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| O mosquito-pólvora, porvinha ou maruim (Culicoides paraensis), transmissor do Oropouche, é três vezes menor que um pernilongo comum, tamanho ideal para atravessar mosquiteiros (imagem: Erik Jesus de Faria Santana/Wikimedia Commons) |
Estimativa é que o número chegue a 9,4 milhões de casos em toda a região da América Latina e do Caribe desde os anos 1960, apontam artigos divulgados nesta terça-feira (24/03). Autores alertam que estratégias de combate ao vetor, o mosquito-pólvora, devem ser diferentes das usadas contra o Aedes
O recente
surto do vírus Oropouche, ocorrido em 2023, chamou atenção no Brasil e em
outros países da América Latina não só pela magnitude (mais de 30 mil casos
registrados no território nacional), mas também pela primeira morte confirmada
no país causada pela doença e pela rápida disseminação para todos os Estados,
deixando de se restringir à região amazônica. Diante desse cenário, no início
do ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) também demonstrou preocupação e
fez um apelo para acelerar o desenvolvimento de ferramentas de prevenção e
controle contra esse patógeno, até então quase desconhecido.
Dois estudos publicados hoje
(24/03) nas revistas Nature Medicine e Nature Health comprovaram
que o impacto do vírus Oropouche é muito maior do que o retratado nos dados
oficiais. Por meio de cálculos matemáticos, dados históricos e análise de
sangue de hemocentros, os pesquisadores estimam que, desde 1960, o vírus já
tenha infectado cerca de 9,4 milhões de pessoas na América Latina e no Caribe.
Só no Brasil, seriam aproximadamente 5,5 milhões de casos.
A doença, que provoca febre e
sintomas semelhantes aos da dengue, pode evoluir para complicações graves,
incluindo problemas neurológicos (meningite e meningoencefalite) e até
microcefalia em casos de transmissão materno-fetal.
“Estamos diante de uma doença
com magnitude muito maior do que se imaginava, o que requer mais atenção.
Estimamos que um em cada mil diagnósticos da doença evolua para
complicações graves, como doenças neurológicas, microcefalia, abortos e
complicações hepáticas, o que eleva o nível de prioridade para saúde pública”,
conta José Luiz Proença Módena,
coordenador do Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes (Leve) da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coautor dos estudos, que contam
com apoio da FAPESP.
O trabalho também teve
financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq), do National Institutes of Health (NIH), dos Estados Unidos, da
instituição filantrópica britânica Wellcome Trust e do Instituto Todos pela
Saúde.
Manaus,
epicentro da crise
Em Manaus (AM), a maior
metrópole da região amazônica, estima-se que 300 mil pessoas tenham sido
infectadas entre 2023 e 2024, quase 260 vezes mais que os casos confirmados. De
acordo com os pesquisadores, a prevalência de anticorpos contra o vírus saltou
de 11,4% em novembro de 2023 para 25,7% em novembro de 2024, indicando ampla
disseminação da doença.
“A capital do Amazonas é uma
cidade com mais de 2 milhões de habitantes e considerada a porta de entrada
para a região amazônica. A subnotificação impressionante ocorreu por vários
fatores, principalmente pelo fato de o vírus ter circulado silenciosamente
antes de atingir as bordas do centro urbano, com muitos casos sendo
assintomáticos ou leves, e sem diagnóstico”, conta William de Souza, professor
da Universidade do Kentucky, nos Estados Unidos, que também assina o estudo.
Essa dinâmica ajuda a explicar
a disseminação do vírus por todos os Estados brasileiros e países vizinhos,
além de reforçar o cenário que motivou a OMS a emitir alerta internacional.
Já no caso de pacientes em
regiões remotas da Amazônia, os pesquisadores destacam a dinâmica e a logística
da região. “Pacientes em regiões remotas da Amazônia muitas vezes enfrentam
tempos de viagem de mais de 24 horas para chegar a uma unidade de saúde. Isso
significa que muitos casos provavelmente não foram diagnosticados, permitindo
que o vírus circulasse silenciosamente até atingir a borda de um grande centro
urbano”, afirma Souza.
Os pesquisadores detectaram que
o vírus Oropouche está em circulação contínua, embora muitas vezes em níveis
tão baixos que se tornam quase indetectáveis pelos sistemas de vigilância
comuns. “No trabalho, identificamos duas grandes ondas de Oropouche na capital
amazonense, uma na década de 1980 e a de 2023, que infectaram, cada uma, mais
de 12% de sua população”, diz Módena.
