Entenda como adaptar caminhada, musculação e outros
exercícios durante e após o tratamento
“Volte
a fazer exercícios quando estiver bem.” A recomendação parece simples, mas pode
não ser suficiente para quem passou por um câncer de mama. Entre cirurgia,
quimioterapia, radioterapia, alterações hormonais e a própria fadiga provocada
pelo tratamento, o retorno à atividade física precisa considerar o momento e as
condições de cada paciente.
Um
estudo publicado em abril de 2026 no JAMA Network Open reforça essa
mudança de olhar. Pesquisadores analisaram dados de 2.107 mulheres
diagnosticadas com câncer de mama em estágios I a III e avaliaram estratégias
individualizadas de aumento da atividade aeróbica. Na análise, o aumento
progressivo do exercício esteve associado a menor mortalidade por todas as
causas e também por câncer de mama.
O
resultado chama atenção, mas precisa ser interpretado com cautela. O trabalho
utilizou uma coorte (estudo observacional) e a chamada emulação de ensaio
clínico, e não um ensaio clínico randomizado. Por isso, os próprios
pesquisadores ressaltam que novos estudos são necessários para confirmar se o
aumento da atividade física é responsável diretamente pela redução observada na
mortalidade.
Para
o ginecologista e mastologista Rodrigo Freitas, da Clínica Elsimar Coutinho, em
São Paulo, o principal avanço está em compreender que exercício não deve ser
encarado como uma recomendação genérica depois do câncer.
“Uma
paciente em quimioterapia, uma mulher que acabou de passar por uma cirurgia e
outra que terminou o tratamento há alguns anos estão em situações completamente
diferentes. O exercício precisa acompanhar essa trajetória, respeitando
sintomas, limitações e objetivos de cada fase.”
Durante a quimioterapia, é preciso adaptar
A
quimioterapia pode provocar fadiga, náuseas, alterações hematológicas e perda
de condicionamento. Isso não significa, necessariamente, que a paciente precise
ficar parada. O Instituto Nacional de Câncer (INCA), em recomendações
elaboradas em parceria com a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) e
a Sociedade Brasileira de Atividade Física e Saúde (SBAFS), destaca que a
atividade física durante e após o tratamento pode ser segura e estar associada
a benefícios como redução da fadiga e melhora da qualidade de vida.
A
diferença está na intensidade e no objetivo. Para algumas mulheres, uma caminhada
leve pode ser suficiente em determinados períodos. Em outros momentos, pode ser
possível aumentar gradualmente a duração ou a intensidade.
“Durante
a quimioterapia, muitas vezes o objetivo não é ganhar performance, mas
preservar funcionalidade. Em um dia em que a paciente está bem, ela pode se
movimentar mais; em outro, pode precisar reduzir a intensidade ou descansar. O
planejamento precisa ser flexível”, explica Freitas.
A
fadiga relacionada ao câncer também merece atenção. Ela não é apenas o cansaço
habitual depois de uma atividade: pode persistir mesmo após o repouso e
interferir na rotina. Por isso, esperar a fadiga desaparecer completamente para
só então começar a se movimentar pode não ser a melhor estratégia. Quando
liberada pela equipe responsável, a atividade física pode fazer parte
justamente do manejo desse sintoma.
Depois da cirurgia, mexer o braço é parte da recuperação
O
medo de movimentar o braço do lado operado é comum entre mulheres que passaram
por cirurgia de câncer de mama. Existe o receio de prejudicar a cicatrização ou
aumentar o risco de linfedema, o que pode levar algumas pacientes a
restringirem os movimentos por mais tempo do que o necessário.
A
orientação atual é mais individualizada. Estudos conduzidos pelo INCA indicam
que exercícios para recuperar a amplitude do ombro podem ser realizados no
pós-operatório, respeitando a cicatrização, os limites de cada paciente e a
orientação da equipe de saúde.
“Proteger
a cirurgia não significa manter o braço imóvel. A reabilitação precisa ser
progressiva, para que a mulher recupere amplitude de movimento, força e
confiança para usar novamente o membro”, afirma o mastologista.
