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A Fundação
Universitária para o Vestibular (Fuvest), principal porta de entrada para a
Universidade de São Paulo (USP), divulga anualmente uma lista de obras
obrigatórias que devem ser lidas pelos candidatos. Com títulos que abordam diferentes
questões sociais e culturais, pelo segundo ano consecutivo a seleção é composta
exclusivamente por obras escritas por mulheres.
Para Mauricio
Soares da Silva Filho, professor de Português do Sistema Anglo de Ensino,
o contato com a literatura exigida pela Fuvest deve começar ainda nos primeiros
anos do Ensino Médio. Além de proporcionar o conhecimento necessário para a
prova, o hábito da leitura contribui para a compreensão de textos e enunciados
em outras disciplinas.
“Ler não deve ser
visto como algo penoso ou apenas como uma obrigação escolar. Trata-se de um
processo enriquecedor, com obras variadas e de qualidade, capazes de dialogar
com diferentes perfis de leitores. A questão da mulher, em distintas épocas e
visões de mundo, atravessa toda a lista e amplia a formação cultural dos
estudantes”, afirma o educador.
O professor também
destaca que a escolha de um conjunto formado exclusivamente por autoras representa
uma importante valorização de escritoras que, historicamente, receberam menos
atenção nos currículos escolares e acadêmicos.
“Após décadas de
silenciamento, estudar obras escritas por mulheres contribui para que o aluno
compreenda a importância de ampliar vozes e perspectivas. Essa valorização
impacta sua formação como leitor e como cidadão”, pontua.
Reunindo autoras
de diferentes épocas e países de língua portuguesa, a lista da Fuvest 2027
contempla obras que dialogam com questões históricas, sociais, políticas e
existenciais. Para auxiliar os estudantes na preparação, Maurício destaca os
principais temas e características de leitura presentes em cada um dos títulos
exigidos. Confira!
Opúsculo
Humanitário – Nísia Floresta
Publicado em 1853,
Opúsculo Humanitário reúne 62 artigos, alguns deles anteriormente divulgados em
periódicos como O Diário do Rio de Janeiro e O Liberal.
Os textos abordam
temas como a opressão feminina e a importância da educação para as mulheres. Ao
retratar a realidade da época, a autora critica as limitadas perspectivas
oferecidas ao público feminino, cuja formação era frequentemente direcionada
apenas às atividades domésticas.
Ao longo da obra,
Nísia Floresta apresenta um panorama da atuação das mulheres em diferentes
culturas e períodos históricos, defendendo a educação como instrumento de
cidadania e transformação social.
Nebulosas
– Narcisa Amália
Publicado em 1872,
Nebulosas é um livro de poemas representativo do Romantismo brasileiro. Na
obra, Narcisa Amália dialoga com importantes autores do período, como Castro
Alves.
Entre os diversos
temas abordados, destacam-se a melancolia e a poesia afetiva, marcas do estilo
da autora. Os poemas também apresentam características das três gerações
românticas, reunindo elementos como nacionalismo, subjetividade e críticas
sociais.
Segundo o
professor, a linguagem utilizada pode representar um desafio para os vestibulandos.
“O livro apresenta uma linguagem bastante erudita e versos que exigem atenção
do leitor, o que pode tornar a leitura mais desafiadora para alguns
estudantes”, explica.
Memórias
de Martha – Júlia Lopes de Almeida
Escrito por Júlia
Lopes de Almeida, uma das romancistas mais importantes e lidas da Primeira
República, Memórias de Martha foi publicado em 1899.
A obra narra a
trajetória de Martha, jovem que vê a mãe assumir sozinha a responsabilidade
financeira da família após a morte injusta do pai, acusado de roubo. Ao se
mudar para um cortiço no Rio de Janeiro, ela passa a conviver com problemas
sociais que permanecem atuais, como a pobreza e a desigualdade.
A educação surge
como elemento central em sua trajetória, tornando-se uma ferramenta de ascensão
e transformação. Ao longo da narrativa, a autora evidencia como as
desigualdades sociais e os privilégios influenciam o destino dos indivíduos.
“Martha narra sua história aos 32 anos, revisitando a própria infância e
refletindo sobre sua relação com a mãe, seu processo de autoconhecimento e as
estratégias de sobrevivência em uma sociedade marcada pelo machismo”, analisa o
especialista.
