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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

IA reduz cargos de gestão e muda estrutura das empresas

Projeções apontam forte redução da média gerência até 2026; especialista alerta que empresas podem perder capacidade de identificar desvios e contestar decisões

 

A inteligência artificial está acelerando a redução de níveis hierárquicos nas empresas. A Gartner projeta que, até o fim de 2026, uma em cada cinco organizações utilizará IA para achatar sua estrutura, eliminando mais da metade dos cargos de média gerência. 

Para Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria, PhD pela Unicamp e gestor de carreiras, o movimento exige olhar para além da economia de custos. "Boa parte do valor da média gerência estava justamente no atrito. Era o gerente quem traduzia a estratégia para a realidade da operação e devolvia para cima a frase que muitas vezes é a mais valiosa da gestão: 'isso não funciona assim aqui'. Quando essa camada desaparece, a empresa elimina uma etapa de verificação entre a decisão e a operação", afirma. 

O fenômeno já ganhou nome: Great Flattening, ou grande achatamento. Dados da Live Data Technologies mostram que o contingente de gerentes caiu 6,1% entre 2022 e 2025, enquanto a participação dos gerentes médios nas demissões de lideranças passou de 20% em 2018 para aproximadamente um terço em 2023. Na Amazon, milhares de cargos corporativos foram cortados em uma reorganização que incluiu a busca por estruturas mais enxutas viabilizadas pela IA. 

A mudança também amplia a quantidade de pessoas sob responsabilidade de cada gestor. Pesquisa do MIT Sloan aponta que, em empresas que utilizam IA agêntica em escala, a amplitude de controle pode chegar a até 15 subordinados por gestor, diante de uma referência histórica de aproximadamente sete. 

Santos alerta que uma estrutura mais enxuta pode se tornar vulnerável quando a empresa perde mecanismos para perceber que a realidade se afastou do planejamento. "Um sistema que executa muito bem aquilo que foi programado, mas não tem quem perceba que as condições mudaram, pode continuar funcionando por algum tempo sem que ninguém perceba o problema. Se a empresa elimina os mecanismos de realimentação, fica mais eficiente para fazer aquilo que decidiu e potencialmente pior para perceber que decidiu errado".

 

O risco que aparece no longo prazo

A redução das camadas de gestão já afeta a percepção dos trabalhadores. Pesquisa da Korn Ferry com 15 mil profissionais mostra que 41% afirmam que suas empresas reduziram níveis de gestão no último ano. Entre as consequências, 43% relatam liderança desalinhada e 37% dizem se sentir sem direção. 

O movimento também pode comprometer a formação de novas lideranças. Pesquisa da Deloitte com mais de 23 mil jovens em 44 países aponta que apenas 6% da Geração Z consideram chegar a uma posição de liderança seu principal objetivo de carreira. 

"O problema de eliminar a média gerência não aparece necessariamente no balanço do trimestre em que a decisão é tomada. Existe um custo de longo prazo quando a empresa deixa de formar pessoas que aprendem a tomar decisões, lidar com exceções, coordenar equipes e responder por resultados", afirma Santos. 

A discussão não é inédita. Nas décadas de 1980 e 1990, empresas adotaram estratégias de delayering, reduzindo níveis hierárquicos. Para Santos, a experiência mostra que eliminar camadas não significa necessariamente eliminar as funções que eram desempenhadas por elas. 

"A tecnologia muda, mas algumas funções organizacionais permanecem. Coordenação, formação de pessoas e tomada de decisão diante de situações que fogem do padrão não desaparecem porque uma ferramenta passou a executar mais tarefas. Quando essas funções são retiradas da estrutura, alguém precisa assumir deliberadamente esse trabalho. Caso contrário, a empresa pode descobrir anos depois que economizou uma camada e perdeu uma capacidade." 

Nesse cenário, a transformação exige uma mudança no próprio papel dos gestores. Atividades concentradas em repassar informações e instruções estão entre as mais suscetíveis à automação. 

"A parte do trabalho que consiste em levar informação para cima e instrução para baixo é justamente uma das que a IA tende a fazer melhor. O gerente que permanecer nessa estrutura precisará assumir funções que dependem de contexto: identificar exceções, interpretar aquilo que não aparece no dashboard, desenvolver pessoas e ter condições de dizer à direção que uma decisão não está funcionando". 

Para as empresas que decidirem reduzir níveis hierárquicos, Santos defende que mecanismos de acompanhamento, formação e contestação sejam preservados de forma deliberada, em vez de dependerem da própria estrutura hierárquica. 

"A pergunta que um executivo deveria fazer antes de eliminar uma camada não é apenas quanto ela custa. É: quem vai me avisar quando meu modelo mental estiver errado? Porque ele estará errado em algum momento. A questão é garantir que, ao achatar a estrutura, a empresa não elimine justamente as pessoas e os processos que permitem perceber quando a realidade deixou de obedecer ao plano", conclui.

 

Virgilio Marques dos Santos - PhD em Engenharia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Master Black Belt em Lean Seis Sigma e sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria, startup sediada no Parque Científico e Tecnológico da Unicamp. Trabalha há 15 anos com desenvolvimento de carreiras, futuro do trabalho e transformação organizacional. É autor do livro "Partiu Carreira", TEDx Speaker e palestrante em temas de gestão, inovação e liderança.

 

 

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