O
treinamento de força também pode fazer parte dessa recuperação. Após períodos
de menor atividade, é comum ocorrer perda de massa e força muscular. A literatura
analisada pelo INCA não encontrou aumento do volume do linfedema ou do risco de
desenvolvê-lo associado ao exercício resistido, embora ainda existam limitações
na qualidade das evidências.
Na
prática, isso significa que musculação e outros exercícios de resistência não
precisam ser automaticamente proibidos depois do câncer de mama. O princípio é
começar de acordo com a capacidade atual e aumentar a carga progressivamente.
E quando o tratamento provoca menopausa?
Para
mulheres mais jovens, o tratamento pode trazer ainda outra mudança: a
interrupção temporária ou definitiva da menstruação e a chegada antecipada da
menopausa. Quimioterapia e alguns tratamentos hormonais podem estar associados a
sintomas como ondas de calor, alterações do sono, ressecamento vaginal e
redução da libido.
Nesse
contexto, manter-se fisicamente ativa também pode contribuir para preservar
condicionamento, força muscular e saúde cardiovascular. Mas, novamente, não existe
uma fórmula única.
Idade,
tipo de cirurgia, tratamento realizado, sintomas, saúde óssea, condição
cardiovascular e medicamentos em uso são alguns dos fatores que precisam entrar
na avaliação.
O retorno não precisa começar com uma meta impossível
As
recomendações gerais para adultos costumam falar em pelo menos 150 minutos
semanais de atividade física moderada ou 75 minutos de atividade vigorosa. Para
quem está em tratamento ou se recuperando de um câncer, porém, transformar esse
número em uma meta rígida pode ser pouco realista.
O
ponto de partida pode ser muito menor. Uma pessoa que antes do diagnóstico era
sedentária e passou por cirurgia ou quimioterapia pode começar com períodos
curtos de caminhada e, conforme sua condição permitir, aumentar gradualmente a
duração, a frequência ou a intensidade.
“Dizer
simplesmente ‘faça 150 minutos por semana’ não resolve para uma paciente que
hoje consegue caminhar apenas alguns minutos. Primeiro precisamos entender o
que ela consegue fazer. Depois, construir uma progressão possível e segura”,
diz Rodrigo Freitas.
Essa
mudança de perspectiva é importante porque o exercício não precisa aparecer
apenas depois do fim do tratamento. Ele pode acompanhar diferentes etapas da
jornada: ajudar a preservar a funcionalidade durante a quimioterapia,
contribuir para a recuperação dos movimentos depois da cirurgia, combater o
sedentarismo, recuperar força e condicionamento e fazer parte dos cuidados de
longo prazo.
O
estudo publicado no JAMA Network Open acrescenta uma evidência
importante a esse debate, ao associar aumentos progressivos de atividade
aeróbica a melhores resultados de sobrevivência. Mas a mensagem não é que toda
paciente com câncer de mama deve seguir o mesmo treino. É justamente o
contrário: o exercício precisa ser prescrito e adaptado de acordo com a fase do
tratamento e as características de cada mulher.
“A
pergunta não deveria ser apenas se a mulher que teve câncer pode fazer
exercício. Precisamos perguntar qual exercício ela pode fazer, em que momento,
com qual intensidade e quais adaptações são necessárias. É essa
individualização que transforma a atividade física de uma recomendação genérica
em uma ferramenta de cuidado”, conclui Freitas.
Importante: o início ou
retorno à atividade física durante e após o tratamento do câncer deve ser
individualizado e alinhado à equipe de saúde, especialmente no período
pós-operatório, durante quimioterapia ou radioterapia e diante de sintomas ou
outras condições clínicas.
Dr. Rodrigo Freitas - ginecologista e mastologista da Clínica Elsimar Coutinho, em São Paulo, com atuação voltada à saúde da mulher, menopausa, longevidade e qualidade de vida. O especialista acompanha pacientes em diferentes fases da vida, contribuindo para estratégias de prevenção, diagnóstico e promoção da saúde integral. Também realiza cirurgias mamárias e ginecológicas minimamente invasivas, incluindo procedimentos por videolaparoscopia e cirurgia robótica.
Referências