Participação
das compras pagas com cartão de crédito sobe de 39,4% em 2023 para 43,6% em
2026, enquanto uso de dinheiro cai de 17,9% para 11,3% no estado de São Paulo,
de acordo com a Varejo 360. Comportamento é parecido nas principais cidades do
país 
IMAGEM: Marcos Peron/DC
O cartão de crédito consolidou-se como principal
meio de pagamento no varejo paulista e vem ampliando sua participação nas
vendas nos últimos anos.
A fatia das compras pagas com cartão de crédito
passou de 39,4% em 2023 para 41,5% em 2024, 42,6% em 2025 e chegou a 43,6% em
2026 (até agosto) no estado de São Paulo, de acordo com levantamento da Varejo
360, plataforma de inteligência de mercado.
O movimento, que, segundo a Varejo 360, também
reflete o comportamento observado nas principais cidades do país, acontece
paralelamente à perda de espaço do dinheiro em espécie.
Em 2023, os pagamentos em dinheiro representavam
17,9% das vendas. A participação caiu para 15,1% em 2024, 12,4% em 2025 e
chegou a 11,3% neste ano.
O cartão de débito também avançou no período. A
fatia, que era de 19,2% em 2023, passou para 18,9% em 2024, 25,4% em 2025 e
28,3% em 2026.
O Pix revela participação mais estável. O pagamento
instantâneo representava 4,6% das vendas em 2023, chegou a 5,2% em 2024, recuou
para 4,4% em 2025 e está em 4,6% em 2026.
O levantamento, que é feito a partir de notas
fiscais de consumidores, aponta ainda para uma forte redução de meios de pagamento
tradicionais.
A participação do boleto bancário caiu de 6,6% das
vendas em 2023 para 1,2% em 2026. As transferências bancárias e carteiras
digitais também recuaram, de 3,5% para 1% no período.
Os setores
O avanço do cartão de crédito é ainda mais
acentuado em alguns setores.
No varejo de alimentos, por exemplo, o cartão de
crédito passou de 30,5% das vendas em 2023 para 39% em 2026. O débito também
avançou, de 27,9% para 34,3%. Já o dinheiro em espécie despencou de 28,6% para
11,6%.
No segmento de farmácias e cosméticos, o crédito é
ainda mais dominante. A participação passou de 46,9% em 2023 para 53,5% em
2026. O débito subiu de 13,2% para 18,5%, enquanto o boleto perdeu espaço
expressivo, de 24,4% para 4,9%.
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expostas ao risco de crédito
No varejo não alimentício, o cartão de crédito
alcançou 53,9% das vendas em 2026, ante 47,8% em 2023. O débito passou de 8,8%
para 11,9% no mesmo período.
No Food Service, o crédito também avançou:
representava 44,5% das vendas em 2023 e chegou a 52,3% em 2026. Já o débito
caiu de 34,1% para 27,7%.
No setor de bricolagem, o crédito passou de 39,5%
para 51,4%, enquanto o Pix avançou de 4,2% para 7,5%.
O setor automotivo apresenta um comportamento
diferente. Embora o cartão de crédito continue sendo o principal meio de
pagamento, a participação caiu de 50,5% em 2023 para 46,5% em 2026. O dinheiro
em espécie ganhou espaço, de 13,3% para 24,6%.
‘Cheque Especial’
Fernando Faro, diretor e fundador da Varejo 360,
diz que o avanço dos pagamentos eletrônicos está relacionado, principalmente,
ao aumento da bancarização da população brasileira e à menor disponibilidade de
dinheiro do consumidor.
“O cartão de crédito se tornou o cheque especial da
população.” Na prática, o cartão permite que o consumidor faça a compra imediatamente
e deixe o pagamento para depois.
Esse avanço do crédito, diz Faro, altera toda a
dinâmica financeira do varejo. Ao pagar uma compra com cartão, o consumidor
passa a ter uma dívida com o banco, enquanto o lojista até pode receber
antecipadamente o valor da venda, mas mediante desconto de uma taxa.
No segundo semestre de 2025, as transações com
cartão de crédito cresceram 9,4% em quantidade e 13% em valor financeiro, na
comparação com o mesmo período de 2024.
O número de cartões de crédito ativos aumentou 7%,
para 253,8 milhões, de acordo com dados do Banco Central (BC).
O crescimento, porém, não significa necessariamente
que o consumidor esteja em situação financeira mais confortável, de acordo com
Faro.
Alerta para a inadimplência
O cartão ganhou espaço no varejo paulista e ajuda a
sustentar o consumo, mas seu avanço ocorre ao mesmo tempo em que aumentam
o endividamento das famílias e a inadimplência.
“Isso acende um sinal de alerta em relação ao
consumo futuro”, afirma Fábio Silveira, sócio-diretor da MacroSector
Consultores.