Caminho
de Pedras – Rachel de Queiroz
Publicado em 1937,
Caminho de Pedras retrata a formação do Partido Comunista no Ceará em um
período de intensa mobilização política no Brasil. “É uma narrativa marcada por
uma forte dimensão social, que aborda as demandas dos trabalhadores e a luta
por melhores condições de vida e trabalho. Ao mesmo tempo, a trama também
desenvolve uma história de amor permeada por questões políticas”, comenta o
professor.
A autora articula
o contexto político por meio do triângulo amoroso entre Roberto, Noemi e João
Jacques. A participação de Noemi nas atividades políticas rompe com os padrões
sociais da época, que restringiam o papel feminino ao casamento e à
maternidade.
A
Paixão Segundo G.H. – Clarice Lispector
Publicado em 1964,
A Paixão Segundo G.H. acompanha a experiência transformadora vivida por uma
mulher ao se deparar com uma barata no quarto de sua empregada doméstica.
O encontro
desencadeia uma profunda reflexão existencial e conduz a personagem a um
intenso processo de autoconhecimento. “É um livro intimista e reflexivo,
marcado pelo fluxo de consciência. Trata-se de uma obra impactante, que
proporciona uma experiência de leitura desafiadora e fundamental para a
formação do leitor”, destaca Maurício.
A obra também
suscita reflexões sobre questões raciais e sociais, especialmente ao evidenciar
a invisibilidade da empregada doméstica na percepção da protagonista.
Geografia
– Sophia de Mello Breyner Andresen
Em Geografia, a
poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen reúne poemas que exploram
diferentes espaços físicos e simbólicos, reorganizando a percepção do lugar e
da relação do ser humano com o mundo.
Com forte
musicalidade e frequentes referências à natureza, a autora constrói uma poesia
lírica marcada pela contemplação e pela reflexão. O professor destaca que um
dos poemas aborda Brasília, criando um interessante diálogo entre a autora
portuguesa e a realidade brasileira por meio da arquitetura e da construção da
cidade.
Balada
de Amor ao Vento – Paulina Chiziane
Considerada uma
das principais vozes da literatura moçambicana, Paulina Chiziane foi a primeira
mulher a publicar um romance em Moçambique e tornou-se a primeira mulher negra
a receber o Prêmio Camões.
Em Balada de Amor
ao Vento, a narradora Sarnau revisita suas memórias para contar ao leitor sobre
a juventude, o primeiro amor e as desilusões afetivas que marcaram sua
trajetória. “A obra amplia a formação cultural do estudante ao apresentar
aspectos da sociedade moçambicana e discutir temas como a poligamia, prática
ainda presente em algumas regiões do país. Além disso, traz reflexões sobre a
relação linguística e cultural entre Moçambique e Portugal”, explica Maurício.
Canção
para Ninar Menino Grande – Conceição Evaristo
Publicado em 2018,
o romance apresenta a história de Fio Jasmin, homem negro constantemente
cercado por mulheres, apesar de ser casado. Ao longo da narrativa, a autora
mostra como experiências traumáticas da infância influenciaram sua construção
afetiva e seus relacionamentos na vida adulta. Para o professor, a obra propõe
uma reflexão sobre a masculinidade negra sob a perspectiva de uma autora e
narradora mulheres. “O livro questiona estereótipos associados à virilidade
masculina e oferece uma leitura crítica sobre a construção social da identidade
masculina negra”, observa.
A
Visão das Plantas – Djaimilia Pereira de Almeida
A escritora luso-angolana Djaimilia Pereira de Almeida apresenta a história de Celestino, ex-traficante de escravos que retorna a Portugal e passa a viver isolado, marcado pela rejeição social e pelo peso de seu passado.
Enquanto cultiva flores e tenta reconstruir a própria vida, o personagem é constantemente confrontado com as consequências de seus atos. Segundo Maurício, a narrativa funciona como uma alegoria do Império Português e promove reflexões sobre memória, responsabilidade histórica e reparação. “É uma leitura exigente, que demanda do leitor repertório histórico para compreender plenamente as camadas simbólicas presentes na obra”, conclui.
Anglo - https://www.sistemaanglo.com.br/

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