros.
Para Linzmeyer, a existência dos benefícios, porém, não elimina a necessidade
de avaliar o enquadramento de cada empresa e, principalmente, o retorno
econômico esperado. “Uma coisa é existir um benefício na legislação. Outra é a
empresa conseguir se enquadrar. E existe ainda uma terceira pergunta: depois de
todos os benefícios, custos e investimentos, essa operação gera o resultado
esperado?”, observa.
Estudo pode indicar que investimento não compensa
A análise também pode concluir que a instalação de determinada operação no Paraguai não é economicamente recomendável. Para a CN Mercosul, esse resultado não representa uma falha do projeto, mas justamente uma das funções de um estudo de viabilidade. “Se chegarmos à conclusão de que naquele cenário a operação não é viável, o estudo cumpriu seu papel. É muito melhor descobrir isso antes do investimento do que depois de comprar uma área, construir uma indústria, importar equipamentos, contratar funcionários e transferir parte da operação para outro país”, afirma Linzmeyer.
O Paraguai continua recebendo novos investimentos em setores como alimentos,
metalurgia, plásticos, indústria química e farmacêutica, têxtil, madeira e autopeças.
Em Alto Paraná, por exemplo, uma planta dos segmentos farmacêutico e
nutracêutico inaugurada em julho representou investimento superior a US$ 8
milhões. Na avaliação de Linzmeyer, o movimento confirma que existem
oportunidades concretas, mas também aumenta a responsabilidade dos empresários
na tomada de decisão. “O Paraguai vive um excelente momento e existem
oportunidades reais. Mas oportunidade não pode ser confundida com garantia de
rentabilidade. Internacionalização é uma decisão empresarial e precisa ser
tratada como tal”, afirma.
Para o presidente da CN Mercosul, a questão central deve ser respondida antes
de qualquer investimento: “O Paraguai pode ser uma excelente oportunidade. Mas,
antes de investir, existe uma pergunta que precisa ser respondida com números:
a conta realmente fecha?”
CN Mercosul - ecossistema empresarial estabelecido no Paraguai, dedicado ao desenvolvimento de negócios, internacionalização de empresas, atração de investimentos e fortalecimento das relações institucionais entre Brasil, Paraguai e os demais países do Mercosul. A organização atua conectando empresários, investidores, entidades e governos para transformar oportunidades em projetos estratégicos de longo prazo.
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