terça-feira, 2 de junho de 2026

Biópsia líquida já faz parte da rotina dos oncologistas, mas maioria ainda não se sente preparada para interpretar resultados

  

Pesquisa latino-americana apresentada na ASCO 2026 mostra que treinamento aumenta significativamente o uso da tecnologia e a confiança dos médicos na tomada de decisão
 

A biópsia líquida vem ganhando espaço no tratamento do câncer de pulmão e promete ampliar ainda mais sua presença nos próximos anos. Apesar da rápida incorporação da tecnologia à prática clínica, um novo estudo latino-americano revela que muitos oncologistas ainda enfrentam dificuldades para interpretar os resultados desses exames, considerados fundamentais para a medicina de precisão. 

Os dados serão apresentados durante a reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO 2026) por meio do estudo OMEGA (LACOG 0424/GBOT), que avaliou o conhecimento, as atitudes e as práticas de médicos da América Latina em relação ao uso da biópsia líquida em pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células (NSCLC). 

A pesquisa ouviu 178 oncologistas entre agosto e dezembro de 2024, sendo 84,8% deles brasileiros. Embora 72,5% dos participantes tenham relatado já utilizar a biópsia líquida na prática clínica, apenas 30% afirmaram sentir confiança na interpretação dos resultados obtidos. 

Para William Nassib William Jr., líder nacional da especialidade de tumores torácicos da Oncoclínicas, os dados refletem um momento de transformação da oncologia, em que novas tecnologias chegam rapidamente ao consultório, mas exigem atualização contínua dos profissionais. 

"A biópsia líquida é uma ferramenta extremamente promissora porque permite identificar alterações moleculares importantes por meio de uma simples coleta de sangue, auxiliando na escolha dos tratamentos mais adequados para cada paciente. No entanto, trata-se de um exame complexo, tanto na sua realização quanto na interpretação dos resultados", explica. 

A tecnologia detecta fragmentos de DNA tumoral circulando na corrente sanguínea, permitindo identificar mutações genéticas que podem direcionar o uso de terapias-alvo e outras estratégias personalizadas. Em muitos casos, o exame pode complementar ou até evitar procedimentos invasivos para obtenção de tecido tumoral.
 

Falta de treinamento ainda é um obstáculo 

O estudo identificou que metade dos oncologistas entrevistados não recebeu nenhum treinamento formal sobre biópsia líquida nos três anos anteriores à pesquisa. Ao mesmo tempo, os dados mostram que a educação médica tem impacto direto na adoção da ferramenta. Entre os profissionais que participaram de treinamentos específicos, 87,2% solicitaram o exame na prática clínica, contra 60,7% daqueles sem capacitação recente. 

A diferença também apareceu na confiança para interpretar os resultados. Entre os médicos treinados, 86% relataram segurança na análise dos testes moleculares, percentual que caiu para 53,9% entre aqueles sem atualização formal. 

"Os resultados mostram que existe uma grande disposição dos oncologistas em incorporar novas tecnologias ao cuidado dos pacientes. Mas isso precisa ser acompanhado por programas robustos de educação para que os exames sejam solicitados de forma adequada e utilizados corretamente na tomada de decisão clínica", afirma William William. 

Apesar dos desafios, o futuro da biópsia líquida parece promissor. Quase todos os participantes do levantamento (96,1%) acreditam que o uso da tecnologia aumentará nos próximos cinco anos. 

Segundo o oncologista, essa expectativa acompanha a evolução da medicina personalizada, que busca adaptar o tratamento às características biológicas específicas de cada tumor. "Estamos caminhando para uma oncologia cada vez mais orientada por biomarcadores. Quanto maior for nossa capacidade de identificar alterações moleculares relevantes, maior será a possibilidade de oferecer tratamentos mais precisos e eficazes para os pacientes", destaca. 

Para os pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de ampliar iniciativas educacionais em toda a América Latina, garantindo que a expansão da biópsia líquida ocorra de forma equitativa e com qualidade assistencial. “O desafio agora não é apenas ampliar o acesso à tecnologia, mas garantir que ela seja utilizada da melhor forma possível para beneficiar os pacientes", conclui William William.

 

Oncoclínicas&Co


 

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