- O desafio da infecção é a ausência de sintomas e sinais precoces da doença, o que dificulta o diagnóstico. Por isso, é crucial que a comunidade médica solicite sorologias e exames de rotina e discuta a imunização para prevenção das hepatites A e B
- Levantamento brasileiro realizado pelo Einstein, no âmbito do projeto
PROADI-SUS, coordenado pelo Hospital Israelita Albert Einstein, em parceria com
o Ministério da Saúde, aponta que a hepatite A segue causando surtos em adultos
jovens, principalmente nas regiões Sul e Sudeste e reforça importância da vacinação
A hepatite é a
segunda doença infecciosa que mais causa vítimas fatais no mundo - são 1,3
milhão de mortes anuais, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No
Brasil, as hepatites mais comuns são dos tipos A, B e C. A hepatite D ou Delta
é mais frequente na região Norte e a hepatite E é a menos comum. No Brasil, a
luta contra as hepatites B e C é uma prioridade de saúde pública e agora
crescem as campanhas para vacinação e prevenção à hepatite A, que segue
provocando surtos, sobretudo em homens que fazem sexo com outros homens. O
risco de contaminação por hepatites atinge também pessoas que consomem peixes e
frutos do mar crus, que utilizam drogas injetáveis compartilhadas, que não
possuem o hábito de higienizar as mãos com frequência, podendo ser causada por
vírus, bactérias, e até mesmo uso excessivo de medicamentos ou ingestão de
álcool.
Para João Renato
Rebello Pinho, patologista clínico membro da Sociedade Brasileira de Patologia
Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), e coordenador médico do Laboratório
Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, é necessário que os exames para
hepatite entrem na rotina médica, pois a doença é silenciosa, e quanto mais
cedo se inicie o tratamento, mais chances de controlar os sintomas.
“O diagnóstico da
doença é feito por meio de exame de sangue, que detecta a presença de
anticorpos contra o vírus no organismo. Tanto a hepatite B quanto a hepatite C
têm tratamento se chegarem à fase crônica, evitando que a doença evolua para
cirrose hepática e suas complicações, incluindo transplante hepático e câncer
de fígado”, diz.
Segundo o médico,
no caso da hepatite B, testes para antígenos (HBsAg, HBeAg) e anticorpos
(Anti-HBc IgM/IgG, Anti-HBs) são essenciais. Para a hepatite C, a triagem
começa com o anti-HCV, seguido de teste de carga viral para confirmação de
infecção ativa. E para o diagnóstico da hepatite A, o marcador principal é o
anticorpo IgM anti-HAV, que indica infecção recente. Já o IgG anti-HAV mostra
se há imunidade, seja por infecção passada ou vacinação. “Em situações de
surto, esses testes são fundamentais para mapear rapidamente a situação e
isolar casos ativos. Podemos saber se é infecção aguda ou crônica, bem como
infecções ou vacinações prévias. Quando o resultado é reativo, indica a presença
da infecção, e realiza-se a medição de carga viral, que é essencial para um
diagnóstico definitivo”, orienta o especialista da SBPC/ML.
Rebello lembra que
a imunidade prévia ou vacinação atinge cerca de 78% da população analisada.
“Mesmo com a vacinação alta, ainda encontramos surtos concentrados em grupos
específicos. É um alerta para mantermos estratégias de vacinação mais eficazes
e temos que reforçar campanhas de conscientização. “A hepatite é uma doença que
pode ser evitada com vacina, higiene adequada e acesso à saneamento e água
potável. Nossa experiência mostra onde estão os maiores riscos e como podemos
proteger essas pessoas. É fundamental que a sociedade e os gestores de saúde
olhem para esses dados com responsabilidade”, destaca Pinho, da SBPC/ML.
Surtos de
hepatite A exigem mais esforços -
De acordo com o Ministério da Saúde, somente em 2023 foram notificados 2.080
casos de hepatite A no país - 90% em adultos, sendo quase 70% em homens. Em
Curitiba, um surto registrado em 2024 somou mais 315 casos e cinco óbitos.
“Esses números deixam claro que a hepatite A não é mais restrita à infância. É
preciso combinar a vacinação em massa com o uso criterioso dos exames
laboratoriais para detectar casos ativos e avaliar a imunidade da população”, reforça
o especialista.
Um novo estudo brasileiro lança luz sobre um tema. Publicado no Journal of Medical Virology, investigou mais de 1.700 casos suspeitos de hepatite aguda em todas as regiões do país, no âmbito do projeto PROADI-SUS, coordenado pelo Hospital Israelita Albert Einstein em parceria com o Ministério da Saúde. O estudo identificou infecção ativa pelo vírus da hepatite A (HAV) em 6,3% dos casos analisados - 80% deles em homens jovens. Todos os casos genotipados pertenciam ao sub genótipo I.A, com cerca de 450 mutações identificadas, algumas inéditas e potencialmente capazes de influenciar o comportamento do vírus e a resposta à vacina.
“A
hepatite A é classicamente associada a saneamento básico, mas estamos vendo uma
nova dinâmica, com transmissão sexual importante. Por isso, os médicos devem
solicitar os exames sorológicos adequados, tanto para diagnosticar infecções
agudas como para checar a imunidade adquirida”, explica João Renato.
Desde 2014, a
vacina contra hepatite A integra o calendário infantil do SUS, com dose única
aos 15 meses. Essa política ajudou a reduzir drasticamente os casos na
infância, mas o aumento de surtos em adultos evidencia a necessidade de ampliar
a cobertura vacinal e reforçar ações de educação em saúde.
Os dados também
reforçam a relação entre saneamento básico e proteção contra o vírus: enquanto
a região Norte apresentou maior prevalência de anticorpos - reflexo de
vacinação ou exposição prévia - a região Sul, com menores índices de imunidade,
concentrou a maior parte das infecções ativas.
“Nossa pesquisa mostra onde estão os maiores riscos e como podemos proteger essas pessoas. É fundamental que a sociedade e os gestores de saúde olhem para esses dados com responsabilidade. Além da vacina, práticas de sexo seguro, saneamento básico e higiene pessoal continuam sendo pilares essenciais na prevenção da hepatite A e de outras hepatites virais. Combinando vacinação e diagnóstico laboratorial, podemos avançar rumo à meta de eliminação das hepatites como problema de saúde pública”, conclui João Renato Rebello Pinho, da SBPC/ML.
SBPC/ML
- Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial
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