Com entrada gratuita, mostra reúne de 18 de março a 5 de
julho artistas de 26 países da região sob curadoria de Giancarlo Hannud e
Julieta Maroni e propõe um olhar sobre a diversidade de linguagens presentes na
coleção do Banco Interamericano de Desenvolvimento, formada ao longo de sete
décadas
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| Kika Carvalho | Sem título | 2021| Brasil |
Até 5 de
julho, a Galeria de Arte do Centro Cultural Fiesp (CCF) recebe a exposição Pluralidades
insulares: arte latino-americana e caribenha no acervo do BID. É a
primeira vez que a coleção do Grupo Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID) é reunida fora de sua sede, em Washington, nos Estados Unidos.
São 157
obrasdos 26 países mutuários do BID, incluindo nomes consagrados na região,
como Tomie Ohtake (Brasil), Olga de Amaral (Colômbia), Benito Quinquela Martín
(Argentina), Diego Rivera (México) e Fernando de Szyszlo (Peru). Também está
presente uma geração mais jovem de artistas que conquistou reconhecimento
internacional mais recentemente, como Kika Carvalho (Brasil), Ad Minoliti
(Argentina), Rember Yahuarcani (Peru), Claudia Casarino (Paraguai) e Sheena
Rose (Barbados).
“Estamos
colocando a arte do BID à disposição para o grande público. São 157 obras de 26
países pela primeira vez fora da sede do Banco”, afirmou o presidente do Grupo
BID, Ilan Goldfajn. “No Grupo BID, consideramos a arte uma parte fundamental do
desenvolvimento e da construção da produtividade e da prosperidade na América
Latina e Caribe. A arte cria empregos, estimula inovação e une comunidades. É
por isso que o Grupo BID é a única instituição multilateral com um grupo
específico de Cultura, Arte e Coleções, usando a criatividade para destacar o
talento e o potencial da região”, completou.
Com quase
2.000 obras, sobretudo da América Latina e Caribe, a coleção de arte do BID se
formou ao longo das quase sete décadas de história da instituição, por meio de
aquisições e iniciativas institucionais.
Na exposição
que se inicia por São Paulo, a presença brasileira, que inclui destaques como
Victor Brecheret, é intencionalmente pontual. O objetivo é apresentar ao
público obras de países e artistas ainda menos conhecidos por aqui.
Sete seções
temáticas organizam olhar: Territórios, Gentes, Geometrias, Abstrações,
Religiosidade, Mulheres e História da coleção.
Mais do que
uma tentativa de espelhar a realidade, a coleção do BID revela a evolução da
construção da imagem da região. É, sobretudo, um convite ao diálogo
intergeracional e inter-regional.
De acordo
com Paulo Skaf, presidente da FIESP e do SESI-SP, é uma honra para o Centro
Cultural Fiesp receber, pela primeira vez fora de Washington, o acervo do Banco
Interamericano de Desenvolvimento. “A mostra destaca a diversidade da América
Latina e reforça que desenvolvimento também é cultura”, diz Skaf.
CURADORIA
“Em suas
primeiras décadas, a coleção concentrou-se principalmente em mestres modernos
que tiveram papel decisivo na formação das tradições artísticas nacionais dos
países membros. Com o tempo, esse olhar se ampliou para incluir artistas
emergentes e fortalecer a representação de diferentes países e comunidades da
América Latina e do Caribe”, explica Julieta Maroni, curadora responsável pela
coleção no BID. “Hoje a coleção procura refletir tanto os legados artísticos
quanto o dinamismo da produção contemporânea”, completa.
Para
Giancarlo Hannud, curador convidado a conceber o recorte apresentado em São
Paulo em diálogo com Julieta Maroni, um dos pontos de partida não poderia ser
outro senão observar de que forma diferentes artistas latino-americanos aparecem
representados na coleção.
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Karen Miranda| Oferenda equatoriana no páramo (da série Na boca do jaguar da montanha, todos são beija-flores) Equador | 2020 |
O cuidado de
não fixar definições orienta toda a construção do percurso. Em vez de organizar
as obras por país ou período - solução que poderia sugerir uma coerência
territorial artificial - a curadoria propõe uma leitura fragmentada, assumindo
as descontinuidades como parte constitutiva da região. “São pequenas ilhas na
América dita latina, que muitas vezes não se conversam, mas coexistem”, diz
Hannud.
