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quinta-feira, 17 de julho de 2025

O uso excessivo de telas já afeta diretamente a saúde dos relacionamentos, alerta especialista

Com mais de 9 horas diárias de uso de internet por pessoa, o Brasil vive uma crise de conexão afetiva dentro das próprias casas. O excesso de telas está minando casamentos, reduzindo a empatia e silenciosamente afastando casais que seguem juntos — mas cada vez mais distantes

 

O Brasil é um dos países com maior tempo médio diário de uso de internet no mundo: mais de 9 horas por dia por pessoa, segundo o relatório Digital 2024 (We Are Social e Meltwater). Esse dado, que poderia parecer apenas um retrato do comportamento digital moderno, hoje se desdobra em outro problema, mais silencioso: o impacto direto na qualidade das relações afetivas, especialmente nos casamentos. 

Para a terapeuta familiar Aline Cantarelli (@aline.cantarelli no Instagram), que há mais de 15 anos atende casais em diferentes fases da vida, a tecnologia se tornou um dos principais fatores de desconexão emocional entre parceiros. “O celular está sempre no campo de visão. Isso fragmenta a atenção, a escuta e o afeto. A intimidade conjugal, que depende de presença real e emocional, está sendo substituída por uma hiperconexão com o que está fora.” 

Estudos reforçam a percepção clínica da especialista: a simples presença de um smartphone sobre a mesa reduz a empatia entre duas pessoas que conversam, mesmo que o aparelho não esteja sendo usado. A convivência digitalizada — marcada por notificações constantes, rolagens infinitas e estímulos externos — está empobrecendo o espaço privado das relações. 

Segundo levantamento do Mobile Time em parceria com a Opinion Box (2023), 81% dos brasileiros admitem usar o celular enquanto estão com o parceiro ou parceira. Isso inclui momentos tradicionalmente reservados à convivência, como refeições, trajetos de carro e até a cama. 

“Casais continuam dividindo espaço físico, mas já não se olham, não se tocam, não se escutam com profundidade. Tornaram-se bons administradores de tarefas, mas perderam a dimensão do vínculo afetivo e sexual. E isso acontece gradualmente, sem briga, sem escândalo — apenas pela ausência contínua de presença real”, explica Aline. 

Para a terapeuta, a maior parte dos casais em crise hoje não sofre por falta de amor, e sim por excesso de interferências. A sobreposição de telas, demandas profissionais e comparação social cria um ambiente de dispersão e esgotamento. 

O impacto também se estende à vida sexual. “O desejo exige espaço emocional, privacidade e atenção. Quando o tempo do casal é invadido por estímulos externos, o corpo responde com distanciamento. Não é que o amor acabou. O que acabou foi o investimento contínuo na relação.” 

Aline destaca que a solução não passa por uma “demonização da tecnologia”, mas por limites claros. Ela orienta práticas simples, mas consistentes: momentos sem celular no fim do dia, refeições com conversa ativa, regras para o uso de telas no quarto e resgate de atividades offline em conjunto. 

“A tecnologia é neutra. O problema é quando ela assume o lugar central da vida afetiva. Se o relacionamento já não ocupa tempo e intenção, ele se fragiliza. E isso acontece antes de qualquer traição ou separação formal. Começa no hábito”, conclui. 

Aline Cantarelli - terapeuta familiar com mais de uma década e meia de atuação, especializada em relacionamentos conjugais, comunicação afetiva e reconstrução de vínculos no ambiente familiar. Professora de pós-graduação em Saúde Mental, Ciências da Mente e Orientação Familiar, alia uma formação sólida à experiência clínica com casais e famílias em diferentes fases e desafios da vida.


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