A partir desse rastreamento, os
pesquisadores também identificaram que indivíduos infectados na década de 1980
ainda eram capazes de neutralizar a linhagem viral recente. “Isso sugere uma
proteção cruzada duradoura, capaz de orientar futuras estratégias de
vacinação”, explica Souza.
Um vírus
do mato
A reemergência do vírus
Oropouche em 2023 confirmou sua expansão pelo país. O Estado do Espírito Santo
apresentou a maior taxa acumulada, com 318 casos por 100 mil habitantes. Já a
região Sudeste concentrou 57,9% das notificações, tornando-se o novo epicentro
da doença.
Diferentemente de outras
arboviroses mais conhecidas, ele é transmitido pelo mosquito-pólvora, porvinha
ou maruim (Culicoides paraensis), o que faz com que a incidência da
doença em áreas rurais seja 11 vezes maior do que nas cidades.
“Ao contrário do Aedes
aegypti [mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya], que se
reproduz em água parada, o maruim deposita seus ovos em solo úmido e rico em
matéria orgânica. É um mosquito do mato, de áreas úmidas. Por isso, a
predominância de casos em áreas rurais e não urbanas”, explica Souza.
“Historicamente, essa doença
estava muito ligada a áreas com plantação de banana e cacau, mas ao estudar a
ecologia do vírus identificamos que a questão não é a fruta em si, mas a
condição ideal de solos úmidos e com bastante matéria orgânica. Altas
temperaturas e chuvas também são condições propícias para a disseminação do
maruim”, conta o pesquisador.
Os autores ressaltam que o
caráter rural da doença impacta estratégias de políticas públicas. “O combate à
doença se torna muito diferente das outras arboviroses transmitidas por
mosquitos, que são mais urbanos. Estratégias como a fumigação [o fumacê] em
praças e ruas asfaltadas são provavelmente pouco úteis contra o Oropouche. O
maruim não vive nos ralos das casas, mas na umidade das áreas florestais e na
vegetação periférica das cidades”, explica Souza.
Outra característica importante
do maruim é que ele é três vezes menor que um pernilongo comum, tamanho ideal
para atravessar mosquiteiros. Porém a razão por trás dessa reemergência
agressiva não está apenas no clima, mas em uma nova recombinação viral (reassortment).
No trabalho, os pesquisadores
também identificaram a emergência de uma nova linhagem viral, resultado de um
processo de rearranjo ou reassortimento genético que ocorre quando dois vírus
diferentes infectam uma mesma célula. Isso aumentou a capacidade de replicação
e dificultou a neutralização por anticorpos de infecções anteriores, tornando o
patógeno mais apto para novas expansões territoriais (leia mais em: agencia.fapesp.br/52394).
“A reemergência do Oropouche
nos mostra que não podemos combater todas as arboviroses com a mesma receita,
pois o maruim não segue as mesmas regras do Aedes. Isso torna a vigilância
atual contra o vírus Oropouche insuficiente e subestima drasticamente a real
dimensão da doença”, diz Módena.
Para ele, a vigilância precisa
ir além das grandes cidades. “Embora a imunidade de longo prazo pareça existir
para quem já foi infectado, a velocidade com que o vírus se expandiu por todos
os Estados brasileiros mostra que o sistema de saúde precisa de novos sistemas
de detecção, focados, inclusive, na vigilância distante dos grandes centros”,
afirma.
Os pesquisadores ressaltam a
necessidade de mudanças estruturais, como a adoção de estudos sorológicos
contínuos, o uso de bancos de sangue como alerta precoce e a integração de
ferramentas digitais e genômicas para acompanhar surtos e mutações. Também
destacam a importância da descentralização dos testes laboratoriais e da
criação de uma vigilância ativa e permanente, capaz de combinar dados
ambientais, sorológicos e genômicos para antecipar riscos e orientar
estratégias de vacinação.
O artigo Ecological and
demographic drivers of Oropouche virus transmission pode ser lido
em: nature.com/articles/s44360-026-00065-6.
O artigo Transmission
dynamics of Oropouche virus in Latin America and the Caribbean pode
ser lido em: nature.com/articles/s41591-026-04221-z.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/virus-oropouche-ja-infectou-mais-de-5-milhoes-de-pessoas-no-brasil-sugere-estudo/57567

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