Em um momento de desaceleração econômica, diz, a
utilização do cartão precisa ser criteriosa. Segundo ele, o cartão representa cerca
de 20% do volume de financiamento ao consumidor.
A inadimplência, que historicamente ficava em torno
de 3% a 3,5%, avançou fortemente nos últimos dois anos, diz Silveira.
Com base em dados do Banco Central (BC), o índice
estava em 3,65% em julho de 2024 e em 4,83% em agosto de 2025. Em março de
2026, a taxa subiu para 5,26% e, em julho, para 6%.
“Houve uma elevação explosiva”, afirma.
Endividamento das famílias
Outro indicador preocupa, de acordo com o economista.
O aumento da inadimplência ocorre em um cenário de forte crescimento do
endividamento das famílias.
Silveira estima que o endividamento dos
consumidores alcance R$ 2,54 trilhões em 2026, ante R$ 2,31 trilhões em 2025,
uma alta de aproximadamente 10%.
Nesse montante estão incluídas dívidas de cartão de
crédito, cheque especial, empréstimos bancários, financiamento de veículos e
outras modalidades de crédito.
“Independentemente da modalidade, o comprometimento
da renda reduz a capacidade do consumidor de honrar novas dívidas.”
Pressão sobre empresas
Esse movimento pode se transformar em um freio para
o próprio varejo, e a pressão já atinge grandes empresas do setor e seus
credores.
Desde 2023, grandes redes varejistas brasileiras
reestruturaram mais de R$ 68 bilhões em dívidas por meio de recuperações
judiciais ou extrajudiciais.
Em 2026, a onda de reestruturações alcançou
empresas como Casas Bahia, Marabraz e Tok&Stok.
O caso da Casas Bahia é um dos mais relevantes: a
companhia entrou com pedido de recuperação judicial em agosto, com R$ 17,3
bilhões em dívidas sujeitas ao processo. Entre os principais credores estão
instituições como Banco do Brasil e Bradesco.
O movimento também coloca os bancos no centro da
questão, já que a deterioração financeira das grandes redes pode elevar o risco
de perdas de crédito e, consequentemente, a necessidade de provisões.
Varejo de moda
Para Admar Corrêa, sócio-diretor da Peers
Consulting + Technology, o crédito tem papel relevante na estratégia das
varejistas de moda porque estimula as compras.
Mas, ao mesmo tempo, diz, aumenta a exposição das
empresas ao risco de inadimplência.
A inadimplência acima de 90 dias nos cartões
Riachuelo passou de 15,1% no primeiro trimestre para 15,4% no segundo trimestre
de 2026.
Já os atrasos de 15 a 90 dias recuaram de 7,1% para
6,5%. Segundo a companhia, a inadimplência dos cartões permaneceu controlada e
em patamares considerados saudáveis.
LEIA TAMBÉM: Casas Bahia, Marabraz e outras mais expõem os desafios do varejo
atual e os caminhos da necessária evolução
Na Renner, os atrasos no pagamento acima de 90 dias
chegaram a 24,1% no segundo trimestre deste ano. A taxa era de 23,8% em igual
período do ano passado.
Na C&A, a inadimplência atingiu 14,2% no
primeiro trimestre deste ano e 13,4% no segundo trimestre.
Em recente análise sobre varejistas de moda, Corrêa
cita que, diante do risco de aumento da inadimplência, a Renner reduziu a
carteira de financiamento para preservar a qualidade.
“Com o endividamento elevado das famílias, as
empresas já estão mais cautelosas na concessão de financiamento e precisam
avaliar melhor para quem e quando oferecer crédito.”
Além da maior seletividade na concessão de crédito,
diz, as empresas estão mais conservadoras em relação à expansão das lojas e ao
crescimento das receitas.
“Deixar de oferecer crédito não é uma opção para o
varejo, mas o momento exige mais cuidado na avaliação dos consumidores”, avalia
Corrêa.
Perspectivas
Para Silveira, o cartão continua sendo importante
para sustentar o consumo, mas seu efeito pode mudar à medida que aumenta o
comprometimento da renda das famílias.
De um lado, o consumidor passa a ter menos espaço
no orçamento para novas compras. De outro, o lojista precisa lidar com o risco
de não receber ou com custos financeiros maiores.
“O cenário exige dos comerciantes maior controle
sobre o crédito concedido aos clientes.”
Com consumidores mais endividados, menor renda
disponível e custos financeiros elevados, o crédito pode deixar de ser um
estímulo ao consumo e se transformar em limite para novas compras.
O Diário do omrci
Fátima Fernandeshttps://dcomercio.com.br/publicacao/s/cartao-cresce-e-dinheiro-perde-espaco-nas-compras-no-varejo
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