quarta-feira, 24 de junho de 2026

Analfabetismo cai ao menor nível da série histórica, mas alfabetismo funcional segue estagnado

Taxa fica abaixo de 5% pela primeira vez desde 2016; para especialista, o gargalo agora é o alfabetismo funcional, que atinge 29% dos brasileiros e piora entre os jovens 

 

O Brasil registrou em 2025 a menor taxa de analfabetismo de sua série histórica. Dados da PNAD Contínua Educação, divulgados pelo IBGE nesta semana, mostram que 4,9% da população com 15 anos ou mais ainda não sabe ler nem escrever um bilhete simples — 8,4 milhões de pessoas. É a primeira vez que o indicador fica abaixo de 5% desde 2016, início da série.

 

O avanço se concentra nas gerações mais novas. Entre pessoas de 15 a 59 anos, a taxa cai para 2,6%; a maior parte dos analfabetos, 58% do total, tem 60 anos ou mais. "A alfabetização básica deixou de ser o gargalo para quem entra hoje no mercado", afirma Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador da FM2S, PhD pela Unicamp e gestor de carreiras.

 

O problema, segundo o especialista, mudou de lugar. O mercado passou a exigir um nível de leitura que vai além de decifrar palavras. O Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), da Ação Educativa com o Instituto Paulo Montenegro, aponta que 29% dos brasileiros de 15 a 64 anos são analfabetos funcionais: leem, mas têm dificuldade de aplicar a leitura no dia a dia. "O mercado cobra um degrau acima, como interpretar um contrato ou ler um gráfico", observa Santos.

 

O quadro preocupa mais entre os jovens, faixa em que o índice subiu de 14% para 16% em seis anos. "Terminar o ensino médio também não blinda: 17% de quem chega a essa etapa segue como analfabeto funcional, e apenas 10% da população alcança o nível mais alto da escala. Concluir a escola garante menos do que saber compreender e aplicar o que se lê", analisa o gestor.

 

Santos avalia que o cenário tem raiz social e exige resposta de política pública. "A necessidade de trabalhar tira muitos jovens da escola antes da hora, e o peso recai de forma desigual sobre as mulheres, sobrecarregadas com afazeres domésticos e cuidados, como registra o próprio IBGE. Sem creche, transporte e divisão de tarefas, parte dessas pessoas fica para trás", ressalta.

 

Os caminhos, na sua análise, somam duas frentes: "manter o aluno na escola e garantir que ele aprenda de fato, com ensino conectado ao que o trabalho exige e qualificação contínua ao longo da vida". Para as mulheres, ele defende políticas de cuidado, como vagas em creche, escola em tempo integral e apoio à permanência, que liberem tempo para estudar e trabalhar. "A escola precisa do poder público, da empresa e da família puxando junto", reforça Santos.

 

Sem esse passo, alerta, o avanço nos números não chega à carreira. “As mesmas pessoas que travam diante de um contrato ou de um gráfico entram no mercado em desvantagem e encontram menos espaço para crescer. O Brasil aprendeu a levar a criança à escola; agora precisa garantir que ela aprenda", conclui. 

 

Virgilio Marques dos Santos - PhD em Engenharia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Master Black Belt em Lean Seis Sigma e sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria, startup sediada no Parque Científico e Tecnológico da Unicamp. Trabalha há 15 anos com desenvolvimento de carreiras, futuro do trabalho e transformação organizacional. É autor do livro "Partiu Carreira", TEDx Speaker e palestrante em temas de gestão, inovação e liderança.


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