Escalada do conflito só vai causar instabilidade mundial, dizem os especialistas Emanuel Pessoa e Gisele Souza (ESAMC Santos)
Em longo prazo, a continuidade dos combates entre Israel e a
Faixa de Gaza, anunciado no início de janeiro por autoridades de defesa
israelense, não interessa a nenhuma das partes envolvidas. É o que
afirmam Emanuel Pessoa, especialista em Direito Internacional e
fundador do Emanuel Pessoa Advogados, e Gisele Souza,
professora de Relações Internacionais da ESAMC Santos.
“Os atores envolvidos não têm real interesse que a crise se
agrave. Nem Israel, pelo custo da guerra, tanto financeira quanto em perdas
humanas, nem o Hamas (grupo extremista palestino que organizou atentados em
Israel), porque corre sério risco de sofrer perdas ainda mais pesadas”, detalha
Emanuel, sobre as duas partes diretamente envolvidas no conflito.
Ele também cita que países que apoiam cada lado não veem
vantagem no prolongamento do conflito. “O Irã, que apoia o Hamas, está se
equilibrando em uma linha tênue, fora da qual arrisca sofrer novas sanções
americanas. E os Estados Unidos também, pelos custos políticos e financeiros
que envolvem o apoio a Israel.”
Desdobramentos mundiais
Uma escalada no conflito não vai ter repercussões apenas no
Oriente Médio, acrescenta Gisele. Há questões econômicas e geopolíticas que se
entrelaçam e vão criar ondas de instabilidade no mundo, caso não sejam
pacificadas. A disparada dos preços do petróleo seria uma consequência natural,
visto que a maior parte da produção mundial vem do Oriente Médio.
“Um possível envolvimento de países exportadores de petróleo
(Irã e Arábia Saudita) no conflito já tem se refletido nos preços dos barris no
mercado internacional”, observa a professora. Dependendo do nível da escalada,
os preços da commodity podem “explodir”. “Pode chegar a
US$100, US$150 o barril [na primeira dezena de janeiro, a cotação média está em
torno de US$78]. Toda a economia mundial dependerá do nível da escalada e o
tempo que essa guerra vai se prolongar.”
O petróleo mais caro vai desencadear aumento global de
custos, continua Gisele. “A guerra traria problemas não só para a produção de petróleo
e custos de produtos dependentes dessa matéria-prima. Como reflexo da tensão,
já estamos vendo insegurança no transporte e logística internacionais (no Mar
Vermelho, extremistas houthis estão atacando navios que vão para Israel) e
esses fatores vão encarecer os custos e pressionar ainda mais a inflação
global.”
Na esfera geopolítica, Emanuel cita que outra consequência
seria o aumento da polarização entre as superpotências. “Com mais
instabilidade, pode haver um alinhamento de países locais com a Rússia e a
China para enfraquecer a influência americana no Oriente Médio, onde os EUA são
aliados de primeira hora de Israel.”
Repercussão no Brasil
Para o Brasil, a consequência de uma guerra longa será nos
preços, segundo os especialistas. O principal efeito será no preço dos
combustíveis, de acordo com Emanuel. “Isso vai implicar em pressão
inflacionária, já que a maior parte das mercadorias (inclusive comida) são transportadas
por meio rodoviário.”
Gisele destaca a questão logística como consequência da
guerra. “Um caos logístico internacional, que estaria diretamente ligado à
escalada do conflito, vai afetar as nossas exportações e importações. As
mercadorias ficariam paradas nos portos e os navios viajarão com capacidade
ociosa. Sentiríamos um impacto direto nossa indústria, pois somos grandes
dependentes da importação de matérias primas, principalmente o setor químico.”
Para encerrar o conflito, é preciso haver pressão internacional para uma solução duradoura que atenda às necessidades dos dois lados, segundo a professora. “Os países estão exigindo um cessar fogo e o fim do conflito. De qualquer maneira, é preciso construir uma solução que preveja dois estados (israelense e palestino). Do contrário, se o mundo não fizer esforços conjuntos para a pacificação da região, haverá consequências globalizadas para todos os players internacionais.”
Emanuel Pessoa - Fundador do Emanuel Pessoa Advogados, é advogado especializado em Direito Internacional, Governança Corporativa, Direito Societário, Contratos e Disputas Estratégicas. Mestre em Direito pela Harvard Law School, Doutor em Direito Econômico pela USP, Certificado em Negócios por Stanford, Bacharel e Mestre em Direito pela UFC, além de palestrante e comentarista.
Gisele Souza - Professora de Relações Internacionais da ESAMC Santos, tem 35 anos de experiência em comércio exterior, relações internacionais e logística nacional e internacional. Mestranda em Consultoria e Organização Empresarial, possui MBA em Logística Globalizada e Bacharel em Relações Internacionais.
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