Taxa
fica abaixo de 5% pela primeira vez desde 2016; para especialista, o gargalo
agora é o alfabetismo funcional, que atinge 29% dos brasileiros e piora entre
os jovens
O Brasil registrou em 2025 a menor taxa de analfabetismo de
sua série histórica. Dados da PNAD Contínua Educação, divulgados pelo IBGE
nesta semana, mostram que 4,9% da população com 15 anos ou mais ainda não
sabe ler nem escrever um bilhete simples — 8,4 milhões de
pessoas. É a primeira vez que o indicador fica abaixo de 5% desde
2016, início da série.
O avanço se concentra nas gerações mais novas. Entre
pessoas de 15 a 59 anos, a taxa cai para 2,6%; a maior parte
dos analfabetos, 58% do total, tem 60 anos ou mais. "A alfabetização
básica deixou de ser o gargalo para quem entra hoje no mercado", afirma
Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador da FM2S, PhD pela Unicamp e gestor
de carreiras.
O problema, segundo o especialista, mudou de lugar. O mercado
passou a exigir um nível de leitura que vai além de decifrar palavras. O
Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), da Ação Educativa com o Instituto
Paulo Montenegro, aponta que 29% dos brasileiros de 15 a 64 anos são
analfabetos funcionais: leem, mas têm dificuldade de aplicar a
leitura no dia a dia. "O mercado cobra um degrau acima, como interpretar
um contrato ou ler um gráfico", observa Santos.
O quadro preocupa mais entre os jovens, faixa em que o
índice subiu de 14% para 16% em seis anos. "Terminar o ensino médio também
não blinda: 17% de quem chega a essa etapa segue como analfabeto funcional, e
apenas 10% da população alcança o nível mais alto da escala. Concluir a escola
garante menos do que saber compreender e aplicar o que se lê", analisa o
gestor.
Santos avalia que o cenário tem raiz social e exige resposta
de política pública. "A necessidade de trabalhar tira muitos jovens da
escola antes da hora, e o peso recai de forma desigual sobre as mulheres,
sobrecarregadas com afazeres domésticos e cuidados, como registra o próprio
IBGE. Sem creche, transporte e divisão de tarefas, parte dessas pessoas fica
para trás", ressalta.
Os caminhos, na sua análise, somam duas frentes: "manter o
aluno na escola e garantir que ele aprenda de fato, com ensino conectado ao que
o trabalho exige e qualificação contínua ao longo da vida".
Para as mulheres, ele defende políticas de cuidado, como vagas em creche,
escola em tempo integral e apoio à permanência, que liberem tempo para estudar
e trabalhar. "A escola precisa do poder público, da empresa e da família
puxando junto", reforça Santos.
Sem esse passo, alerta, o avanço nos números não chega à
carreira. “As mesmas pessoas que travam diante de um contrato ou de um gráfico
entram no mercado em desvantagem e encontram menos espaço para crescer. O
Brasil aprendeu a levar a criança à escola; agora precisa garantir que ela
aprenda", conclui.
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