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| Jornada dos especialistas entra na segunda semana: oportunidade única de descobrir e coletar (foto: André Dib/Agência FAPESP) |
Acampada no topo de um platô na Serra do Aracá desde 24 de agosto, equipe de 16 cientistas está investigando a biodiversidade de ecossistemas isolados e pouco conhecidos do bioma
Sentada diretamente sobre o chão de uma das poucas áreas de floresta no topo de um platô da Serra do Aracá (AM), a entomologista Gabriela Procópio Camacho maneja um canivete para abrir pequenas frestas em um tronco de árvore caído. No interior da madeira em decomposição, uma colônia de cupins agita-se sob a luz que transpassa a copa das árvores.
Concentrada, a pesquisadora
posiciona a ponta de uma mangueira de borracha – semelhante às tiras elásticas
usadas em estilingues – em um dos buracos que conseguiu abrir no toco de
madeira. Ao sugar pela outra ponta do tubo, os insetos são aspirados pela tripa
de borracha e ficam retidos em uma pequena antecâmara plástica, vedada com uma
fina rede interna para evitar que Camacho os engula – embora esse tipo de
acidente ocorra com relativa frequência. Ela busca obstinadamente as rainhas da
colônia de cupins, cujos abdomens agigantados revelam seu papel reprodutivo na
colônia.
Os cupins não são o foco de
pesquisa da cientista, que é especialista em outro tipo de inseto social: as
formigas. Ainda assim, ela não hesita em passar horas agachada na terra,
sujeitando-se às mordidas das próprias formigas e às picadas das impertinentes
moscas-mutucas – onipresentes na Serra do Aracá –, para capturar todo tipo de
inseto que encontra pela frente.
“Essa é uma oportunidade única de coletar. Por isso, quero poder amostrar a maior parte dos insetos que eu conseguir para aproveitar ao máximo a viagem”, disse a pesquisadora à Agência FAPESP, enquanto colocava os espécimes de cupim que coletou em frascos de vidro com álcool. O material, mesmo que não seja analisado por ela, será destinado ao acervo biológico do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP), do qual é pesquisadora, para que outros especialistas possam estudá-lo.
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| Gabriela Procópio Camacho, cientista do Museu de Zoologia da USP (foto: Phelipe Janning/Agência FAPESP) |
Essa abnegação e obsessão desmedida em colaborar e não desperdiçar o tempo são a tônica da expedição à Serra do Aracá. Considerada o maior esforço de prospecção de biodiversidade já realizado no topo dessas montanhas isoladas do extremo norte do Amazonas, a jornada científica é encarada pelos 16 cientistas participantes como uma oportunidade única de coletar o maior número possível de espécimes de fauna e flora, além de amostras de água, solo e sangue de espécies de animais que, muito provavelmente, só existem aqui. O objetivo é conhecer melhor a biodiversidade desses ecossistemas de altitude, que tipicamente abrigam um conjunto de espécies completamente diferente daquelas que habitam as partes mais baixas da planície amazônica.
A expedição é financiada pela
FAPESP e realizada com o apoio do Exército Brasileiro, responsável pelas
operações logísticas e de segurança.
A equipe é composta por
cientistas de diversas instituições, incluindo a USP, os institutos Nacional de
Pesquisas da Amazônia (Inpa) e Federal do Amazonas (Ifam), as universidades
Federal de São Carlos (UFSCar), de Toulouse (na França) e Autônoma de Madri (na
Espanha), além do Jardim Botânico do Missouri (Estados Unidos) e do Museu de
História Natural de Oslo (Noruega) – todos com formação no Brasil e larga
experiência em trabalhos de campo na Amazônia. Entre eles estão especialistas
em répteis e anfíbios, mamíferos, aves, insetos, plantas e parasitas.
Trabalho
prévio
A pressa e a ansiedade dos
pesquisadores em iniciar as coletas já eram perceptíveis no embarque da equipe
em São Paulo, com destino a Manaus e, depois, a Barcelos, às margens do rio
Negro, onde está localizada a base operacional do Exército Brasileiro que dá
apoio à expedição.
