A maioria das empresas está genuinamente aberta ao que uma pesquisa de mercado diz. O problema é o momento em que ela é realizada.
Acompanhamos, ao
longo do tempo, três casos parecidos entre si. Pessoas que tinham uma ideia de
negócio e procuraram pesquisa de mercado antes de abrir a empresa, antes de
alugar ponto, contratar equipe ou investir qualquer capital. Em dois desses
casos, a pesquisa confirmou o que a intuição já apontava, a ideia era boa e o
negócio se mostrava viável financeiramente.
Já no terceiro, a
ideia também era boa, mas o problema estava na conta. O mercado até validava a
proposta, só que os números não fechavam de um jeito que sustentasse a operação
no médio prazo.
Mesma qualidade de
percepção nos três casos, resultado financeiro diferente.
Nestes casos, a diferença
não foi a intuição de quem empreende, foi o momento em que a pesquisa entrou.
Nos três, ela chegou antes do primeiro real investido, o que significa que, no
terceiro caso, descobrir que a conta não fechava custou uma pesquisa, não um
negócio inteiro.
Essa é a exceção,
não a regra. Em algumas das empresas que acompanhamos, a pesquisa chega depois
que recursos já foram comprometidos, verba aprovada, contratação feita, ponto
alugado, anúncio marcado.
Nesse cenário, ela
deixa de ter função estratégica, mesmo que todos na sala estejam genuinamente
dispostos a mudar de ideia. O comprometimento organizacional já fechou as
portas que a pesquisa deveria ter ajudado a abrir ou fechar antes.
O
momento da pesquisa
Isso muda a
pergunta que interessa fazer. Não deve ser "estamos abertos ao que a
pesquisa disser", mas sim "em que ponto do processo a pesquisa está
entrando, e quantas decisões já foram tomadas antes dela?".
Uma pesquisa que
chega depois do orçamento aprovado não testa hipótese, apenas documenta uma
trajetória que já não tem mais saída. Uma pesquisa que chega antes do primeiro
real investido ainda tem poder de mudar o rumo, porque o custo de reversão
nesse momento é baixo.
E aqui, chegamos a
um ponto crucial: “reversão” é a palavra que a maioria das empresas subestima.
O custo de mudar de ideia não é fixo, ele cresce junto com o comprometimento
acumulado. No início de um projeto, voltar atrás custa uma reunião
desconfortável. Depois de contratar equipe, custa desligamento. Depois de
anunciar ao mercado, custa reputação. Por isso, a pesquisa só cumpre sua função
de reduzir risco quando acontece na etapa em que o custo de mudança ainda é
baixo.
Depois disso, ela
vira justificativa, por mais rigorosa que tenha sido a metodologia.
Calendário
e efeito prático
Na Palco, uma das
primeiras perguntas que fazemos antes de aceitar desenhar uma pesquisa não é
sobre o objeto de estudo. É sobre o calendário da decisão. O que já foi
comprometido, o que ainda está em aberto e quando a pesquisa precisa entregar
resposta para ainda ter efeito prático sobre o que a empresa vai fazer.
Quando descobrimos
que a resposta só vai chegar depois que a decisão já se tornou irreversível na
prática, o trabalho muda de natureza. Deixa de ser inteligência de decisão e
passa a ser apenas leitura de retrovisor, ainda que ninguém tenha planejado
assim.
Reduzir risco
antes da decisão exige, portanto, menos disposição filosófica para mudar de
ideia e mais disciplina de calendário. Trazer a pesquisa para o momento em que
ela ainda pode alterar o que será feito, e não para o momento em que só resta
explicar o que já foi feito.
É uma mudança de
posição no processo, não de atitude diante do dado.
Antes de aprovar
orçamento, contratar equipe ou marcar data de anúncio, vale perguntar se a
pesquisa já entrou na conversa, ou se vai entrar tarde demais para importar. Se
a resposta for a segunda, o problema não vai aparecer no relatório final. Vai aparecer
bem antes, na hora em que a empresa decidir o que fazer com ele.
Sobre a Palco Inteligência de Negócios
A Palco Inteligência de Negócios é uma empresa sediada em Porto Alegre (RS) que atua com pesquisa de mercado, inteligência de negócios e estratégia aplicada. A empresa apoia organizações em decisões de crescimento, posicionamento, expansão e inovação, combinando método, análise de contexto e interpretação de dados para transformar informações em direcionamentos concretos.
Com atuação em pesquisa de mercado, assessoria em gestão estratégica e modelagem de negócios, a Palco trabalha com empresas e lideranças que precisam compreender melhor seus clientes, concorrentes, oportunidades e cenários antes de tomar decisões relevantes. Fundada a partir da experiência das sócias em docência, pesquisa e consultoria, a empresa defende decisões sustentadas por evidências e ajuda negócios a reduzir o peso do achismo em movimentos estratégicos.
Juliana Saboia - Sócia da Palco Inteligência de Negócios. Mestre em Administração e especialista em Marketing

Nenhum comentário:
Postar um comentário