Publicação do Projeto Primeira Infância Cidadã (PiC) traz entrevista com Thiago Tavares, da SaferNet Brasil, e discute desafios da infância no ambiente digital
A
proteção de crianças no ambiente digital e os desafios de transformar leis em
políticas públicas efetivas são temas centrais da nova edição da Revista
Lugar de Criança, iniciativa do Projeto Primeira Infância Cidadã (PiC),
lançada neste mês de março. A publicação reúne análises, entrevistas e
experiências que colocam a primeira infância - dos 0 aos 6 anos - no centro do
debate público.
Logo
no conteúdo principal da revista, a entrevista com o fundador e presidente da
SaferNet Brasil, Thiago Tavares, aprofunda o debate sobre o chamado ECA Digital
(Lei nº 15.211/2025), que entrou em vigor em 17 de março, e o cenário atual de
proteção de crianças e adolescentes na internet. O especialista destaca que,
embora a legislação represente um avanço importante, ainda há um longo caminho
para sua implementação efetiva.
“É
evidente que se trata de uma lei positiva, e a internet será muito melhor após sua
implementação, mas muita coisa ainda está por ser definida”, afirma Tavares.
Segundo ele, o principal desafio agora é garantir que o marco legal saia do
papel e se traduza em ações concretas.
A
entrevista chama atenção para uma mudança no cotidiano das infâncias: com o
aumento da violência urbana e a redução de espaços públicos, crianças passam
mais tempo em casa - e, consequentemente, mais expostas às telas. Ainda assim,
o ambiente digital não garante segurança por si só.
“O
desafio não é proteger meninos e meninas da internet, mas na internet”, diz
Tavares. Ele reforça que o ECA Digital estabelece responsabilidades para
plataformas, empresas e também para a sociedade, incluindo mecanismos como
verificação de idade, controle parental e maior transparência nos algoritmos.
Outro
ponto central da entrevista é a necessidade de transformar o ECA Digital em
política de Estado. Para Tavares, isso exige articulação entre diferentes
setores e compromisso contínuo com a pauta da infância. “O que temos é um
instrumento importante, mas que exige trabalho coletivo, seja da sociedade
civil, do setor privado, da academia e do Poder Público. É hora de mapear os
desafios e colocar a mão na massa”, destaca.
A
publicação também aborda a importância da escuta e da participação das próprias
crianças na construção de políticas digitais. “Nada sobre elas sem elas. As
crianças precisam ser ouvidas e participar dessas discussões de forma real, não
apenas simbólica”, afirma o especialista.
Além
da entrevista, a revista traz uma abordagem ampla sobre políticas públicas de
primeira infância no Brasil, destacando avanços desde a Constituição de 1988
até iniciativas mais recentes, como a Política Nacional Integrada da Primeira
Infância (PNIPI). O conteúdo reforça a urgência de priorizar essa agenda no
país.
A
edição também apresenta experiências que buscam reconectar crianças aos espaços
públicos e à convivência coletiva, contrapondo o excesso de tempo nas telas com
iniciativas que valorizam o brincar, a natureza e a vida em comunidade.
Para o
projeto Primeira Infância Cidadã, a nova edição da revista cumpre um papel
estratégico ao ampliar o debate sobre temas contemporâneos que impactam
diretamente o desenvolvimento infantil. “A Revista Lugar de Criança é um
instrumento de mobilização e reflexão. Ao trazer o debate sobre o ECA Digital,
queremos contribuir para que a proteção das crianças no ambiente online seja
tratada como prioridade absoluta, assim como já está previsto na Constituição”,
afirma Ana Luiza Buratto, consultora associada da Avante e coordenadora
geral do PiC.
A
publicação também reúne outras vozes e experiências relevantes, como a da
educadora e etnomusicóloga Lydia Hortélio, que propõe a reconexão das crianças
com os espaços públicos; do educador Roque Antônio Joaquim (Roquinho), que
defende o brincar como base da vida comunitária; e da especialista Nadia Hage
Fialho, que analisa os desafios e caminhos das políticas de Educação Infantil
no Brasil.
Ao
articular diferentes perspectivas - da proteção digital ao direito à cidade e à
Educação -, a revista reforça que garantir uma infância plena exige ação
integrada, compromisso público e escuta ativa das crianças, apontando caminhos
concretos para a construção de uma sociedade mais justa desde os primeiros anos
de vida.

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