Quanto mais rápido chegarmos,
melhor. Tempo é dinheiro e não podemos desperdiçar uma oportunidade valiosa de
coletar a maior quantidade possível de espécies", disseLuis Fábio Silveira,
ornitólogo e diretor do MZ-USP, na ocasião do embarque, em São Paulo.
O campo-base da expedição fica
a 1.260 metros de altitude, no topo de um tepui, como são chamadas as montanhas
de topo plano que dominam a paisagem dessa região norte da Amazônia, 220
quilômetros ao norte de Barcelos.
Para esse grupo de cientistas,
entretanto, a prospecção em campo não começou quando os pés deles tocaram o
platô de arenito, no dia 24 de agosto, mas sim muito antes da decolagem do
helicóptero do Exército que os trouxe ao Aracá. No caso das botânicas Vania Nobuko Yoshikawa,
pesquisadora do Inpa, e Jenifer de Carvalho Lopes,
pesquisadora do Jardim Botânico do Missouri, o planejamento prévio e minucioso
começou muito antes da decolagem.
“Nosso trabalho de campo começa
no laboratório. Antes de vir para cá, lemos vários artigos e consultamos listas
de espécies para saber o que podíamos encontrar. Não chegamos aqui totalmente
às cegas”, conta Yoshikawa.
O planejamento incluiu o estudo
de listas históricas de espécies da floresta amazônica, publicadas por
botânicos brasileiros e estrangeiros, além do mapeamento de dados em
repositórios digitais como o speciesLink – uma rede digital
brasileira criada em 2002, que integra e compartilha dados científicos sobre a
biodiversidade de plantas, animais, fungos e microrganismos.
O trabalho de coleta das
botânicas é realizado durante o dia. Às 6 horas, tomam café com o restante do
grupo e, por volta das 7h, saem para incursões nas matas ao redor do
acampamento. Ao contrário dos pesquisadores da zoologia, cujas buscas por
animais dependem da colocação de armadilhas em pontos específicos da paisagem
que eles revisitam diariamente, elas têm no platô da Serra do Aracá um amplo campo
para exploração, orientada pela análise visual dos diferentes padrões e
fisionomias de vegetação.
Nesse contexto de varredura ativa pelo platô, Lopes destaca que a tomada de decisão em campo é estritamente ditada pelo estado das plantas. “Para nossas coletas de material, precisamos que os espécimes estejam com flor ou com fruto, porque precisamos dessas estruturas reprodutivas para poder identificá-los no nível de gênero e de espécie", explica a pesquisadora.
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| Vania Nobuko Yoshikawa, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, e Jenifer de Carvalho Lopes, do Jardim Botânico do Missouri (foto: Phelipe Janning/Agência FAPESP) |
De volta ao acampamento na hora
do almoço, elas passam a tarde prensando as plantas em folhas de jornal e
organizando duplicatas de ramos (de três a cinco por indivíduo). As amostras
são guardadas em sacos plásticos com álcool para evitar fungos. Porém, como
esse processo dificulta a extração de DNA celular, elas realizam uma delicada
tarefa paralela: extraem pedaços de folhas saudáveis e os colocam em pequenos saquinhos
de chá com sílica gel para desidratação rápida e preservação do material
genético até o laboratório, quando retornarem.
Com a vegetação bastante
florida, as botânicas coletaram, durante os cinco primeiros dias da expedição,
mais de 100 espécimes e identificaram populações expressivas de canela-de-ema –
nome popular dado às plantas do gênero Vellozia – e orquídeas
terrestres do gênero Catasetum.
“Essas plantas vão ser tombadas
no Inpa e depois serão disseminadas para outros herbários no Brasil e em outros
países com os quais mantemos colaboração científica, como os do Jardim Botânico
do Rio de Janeiro, do Instituto de Biociências [IB] da USP e do Jardim Botânico
do Missouri”, explica Yoshikawa.
