Com sintomas que se confundem com depressão,
transtorno ainda desafia a prática clínica e mantém pacientes por anos sem
tratamento adequado
Levar
até uma década para receber o diagnóstico correto não é exceção, mas uma
realidade frequente para pessoas com transtorno bipolar, condição caracterizada
por alterações cíclicas de humor que alternam episódios de depressão e de
elevação do humor, como mania ou hipomania. O dado, recorrente em estudos
internacionais, expõe uma fragilidade relevante no cuidado em saúde mental: a
dificuldade de identificar precocemente uma condição que exige manejo
específico e acompanhamento contínuo.
O
tema ganha ainda mais visibilidade neste Dia Mundial do Transtorno Bipolar,
celebrado em 30 de março, em meio a relatos recentes como o da Selena Gomez,
que tornou público o histórico de diagnósticos incorretos antes de compreender
sua condição. Para especialistas, casos como esse ajudam a ilustrar um problema
estrutural, que vai além da experiência individual e aponta para lacunas na
avaliação clínica.
Segundo
a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 37 milhões de pessoas vivem com
transtorno bipolar no mundo, o equivalente a aproximadamente 0,5% da população.
Ainda assim, o número pode ser subestimado, especialmente em função de
subdiagnóstico e da sobreposição com outros transtornos mentais ao longo da
trajetória assistencial.
Diagnóstico tardio ainda é regra, não exceção
Um
dos principais entraves está no fato de que o transtorno bipolar frequentemente
se manifesta, inicialmente, por episódios depressivos. Sem uma investigação
mais aprofundada, esses quadros tendem a ser classificados como depressão
unipolar, o que direciona o paciente para abordagens terapêuticas que não
contemplam a dinâmica cíclica da doença.
De
acordo com Dr. Edson Kruger Batista, psiquiatra da ViV Saúde Mental e
Emocional, esse desencontro diagnóstico tem impacto direto na evolução clínica.
“Quando a bipolaridade não é identificada precocemente, o paciente pode
permanecer por anos em tratamentos pouco efetivos. Isso prolonga o sofrimento e
pode contribuir para a piora do curso da doença ao longo do tempo”, explica.
Durante
esse intervalo, há prejuízos significativos no funcionamento social,
ocupacional e nas relações interpessoais, além de maior risco de agravamento
dos episódios.
Heterogeneidade clínica exige olhar especializado
Outro
fator que contribui para o subdiagnóstico é a própria complexidade do
transtorno. Nem todos os pacientes apresentam episódios claros de mania, o que
dificulta a identificação fora de contextos especializados. Quadros de
hipomania, por exemplo, podem ser interpretados como períodos de maior energia,
produtividade ou bem-estar.
Além
disso, a bipolaridade abrange diferentes apresentações clínicas, como os tipos
I e II, além de manifestações dentro do espectro bipolar. Essa variabilidade
exige avaliação longitudinal e escuta clínica qualificada.
“O
diagnóstico não se baseia em um episódio isolado, mas na análise da trajetória
do paciente ao longo do tempo. Sem essa reconstrução, aumenta o risco de
confusão com outros transtornos, como depressão ou ansiedade”, destaca Batista.
Impacto ampliado e barreiras no acesso ao cuidado
Mesmo
com impacto expressivo em saúde pública, o transtorno bipolar ainda enfrenta
barreiras relacionadas ao estigma, à desinformação e ao acesso a serviços
especializados. Esses fatores contribuem para que uma parcela significativa dos
pacientes não receba tratamento adequado ou sequer tenha um diagnóstico
estabelecido.
A
consequência é um ciclo de instabilidade clínica, com impactos diretos na
qualidade de vida, na produtividade e na manutenção de vínculos sociais.
Qualificação do diagnóstico como ponto central do cuidado
Diante
desse cenário, especialistas reforçam que a qualificação do diagnóstico é uma
das estratégias mais relevantes para melhorar os desfechos clínicos. Isso passa
por ampliar o acesso a profissionais especializados, aprimorar a escuta clínica
e fortalecer a disseminação de informação confiável sobre saúde mental.
O
tratamento do transtorno bipolar envolve abordagem contínua, com associação
entre medicação, psicoterapia e monitoramento ao longo do tempo. Quando corretamente
conduzido, é possível alcançar estabilidade e preservar a funcionalidade do
paciente.
“O
principal ganho está em reduzir o tempo até o diagnóstico correto. Esse é o
ponto de inflexão que muda a trajetória do paciente”, conclui o especialista.
Neste
Dia Mundial do Transtorno Bipolar, o debate avança para além da
conscientização: trata-se de enfrentar um desafio estrutural da prática clínica
e ampliar a capacidade de identificar precocemente uma condição ainda
frequentemente subdiagnosticada.
ViV Saúde Mental e Emocional
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