Há quem pense que advogar é falsificar a verdade, inventar narrativas, mentir. Muitas pessoas imaginam que nessa profissão intente-se justificar o injustificável. Mentir ou argumentar com o injustificável, em geral, não é bom caminho. Agora, o\a advogado\a pode explicar uma situação, mostrando que nem sempre é possível pedir um comportamento diferente do adotado por alguém, seja diante de um fato, seja diante da própria vida. Advogado\as não necessariamente justificam ocorrências, mas as explicam. Advogado\as trabalham com argumentos.
Como
nascemos já cercados de leis e somos educado\as a havê-las como válidas para
todos os lugares e tempos, esquecemos que os códigos legais são o resultado de
uma relação de poder específica, que ocorre em um tempo e lugar. Uma lei é
produzida por quem pode elaborá-la e permanece valendo enquanto preserva
interesses de quem pode fazê-la perdurar com validade. Sei bem que impossível
viver sem lei, sei também que as leis têm garantido liberdades e a própria
civilização, mas é bem ingênuo considerar que lei significa justiça.
Tome-se o exemplo
das drogas. É crime vender droga. Mas, é crime vender qual droga? No momento é
crime vender maconha, certo? Mais ou menos. No momento é crime vender maconha
no Brasil, mas essa não é uma regra universal. Há países bem mais avançados
socialmente do que o nosso que permitem vender maconha. E outra droga bem mais
danosa do que maconha, o álcool? Essa já há tempos é proibida em alguns países
e é, atualmente, reprimida em diversos outros. Quer dizer, uma lei havida como
adequada para nós não é no momento, ou não foi no passado, ou poderá não ser no
futuro, apropriada para diversas outras nações. E nós mesmos podemos mudar de
ideia, bastando que se alterem as posições relativas de poder.
Há um
exemplo histórico bem forte dessas variações. Havia escravidão legal em boa
parte do mundo. O\as escravizado\as eram submetidos à condição de gado para
diversos usos, sobretudo na produção agrícola. Na época, a Inglaterra era uma
nação muito poderosa. Com a revolução industrial, já não interessava aos
ingleses que perdurasse o sistema produtivo escravocrata. Vender máquinas, isso
é o que lhes interessava. A Inglaterra começou a interditar navios negreiros,
chegando a entrar em portos brasileiros, apreender embarcações, levá-las para
alto-mar e atear-lhes fogo. Entre outros motivos, dadas as pressões emanadas do
poder inglês, as leis mudaram.
Contudo, no
Brasil era lícito, se um\a escravizado\a fugisse, caçá-lo\a como a um animal
qualquer. Então imaginemos um\a escravizado\a que, desconsiderando a legalidade
que nem o\a incluía, fugiu. Um capitão do mato, expressão do exercício da lei,
alcança-o. Explica-lhe, pois se trata de um capitão do mato tolerante, porém
obediente à valoração legal vigente, que ele\a, escravizado\a, nem agrediu a
lei, que isso é coisa de gente; que o senhor seu dono poderia matá-lo, ou,
talvez, se fosse piedoso, somente açoitá-lo. Mas que voltasse, afinal voltar
era o imperativo da lei. Que fazer? Obedecer às normas? Naquele tempo, talvez
o\a próprio\a escravizado\a pensasse que sim. Hoje esperamos que todos digam
que não.
Agora, que
posição se tomaria diante de um\a traficante da nossa época? Chama-se o\a jovem
traficante com boa posição na favela. Ele\a tem o que o poder do tráfico lhe
propicia. E todos sabemos o que o poder pode propiciar. Manda-se-lhe um\a
agente da lei compreensivo\a. O\a agente lhe recomendará o retorno às
possibilidades que o sistema lhe oferece: uma peregrinação louca por filas
degradantes de empregos miseráveis. Haverá, é de se supor, desobediência.
Justa? Injusta? É de se imaginar o que se faria no seu lugar.
Não,
não justifico traficante. Antes, tenho medo dele\a. Mas reconheço-o\a como ser
histórico que não tem que se pôr obediente aos interesses produtores da
legislação vigente. Ademais, qualquer traficante pode responder: “Ora, se é
permitido vender uísque ou cerveja, por que não maconha?” E demonstrar com
ciência social e médica: maconha é a oitava na lista das drogas danosas, álcool
é a primeira (açúcar é a quarta). E indagar: a lei que me enquadra é justa, ou
protege vendedore\as da droga álcool em detrimento de vendedore\as da droga
maconha? E então? É possível advogar e explicar com argumentos a causa do\a
referido\a comerciante?
Doutor em Direito pela UFSC.
Psicanalista e Jornalista.
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