No ritmo
dos bichos
As coletas no platô expõem um
contraste profundo na rotina de trabalho dos diferentes grupos de especialistas
que integram a expedição. Enquanto as plantas aguardam estáticas a busca visual
das botânicas, que trabalham em “horário comercial” – do início da manhã ao fim
da tarde –, a zoologia segue os complexos ciclos biológicos e turnos de
atividade dos animais, que se “escondem” pelo campo.
Os ornitólogos (especialistas
em pássaros), por exemplo, despertam na escuridão total, por volta das 4h da
manhã. O objetivo é capturar aves que estão ativas no final da noite e nas
primeiras horas do dia – como corujas, bacuraus e guácharos – e registrar o
chamado "coro da aurora". “É o momento em que a passarinhada está
acordando com fome e, por isso, está mais ativa e é mais fácil avistá-los”,
explica Silveira, acompanhado de Igor Alvarenga, pesquisador associado do
MZ-USP.
Carregando binóculos,
gravadores de som e espingardas, eles abrem, ao amanhecer, dezenas de redes de
malha extremamente fina (chamadas “redes de neblina”). As redes funcionam como
armadilhas passivas até o fim da manhã, quando são retiradas as aves que
ficaram presas, para evitar que se machuquem. Os ornitólogos recolhem todos os
espécimes capturados e os levam para o acampamento, onde realizam a pesagem, a
medição, a retirada de tecidos e a preparação taxonômica – um processo
altamente metódico e rigoroso de processamento, posicionamento e conservação
física das espécies biológicas coletadas em campo.
“Essa preparação taxonômica
exige atenção absoluta e não tem margem para falhas. Não há espaço para erros
ou brincadeiras, porque uma amostra de tecido com o número trocado significa
que ela foi perdida”, contou Silveira.
A primeira semana de expedição
lhes rendeu gratas surpresas, como a presença expressiva de beija-flores,
devido à abundância de flores no platô nessa época do ano. O maior destaque foi
o beija-flor Colibri delphinae, do qual Silveira e Alvarenga já
coletaram três indivíduos – uma ave que não havia sido registrada nas
expedições anteriores à Serra do Imeri e ao Pico da Neblina. Em contrapartida,
as matas de encosta no topo da montanha frustraram as expectativas dos
pesquisadores pela surpreendente escassez de aves.
"Estávamos esperando
encontrar uma floresta bem mais povoada de passarinhos e, na verdade, ela é bem
vazia”, relatou Alvarenga. Embora o avistamento de um casal de araras-vermelhas
na primeira incursão dos pesquisadores tenha gerado entusiasmo inicial, os dias
seguintes confirmaram uma densidade de aves inesperadamente baixa, restando a
dúvida se esse silêncio foi consequência de dias ruins de coleta ou se é um
padrão.
Mais sorte tiveram os mastozoólogos Alexandre Percequillo, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), e Ana Paula Carmignotto, professora da UFSCar, especialistas em pequenos mamíferos. Ao iniciar a metódica revisão matinal das armadilhas que deixaram em campo na noite anterior, os pesquisadores constataram, no segundo dia de expedição, a captura de um roedor. Ao examinar o bicho ainda na gaiola, eles perceberam que podia se tratar de um resultado extremamente promissor: um exemplar que parece pertencer ao gênero Zygodontomys, um roedor típico de áreas abertas e de campinarana (tipo de vegetação nativa da região amazônica que cresce sobre solos arenosos e pobres em nutrientes), mas que também ocorre na altitude da Serra do Aracá. “Não tínhamos pegado esse animal nem nas expedições ao Pico da Neblina nem na Serra do Imeri”, contou Percequillo.
Ao levar o animal para o
laboratório de campo, a surpresa do líder da expedição foi imediata. “Eu nunca
tinha pegado esse bicho”, celebrou o biólogo Miguel Trefaut Rodrigues,
professor emérito do IB-USP. Ele ficou impressionado com a aparência física do
roedor e com o fato de ele já ter sido classificado como um Akodontini (uma
tribo de pequenos roedores) e hoje pertencer à tribo Oryzomyini. A captura foi
celebrada de forma descontraída como o marco em que a expedição oficialmente
"saiu do zero" no grupo dos pequenos mamíferos.
