Quando se fala em empreendedorismo no Brasil, ainda persiste uma ilusão perigosamente romantizada: a de que paixão, coragem e persistência bastam para fazer um negócio prosperar. Na prática, porém, a realidade é mais dura. De acordo com o Sebrae, 50% das empresas fecham as portas nos primeiros cinco anos de atividade. Isso significa que, para muitos, o fracasso não é uma possibilidade remota, mas um desfecho comum. O problema é que a maioria dos empresários não está preparada para lidar com ele de forma produtiva.
Em um país que carece de educação formal voltada à
gestão empresarial, é comum que empreendedores iniciem suas jornadas com
conhecimento limitado sobre planejamento estratégico, liderança ou modelagem de
negócios. Muitos ainda confundem uma boa ideia com um plano viável. E quando a
execução não gera os resultados esperados, o sentimento de fracasso se instala
como uma sentença definitiva.
Mas, e se o fracasso não fosse o fim? E se ele
fosse, na verdade, o primeiro estágio da maturidade empresarial? Errar é
inevitável. Persistir no erro é opcional. O fracasso, quando bem compreendido,
se torna uma poderosa ferramenta de aprendizado e reposicionamento. Porém, para
que isso ocorra, é preciso mudar o modelo mental. É preciso sair do lugar de
vítima das circunstâncias e assumir o papel de protagonista do próprio
crescimento.
Empresas não falham apenas por falta de vendas ou
capital. Elas colapsam por falta de clareza, de direção e de liderança
estruturada. A maioria dos erros fatais está ligada à ausência de estratégia:
posicionamento frágil, métricas equivocadas, decisões tomadas no improviso e
gestão focada apenas na operação.
A Harvard Business Review classifica o ciclo de
vida de uma empresa em cinco estágios: existência, sobrevivência, sucesso,
burocratização e maturidade. Cada fase exige habilidades diferentes do líder.
E, muitas vezes, o que levou o negócio até um certo ponto é justamente o que o
impede de crescer a partir dali. O que era coragem se transforma em rigidez. O
que era envolvimento total se torna dependência. O que era agilidade se
converte em caos.
Nesse contexto, o fracasso pode ser o sinal mais
claro de que é hora de mudar. De parar de tentar "fazer mais" e
começar a "pensar melhor". De sair do piloto automático e assumir uma
postura mais estratégica.
Mas isso não se faz sozinho. O empresário que
acredita que precisa resolver tudo por conta própria está condenado a repetir
seus erros com mais sofisticação. A chave da virada está em buscar ambientes
que desafiem sua forma de pensar. Conselhos consultivos, masterminds
estruturados, mentorias especializadas e diagnósticos profundos ajudam a
identificar os pontos cegos que estão travando o crescimento.
Muitas vezes, o problema não está na equipe, no
mercado ou na concorrência. Está no modelo mental que ainda rege as decisões. É
comum encontrar empresários com alto faturamento, mas baixa rentabilidade. Com
grande volume de trabalho, mas sem tempo para pensar. Com orgulho da marca, mas
medo do futuro. Isso revela uma gestão que opera no limite, sustentada por
esforço pessoal, e não por estrutura.
A maturidade empresarial começa quando o líder
entende que não é sobre trabalhar mais, e sim sobre trabalhar com mais
inteligência. Quando ele se permite sair da urgência e entrar na estratégia.
Quando ele para de buscar soluções milagrosas e começa a construir sistemas que
sustentam o crescimento de forma consistente.
Para isso, é essencial desenvolver três pilares:
clareza, estrutura e conexão. Clareza sobre onde está e aonde quer chegar.
Estrutura para que o negócio funcione com autonomia. E conexão com outros
líderes que já superaram desafios semelhantes e podem acelerar sua curva de
aprendizado.
Não existe empresa madura com um líder imaturo. E a
imaturidade, nesse caso, não tem relação com idade ou tempo de mercado, mas com
a capacidade de refletir, se reposicionar e construir legados, não apenas
faturamento.
O fracasso não precisa ser temido. Precisa ser
compreendido. Ele mostra onde está o limite do modelo atual. Ele revela que o
que te trouxe até aqui não te levará adiante. E ao invés de ser escondido, deve
ser usado como combustível para o redesenho de um novo ciclo.
Toda empresa que hoje é referência passou por
momentos de instabilidade. O que as diferencia é que, em algum ponto da
jornada, seus líderes decidiram parar de operar no improviso e começaram a
construir com consciência. Saíram do papel de bombeiros e assumiram o de
arquitetos do crescimento.
Portanto, se você está atravessando um período difícil, talvez o que falte não seja esforço. Seja direção. Seja coragem de pensar diferente. Porque empresas que crescem com estrutura não dependem de sorte, e sim de método.
Wander Miranda - fundador da Enjoy, ecossistema de negócios focado em conectar e desenvolver empresários, promovendo soluções disruptivas e transformadoras.
Enjoy
https://enjoywork.com.br/
Nenhum comentário:
Postar um comentário