A imagem do
arquipélago também sugere outra dimensão: dentro de cada país há múltiplas
ilhas. Não existe uma única produção argentina, colombiana ou haitiana, assim
como não existe uma única forma de ser latino-americano. Assim, ao olhar para o
conjunto do acervo, o que emerge não é uma narrativa coesa, mas uma constelação
de histórias, territórios imaginados, gestos artísticos e sensibilidades
diversas.
RECORRÊNCIAS DO ACERVO
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| Fabián Diaz | Amazonas | 2014 | Colômbia |
Entre as
recorrências visíveis do acervo estão retratos e imagens que ajudaram a
construir a memória visual de processos históricos no continente, as linguagens
geométricas e abstratas que atravessaram o continente no pós-guerra, a presença
expressiva de mulheres artistas e um conjunto de obras que dialoga com
religiosidades e cosmologias diversas.
A geometria
e a abstração ocupam um lugar expressivo no percurso. Associadas, em diferentes
momentos, à ideia de universalidade e à utopia de uma linguagem capaz de
transpor fronteiras, essas vertentes revelam inflexões próprias no contexto
latino-americano. “Quando a geometria moderna entra na América do Sul, cada um
assume um sotaque diferente”, comenta Hannud. O resultado é uma sucessão de
traduções locais que desafiam qualquer noção de unidade estilística.
Outro núcleo
reúne obras que evocam narrativas religiosas, símbolos populares e universos
fabulatórios. Sem recorrer ao exotismo, a curadoria destaca como a imaginação
de realidades alternativas assume formas distintas. Bandeiras vodu, esculturas
sacras, imagens simbólicas e personagens históricos reinventados apontam para
experiências que dialogam entre si, ainda que marcadas por realidades e
contextos diversos.
A presença
das mulheres artistas constitui um dos eixos da exposição. O recorte dialoga
com debates contemporâneos sobre revisão historiográfica e com mudanças
recentes na própria coleção. Segundo Julieta Maroni, esse movimento acompanha
processos mais amplos na história das coleções de arte formadas ao longo do
século XX. “Assim como ocorreu em muitas coleções estabelecidas naquele
período, as primeiras aquisições refletiam padrões mais amplos do campo
artístico”, explica. “Com o tempo, buscamos ampliar esse panorama, incorporando
artistas cujas práticas contribuem de forma decisiva para compreender a
história artística da América Latina e do Caribe”.
CULTURA E DESENVOLVIMENTO
No plano
institucional, a coleção do BID representa uma dimensão cultural da própria
missão do banco na América Latina e no Caribe. “Enquanto o BID trabalha para
melhorar a vida de milhões de pessoas na região, a coleção oferece uma
plataforma complementar para destacar a capacidade criativa de nossas
sociedades”, afirma Julieta Maroni.
Segundo ela,
a arte permite tornar visíveis as dimensões humanas e culturais do
desenvolvimento. “Ela pode refletir transformações urbanas, mudanças sociais e
as aspirações em constante evolução das sociedades”, explica. “Assim como a
coleção, a mostra na Galeria de Arte do Centro Cultural Fiesp reforça a ideia
de que desenvolvimento não se limita à infraestrutura ou às finanças, mas
envolve também pessoas e vitalidade cultural.”
Se o
conceito de desenvolvimento é, por si só, objeto de disputas e redefinições
constantes, a arte ocupa nessa exposição um campo privilegiado que favorece
refletir sobre suas ambiguidades. Entre certezas institucionais e provocações
curatoriais, a mostra constrói um espaço de fricção produtiva.
Longe de
oferecer uma síntese definitiva, Pluralidades Insulares: arte latino-americana e
caribenha no acervo do BID convida o público a habitar um
território onde as categorias tradicionais deixam de operar com nitidez. O que
é visivelmente compartilhado, sugere a exposição, talvez não seja um idioma,
uma geografia ou mesmo uma narrativa comum, mas um modo de estar no mundo que
se reinventa continuamente.
SERVIÇO
- Exposição
Pluralidades Insulares: arte latino-americana e caribenha no acervo do BID
- Período:
18 de março a 5 de julho
- Funcionamento:
terça a domingo, 10h às 20h
- Local:
Galeria de Arte do Centro Cultural Fiesp – Avenida Paulista, 1313 (em
frente à estação de metrô Trianon-Masp)
- Entrada
gratuita, não é necessário fazer reserva para conhecer a exposição
- Agendamentos
de grupos e escolas: ccfagendamentos@sesisp.org.br