Animais
crepusculares
Já os anfíbios, que não toleram
altas temperaturas, utilizam a umidade e as temperaturas amenas da noite para
cantar e disputar território nos riachos. Por isso, logo após o jantar, por
volta das 18h, as equipes da herpetologia (especialistas em répteis e anfíbios)
entram na mata escura munidas de lanternas, sem hora para voltar.
Embora a maioria dos anuros
(sapos, rãs e pererecas) seja noturna, há algumas espécies que têm o pico de
atividade bem nessa fase de transição entre o dia e a noite, chamada de
lusco-fusco. Esse comportamento crepuscular funciona como um ajuste ecológico
direto. “É um nicho que eles ocupam, simplesmente", explicou o
herpetólogo Taran Grant, professor do IB-USP e
especialista em anuros.
Quando a escuridão começa a
cair sobre o platô, os cientistas já ficam a postos para acompanhar de perto a
transição entre as espécies diurnas e as noturnas. É nesse momento que a
floresta testemunha uma verdadeira "troca de turno" acústica. Como
muitos sapos cantam escondidos no solo ou no alto das árvores, descobrir o que
está produzindo cada som é um verdadeiro desafio, dificultado pelo fato de os
animais serem extremamente sensíveis e silenciarem ao menor sinal de
aproximação.
“Vocês perceberam que, quando a
gente chegou perto, ele percebeu a luz e parou de cantar?”, perguntou Taran
para mim e o cinegrafista da Agência FAPESP, Phelipe Janning,
durante uma incursão noturna. “A gente tem de apagar as luzes, esperar para ele
ficar mais tranquilo e começar a cantar de novo", aconselhou.
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| O herpetólogo Taran Grant (IB-USP), especialista em anuros: em busca do registro preciso de "cantos" e de quem exatamente está "cantando" (foto: André Dib/Agência FAPESP) |
Para o cientista, o desafio não é apenas capturar o áudio, mas flagrar o “cantor” em ação para garantir a confiabilidade da pesquisa. "É importante registrar exatamente qual é o indivíduo que está cantando, por vários motivos. Primeiro, porque temos de nos certificar de que um determinado canto é realmente dessa espécie. Por isso, eu gravo o áudio e observo o indivíduo cantando, com o saco vocal inflado", explicou o pesquisador. Esse exemplar físico capturado e associado diretamente à gravação em áudio é denominado "voucher".
Esse rigor metodológico é
vital, porque o canto varia individualmente de acordo com a temperatura
ambiente e o tamanho do corpo – com indivíduos menores emitindo frequências
mais agudas do que os maiores da mesma espécie.
Ao término dessa primeira fase
de exploração exaustiva, o balanço de coletas do grupo de herpetologia
consolidou resultados altamente expressivos. Foram registradas de oito a nove
espécies de anfíbios e de quatro a cinco espécies de lagartos. O grande
destaque do período foi a captura de um pequeno lagarto adaptado ao arenito das
áreas abertas do platô, apontado pelos pesquisadores como uma provável espécie
nova para a ciência. Diante do isolamento milenar da região, a expectativa de
descrever novas formas de vida permanece alta.

Vista aérea da região onde está ocorrendo a expedição (foto: André Dib/Agência FAPESP)
Leia as reportagens anteriores sobre a expedição à Serra do Aracá:
·
Leia as reportagens anteriores sobre
a expedição à Serra do Aracá:
- 24 de agosto: Expedição inédita vai mapear a biodiversidade do topo da Serra do Aracá, no norte do Amazonas
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/insetos-de-dia-anfibios-a-noite-a-rotina-de-uma-expedicao-cientifica-no-alto-da-amazonia/59137






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