Diminuição das chuvas, elevação da temperatura e o
prolongamento da estação seca no bioma têm causado aumento na mortalidade de
árvores mais antigas, apontam estudos realizados por pesquisadores do Cemaden,
Inpe e Inpa; resultados foram apresentados durante a 77ª Reunião da SBPC, em
Recife
A extensão das áreas afetadas e a duração da
estação seca na Amazônia aumentaram nas últimas décadas. Esse quadro, combinado
com a recorrência de extremos de temperatura, como as ondas de calor que
atingiram a região em 2020, além do desmatamento e o uso de fogo, tem elevado o
estresse hídrico das árvores e, consequentemente, afetado a capacidade da
floresta de realizar a ciclagem da água e estocar carbono.
As constatações foram feitas por meio de estudos
conduzidos por pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de
Desastres Naturais (Cemaden)
e do Laboratório de Sistemas Tropicais e Ciências Ambientais (Trees, na sigla em
inglês) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Alguns resultados dos trabalhos foram apresentados
durante uma mesa-redonda sobre desmatamento, queimadas e ponto de não retorno (tipping
point) do bioma amazônico que aconteceu quarta-feira (16/07) durante a 77ª
Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC),
no campus da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), em Recife.
“A água é um elemento vital para entender a
Amazônia e pensar sobre seu futuro. O bioma só existe porque tem água na
região. Porém, mais da metade da floresta tem enfrentado eventos de estresse
hídrico nos anos recentes”, disse Liana Anderson, pesquisadora do Cemaden e integrante da
coordenação do Trees.
De acordo com a pesquisadora, entre 50% e 60% das
chuvas que ocorrem na Amazônia são resultantes da água evaporada do oceano e
trazida para o continente, onde é capturada pela floresta e lançada novamente
para a atmosfera pelo processo de evapotranspiração, permitindo que seja
dispersada por todo o bioma e para outras regiões do Brasil e da América do
Sul.
A redução das chuvas e o aumento da temperatura
durante a estação seca observados nos últimos 40 anos na
Amazônia, contudo, podem reduzir a ciclagem regional da água pela
floresta. Além disso, o aumento da temperatura do ar eleva as demandas
metabólicas das árvores, o que pode resultar em maiores perdas de carbono por
meio da respiração.
As temperaturas mais altas também podem afetar
negativamente a fotossíntese das árvores por meio do aumento da fotorrespiração
e causar danos estruturais nas folhas, sublinhou a pesquisadora.
“A redução das chuvas, o aumento da temperatura e o
prolongamento da estação seca que têm sido observados na Amazônia nos últimos
40 anos podem levar ao aumento da mortalidade de árvores. Temos feito estudos e
medições de campo que mostram que há grandes árvores morrendo durante a estação
seca”, afirmou Anderson.
“Quando começa a ter mortalidade maior dessas
árvores, que pegam a água do solo da floresta por meio de raízes mais profundas
e jogam para a atmosfera, isso significa que esse sistema de ciclagem da água
está sendo minado. Com isso começa a ter uma possível mudança na estrutura da
floresta, que também influencia no ciclo hidrológico”, apontou.
Um estudo em andamento, conduzido por pesquisadores
do Trees, indicou um aumento da duração da estação seca na Amazônia entre 2000
e 2023. De acordo com resultados do trabalho, em revisão, 63% da região passou
em 2015 por estresse hídrico. Em 2016, o número oscilou para 51% e em 2023
aumentou para 61%.
“As regiões com maior concentração da estação seca
nesse período foram nas bordas da Amazônia”, afirmou Anderson.
Paisagem mais inflamável
As áreas da floresta submetidas a 100 milímetros de
déficit durante uma seca na região em 2005 perderam 100 toneladas de carbono
por hectare, apontou outro estudo conduzido por pesquisadores do Inpe,
com apoio da FAPESP. Combinado com o aumento da
temperatura, os efeitos da perda de estoques de carbono pela Amazônia podem ser
piorados, apontaram os autores.
“A cada grau de aumento da temperatura há uma
redução de 6% nos estoques de carbono da floresta. Quanto mais quente, mais as
árvores morrem e o material lenhoso delas fica acumulado no chão da floresta,
tornando essas áreas mais suscetíveis a incêndios”, disse Luiz Aragão, pesquisador do Inpe e membro da coordenação
do Trees e do Programa FAPESP
de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG).
Quanto mais uma paisagem da floresta é fragmentada
pela perda de vegetação, mais vulnerável ela se torna ao fogo, indica um estudo
em andamento conduzido pelo pesquisador e colaboradores.
“Temos observado que em paisagens mais contínuas da
floresta a área queimada só aumenta durante os anos de seca. Em anos normais
elas apresentam um nível muito baixo de área queimada. Em contrapartida, em
paisagens mais fragmentadas há áreas queimadas muito grandes. Ou seja, a
fragmentação torna esse tipo de paisagem mais inflamável. É como se ela ficasse
seca constantemente”, contou Aragão.
Refúgios hidrológicos
Algumas partes da floresta podem prover refúgios
hidrológicos para a Amazônia resistir ao aumento da intensidade e frequência de
secas, indicam dados de estudos conduzidos por pesquisadores do Instituto
Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
Por meio de estudos em campo, conduzidos em áreas
situadas no norte e no sul de Manaus e com diferentes geomorfologias, os
pesquisadores têm constatado que florestas com lençol freático raso têm
resistido mais às secas, enquanto as que estão situadas em lençol profundo
tiveram maior mortalidade e menor crescimento.
O crescimento das árvores nos anos recentes de seca
extrema se manteve estável ou até mesmo aumentou em áreas com lençol freático
superficial, indicaram os estudos.
“É importante lembrar que 50% da Amazônia tem lençol freático raso, mas a maior parte dos estudos sobre as respostas da floresta às mudanças climáticas está focando em áreas com lençol freático mais profundo. Dessa forma, talvez ainda não saibamos qual será a verdadeira resposta da floresta às secas se estivermos olhando para um tipo de ambiente que só representa parte da Amazônia”, ponderou Flávia Regina Capelloto Costa, pesquisadora do Inpa e coordenadora dos estudos.
Elton Alisson, de Recife
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/secas-mais-frequentes-e-intensas-reduzem-capacidade-da-amazonia-de-recircular-agua-e-estocar-carbono/55365

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