Pesquisa latino-americana apresentada
na ASCO 2026 mostra que treinamento aumenta significativamente o uso da
tecnologia e a confiança dos médicos na tomada de decisão
A
biópsia líquida vem ganhando espaço no tratamento do câncer de pulmão e promete
ampliar ainda mais sua presença nos próximos anos. Apesar da rápida
incorporação da tecnologia à prática clínica, um novo estudo latino-americano
revela que muitos oncologistas ainda enfrentam dificuldades para interpretar os
resultados desses exames, considerados fundamentais para a medicina de
precisão.
Os
dados serão apresentados durante a reunião anual da Sociedade Americana de
Oncologia Clínica (ASCO 2026) por meio do estudo OMEGA (LACOG 0424/GBOT), que
avaliou o conhecimento, as atitudes e as práticas de médicos da América Latina
em relação ao uso da biópsia líquida em pacientes com câncer de pulmão de não
pequenas células (NSCLC).
A
pesquisa ouviu 178 oncologistas entre agosto e dezembro de 2024, sendo 84,8%
deles brasileiros. Embora 72,5% dos participantes tenham relatado já utilizar a
biópsia líquida na prática clínica, apenas 30% afirmaram sentir confiança na
interpretação dos resultados obtidos.
Para
William Nassib William Jr., líder nacional da especialidade de tumores
torácicos da Oncoclínicas, os dados refletem um momento de transformação da
oncologia, em que novas tecnologias chegam rapidamente ao consultório, mas
exigem atualização contínua dos profissionais.
"A
biópsia líquida é uma ferramenta extremamente promissora porque permite
identificar alterações moleculares importantes por meio de uma simples coleta
de sangue, auxiliando na escolha dos tratamentos mais adequados para cada paciente.
No entanto, trata-se de um exame complexo, tanto na sua realização quanto na
interpretação dos resultados", explica.
A
tecnologia detecta fragmentos de DNA tumoral circulando na corrente sanguínea,
permitindo identificar mutações genéticas que podem direcionar o uso de
terapias-alvo e outras estratégias personalizadas. Em muitos casos, o exame
pode complementar ou até evitar procedimentos invasivos para obtenção de tecido
tumoral.
Falta
de treinamento ainda é um obstáculo
O
estudo identificou que metade dos oncologistas entrevistados não recebeu nenhum
treinamento formal sobre biópsia líquida nos três anos anteriores à pesquisa.
Ao mesmo tempo, os dados mostram que a educação médica tem impacto direto na
adoção da ferramenta. Entre os profissionais que participaram de treinamentos
específicos, 87,2% solicitaram o exame na prática clínica, contra 60,7%
daqueles sem capacitação recente.
A
diferença também apareceu na confiança para interpretar os resultados. Entre os
médicos treinados, 86% relataram segurança na análise dos testes moleculares,
percentual que caiu para 53,9% entre aqueles sem atualização formal.
"Os
resultados mostram que existe uma grande disposição dos oncologistas em
incorporar novas tecnologias ao cuidado dos pacientes. Mas isso precisa ser
acompanhado por programas robustos de educação para que os exames sejam
solicitados de forma adequada e utilizados corretamente na tomada de decisão
clínica", afirma William William.
Apesar
dos desafios, o futuro da biópsia líquida parece promissor. Quase todos os
participantes do levantamento (96,1%) acreditam que o uso da tecnologia
aumentará nos próximos cinco anos.
Segundo
o oncologista, essa expectativa acompanha a evolução da medicina personalizada,
que busca adaptar o tratamento às características biológicas específicas de
cada tumor. "Estamos caminhando para uma oncologia cada vez mais orientada
por biomarcadores. Quanto maior for nossa capacidade de identificar alterações
moleculares relevantes, maior será a possibilidade de oferecer tratamentos mais
precisos e eficazes para os pacientes", destaca.
Para
os pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de ampliar iniciativas
educacionais em toda a América Latina, garantindo que a expansão da biópsia
líquida ocorra de forma equitativa e com qualidade assistencial. “O desafio
agora não é apenas ampliar o acesso à tecnologia, mas garantir que ela seja
utilizada da melhor forma possível para beneficiar os pacientes", conclui
William William.
Oncoclínicas&Co
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