Nos bancos de escolas e universidades deste século
XXI, ainda permanece de forma disfarçada a necessidade da divisão proposta por
Descartes há mais de 300 anos de que o que é matéria é assunto da ciência e o
que não é matéria é tema da religião. Essa máxima continua movendo cientistas,
professores e profissionais em sua grande maioria.
Não há dúvidas sobre o valor da ciência clássica,
que define os parâmetros da construção de um prédio, os medicamentos que trazem
comprovação estatística em laboratório, que atesta a terra como redonda etc.
Porém, isso não invalida os conhecimentos que vão além dos cinco sentidos.
Dizer, a partir da ótica clássica, que só existe o que pode ser mensurado é uma
afirmação limitada e parcial.
Eu sempre gostei da interface da matéria com a não
matéria e tratei disso em vários momentos da minha vida acadêmica. Claro que
paguei preço alto por isso, o que relato nos livros que escrevi a partir de
2006. Aos poucos, eu fui percebendo que a divisão conveniente de Descartes no
século XVII não precisa perdurar, a não ser por uma conveniência de agradar os
pares e os órgãos de fomento.
O cientista clássico pode ser cético ou ateu, é seu
direito. Mas não é seu direito impor essa visão limitada aos seus colegas,
alunos ou sociedade. Seria muito mais honesto dizer que essa é a “sua visão”,
uma das possibilidades dentre outras.
Eu já estive em vários caminhos da espiritualidade,
dentro de igrejas e em outros grupos. Também já passei por grandes crises na
vida que transformaram meu jeito de ser, pensar e viver. Hoje eu vejo esses
caminhos convencionais como possibilidades enrijecidas de buscar o sagrado.
Quanto mais fechado, segregado ou fundamentalista esse caminho, mais longe de
alcançar a meta de realização do ser humano.
Se há outros conjuntos de conhecimento além dos
acadêmicos que servem ao crescimento e evolução do ser humano, por que fechar
as portas para eles? Só por que, na ótica mecanicista, eles não podem existir?
E se esse cientista clássico descobrir que pode trocar de óculos?
Experimentalmente se verifica que é em situações de
crise intensa que há boas possibilidades de o cientista clássico alargar a sua
visão de uma forma não convencional, que não cabe nos grupamentos tradicionais
das igrejas e nos caminhos da espiritualidade.
A ciência clássica é ótima e necessária, mas há
vida fora dela.
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