A inteligência artificial (IA) tem o potencial de viabilizar cobertura personalizada para todos, ampliando o acesso a seguros em áreas como segurança cibernética, saúde e desastres naturais. No entanto, para que isso se concretize, é fundamental estabelecer confiança na IA, o que só será possível com uma estrutura de governança bem definida, padrões éticos rigorosos no uso de dados e IA, além de uma comunicação transparente.
A inteligência artificial
já vem gerando valor agregado mensurável em todo o setor de seguros.
Seguradoras e startups têm recorrido cada vez mais à IA para aprimorar a
interação com clientes, produtos e serviços, bem como para otimizar processos
de backoffice – muitas vezes invisíveis para os consumidores – ao longo de toda
a cadeia de valor.
No entanto, o
potencial da tecnologia vai muito além. Ela pode contribuir para enfrentar um
dos maiores desafios sociais da atualidade: a redução da lacuna global de
seguros, que se refere à parcela de danos a propriedades não cobertos por
seguros em relação às perdas econômicas totais.
De acordo a Global
Federation of Insurance Association (GFIA), a lacuna de cobertura,
especialmente nas quatro áreas mais críticas devido à sua escala, presença
global, impacto na vida e nos meios de subsistência e crescimento projetado,
representa aproximadamente 2,8 trilhões de dólares (ou 2,7 trilhões de euros)
por ano, o equivalente a cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) global. A
maior defasagem está no setor de previdência, com um déficit anual de 1 trilhão
de dólares em todo o mundo. Em seguida, aparecem os riscos cibernéticos, com
0,9 trilhão de dólares; a proteção à saúde, com 0,8 trilhão; e os desastres
naturais, com 0,1 trilhão de dólares.
As lacunas de seguros precisam ser eliminadas
Por trás desses números expressivos, escondem-se
consequências muitas vezes severas para as pessoas afetadas pela falta de
cobertura adequada. A perda de renda causada por uma doença ou acidente pode destruir
a segurança financeira de toda uma família. E, quando entes queridos deixam de
receber os cuidados médicos urgentes de que necessitam por não estarem
devidamente segurados, as consequências podem ser graves.
Perder a casa em
decorrência de um desastre, como um incêndio ou um fenômeno natural, pode
destruir, em um instante, tudo o que foi construído ao longo da vida. Esses
cenários não são riscos abstratos, mas uma dura realidade para muitas pessoas
que não contam com cobertura de seguro adequada. Reconhecer e enfrentar essas
falhas na proteção é essencial para resguardar a população contra ameaças de
caráter existencial.
Mas por que essas
falhas na proteção surgem, afinal? Na minha visão, há três fatores principais:
muitas pessoas não têm acesso facilitado aos seguros de que precisam, não estão
cientes dos riscos específicos que correm ao longo da vida ou, ainda, não
conseguem arcar com os prêmios. A inteligência artificial já começa a ajudar a
superar esses desafios.
A IA pode
tornar o seguro mais acessível
A inteligência
artificial torna os produtos de seguros mais acessíveis e fáceis de entender ao
utilizar ferramentas com suporte dessa tecnologia para oferecer soluções
personalizadas e amigáveis ao cliente. Um exemplo é a IA conversacional, uma tecnologia
capaz de conduzir conversas semelhantes às humanas. A possibilidade de
interagir com um agente digital em linguagem natural ajuda as seguradoras a
oferecer atendimento 24 horas por dia, 7 dias por semana, além de estar
disponíveis em diferentes plataformas e diversos idiomas. Embora o contato
humano continue sendo essencial para consultas completas e detalhadas em
situações específicas, a IA conversacional pode responder de forma rápida e
eficaz a centenas de perguntas que nossos clientes e potenciais clientes possam
ter. O feedback recebido indica que essa é uma forma prática e útil de
solucionar problemas.
No futuro, seremos
capazes de avaliar os riscos de vida específicos de nossos clientes com ainda
mais precisão do que atualmente. O cliente poderá descrever sua situação e
estilo de vida com suas próprias palavras, permitindo que seus riscos
individuais sejam identificados e apresentados de forma transparente. A pedido
do cliente, o resultado dessa análise com suporte de IA poderá ser utilizado
por um consultor, que então oferecerá soluções de seguro adequadas ao perfil
específico, cobrindo as vulnerabilidades identificadas.
A prevenção
de danos alivia os consumidores
A acessibilidade
aos produtos de seguro obrigatórios é uma questão crucial para muitas pessoas
de baixa renda em todo o mundo. A IA também atua nesse campo: em algumas
regiões, ela já tem contribuído para reduzir custos das seguradoras, permitindo
uma melhor prevenção e um processamento mais rápido dos sinistros por meio da
análise de dados. Por exemplo, um serviço de alerta para eventos climáticos
severos funciona como prevenção de danos: a IA prevê com alta confiabilidade a
localização, o horário e o impacto de fenômenos climáticos extremos. O cliente
recebe uma mensagem de texto avisando sobre a tempestade, podendo assim tomar
medidas para proteger objetos que podem ser levados para um local seguro, como
móveis ou veículos. Em casos de danos menores ao carro, um aplicativo de
sinistros com suporte de IA já é capaz de avaliar a extensão e a gravidade dos
prejuízos com base em fotos, além de liquidar e pagar o sinistro em poucos
minutos.
Muitas seguradoras
de grande porte já oferecem suas apólices em diversos países e trabalham para
alcançar ainda mais pessoas em diferentes continentes. Ao tornar as soluções
baseadas em IA amplamente disponíveis, elas contribuem significativamente para
reduzir as lacunas de cobertura ao longo do tempo, proporcionando a muito mais
pessoas acesso acessível ao seguro de que necessitam.
Dados
qualitativos são necessários
Por que o enorme
potencial da IA para minimizar a lacuna do seguro só produziu frutos muito
limitados até agora? Para que a IA cumpra as expectativas depositadas nela, uma
série de pré-requisitos devem ser atendidos. A chave para isso é a confiança.
Dados confiáveis são a base: para que funcione de forma eficaz, ela precisa
de dados precisos, seguros e confiáveis. Os envolvidos devem poder confiar que
os dados são seguros, de alta qualidade e que as recomendações da IA são
baseadas em uma base confiável. Isso requer dados sólidos e governança, bem
como medidas de proteção da privacidade, controle de qualidade e diretrizes
internas claras.
Construir a
confiança do cliente também é crucial: os consumidores devem poder confiar que
os aplicativos de IA trabalharão em seus melhores interesses, protegerão sua
privacidade e não os discriminarão.
As empresas também devem envolver seus colaboradores no processo de construção de confiança, pois sua satisfação e comprometimento são os pré-requisitos mais importantes para a fidelização do cliente. Os colaboradores devem enxergar a IA como uma ferramenta que facilita seu trabalho.
Estou convencida
de que podemos superar este desafio social e reduzir a lacuna global em
seguros. Para isso, as empresas precisam conquistar a confiança de consumidores
e colaboradores, por meio de uma estrutura de governança clara, altos padrões
de ética em dados e IA e comunicação transparente. Se atingirmos esses
objetivos, poderemos ajudar muitas pessoas a obter melhor proteção financeira.
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