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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Galeria Estação reúne sete artistas para ampliar os limites entre arte e linguagem na exposição Uma língua nova

Com curadoria de José Augusto Ribeiro e colaboração do Museu de Imagens do Inconsciente, coletiva reúne 60 obras e propõe um novo olhar sobre a produção de artistas historicamente associados ao campo da saúde mental, recusando leituras baseadas em diagnósticos e afirmando a potência singular de cada um deles

 

Com abertura em 25 de agosto e visitação até 26 de setembro de 2026, a Galeria Estação apresenta a exposição coletiva Uma língua nova. A mostra, que tem curadoria de José Augusto Ribeiro, reúne um conjunto de 60 obras de Arnold Schmidt, Aurelino dos Santos, Clovis Aparecido dos Santos, Enio Sérgio, Esther Morgannah, Josef Hofer e Ranchinho, propondo reflexões sobre linguagem e alteridade a partir de uma série de trabalhos produzidos por artistas diagnosticados com transtornos mentais e deficiência intelectual, convidando o público a vivenciar uma gramática própria e uma forma singular de construir imagens, narrativas e modos de existir. O vernissage, com início às 18h, incluirá, às 20h, um bate-papo entre o curador, o psiquiatra Dr. José Gallucci Neto e Eurípedes Junior, músico, pesquisador, museólogo e idealizador do Museu de Imagens do Inconsciente, ao lado da Dra. Nise da Silveira, que assinam textos do catálogo de Uma língua nova. 

O título da mostra foi inspirado no conto No Quadrado de Joana, de Maura Lopes Cançado, escritora que ocupa lugar central na reflexão sobre literatura, sofrimento psíquico e luta antimanicomial. Para Ribeiro, a expressão "uma língua nova" sintetiza a experiência compartilhada pelos artistas reunidos na exposição ao projetar a invenção de linguagens que não se subordinam aos códigos estabelecidos pela história da arte, pela medicina ou pela cultura, afirmando modos particulares de percepção e criação. 

"Nosso interesse era reunir artistas muito diferentes entre si, produzindo em contextos igualmente distintos. Essa diversidade impede interpretações homogêneas sobre esse conjunto de obras, justamente porque ele não constitui um tipo unívoco de produção", afirma o curador. "Cada artista parece desenvolver uma linguagem própria que escapa aos repertórios artísticos mais conhecidos e validados no circuito da arte. O título descreve, justamente, essa situação de liberdade na criação de imagens e objetos." 

Embora dialogue com uma tradição que valorizou a produção artística como expressão legítima, Uma língua nova não pretende reafirmar a categoria da chamada "arte da loucura". Ao contrário, parte do princípio de que essas obras devem ser vistas antes de qualquer enquadramento clínico ou biográfico, reconhecendo sua força estética, inventividade formal e autonomia poética. A idealização da exposição também está intimamente ligada à trajetória da própria Galeria Estação. Ao longo das últimas duas décadas a instituição reuniu em seu acervo trabalhos de artistas que produziram à margem dos circuitos tradicionais da arte. 

"Todas as mostras que fazemos são muito importantes para nós. Esta tem algo mais: uma emoção singular. Nela reunimos sete artistas que têm em comum alguma condição cognitiva e durante toda a vida exerceram e exercem o talento e a criatividade como a linguagem através da qual se revelam. Dos sete conheci pessoalmente apenas o Ranchinho e o Clovis. No caso dos outros minha relação foi diretamente com as obras.

O curador convidado, José Augusto Ribeiro, pesquisou e conviveu com as obras até ter certeza de que a seleção é a que agora mostramos. Além dele, temos o privilégio de publicar textos de outras duas pessoas muito especiais. O convite ao Eurípedes Junior e ao Dr. José Gallucci Neto se deve ao fato de que ambos convivem, cada um em sua especialidade, com pessoas com algum transtorno mental. Esperamos que Uma língua nova seja uma exposição que, além de chamar atenção para questões que talvez preferíssemos evitar, também emocione o público", afirma Vilma Eid, sócia-fundadora da Galeria Estação, no texto de apresentação da exposição.

 

Linguagens singulares 

Longe de constituírem um grupo homogêneo, os sete artistas reunidos na mostra apresentam trajetórias, contextos e processos criativos profundamente distintos. Há autores que passaram por longos períodos de institucionalização psiquiátrica e outros cuja produção se desenvolveu em ambientes familiares; artistas autodidatas e criadores que estabeleceram relações consistentes com museus, ateliês e centros de pesquisa; brasileiros e europeus; desenhistas, pintores e escultores cujas obras nasceram de experiências absolutamente particulares. 

Essa diversidade constitui um dos fundamentos da curadoria. Em vez de buscar semelhanças biográficas, Ribeiro aproxima produções que compartilham outra característica: a capacidade de instaurar sistemas próprios de representação, independentes de convenções acadêmicas ou expectativas do circuito artístico. 

Nesse percurso, o visitante encontrará o universo simbólico das pinturas e esculturas de Clovis Aparecido dos Santos, as construções visuais de Arnold Schmidt, a produção intensa de Ranchinho – presente na mostra com 14 pinturas –, a pesquisa formal de Josef Hofer, as esculturas de influência asteca e inspiração marítima de Esther Morgannah e as abstrações multicoloridas das obras de Enio Sérgio, compondo um panorama que evidencia não uma identidade comum, mas a riqueza de diferentes modos de imaginar, organizar e reinventar o mundo. 

Ao reunir essas produções em um mesmo espaço, Uma língua nova também dialoga com um capítulo decisivo da história da psiquiatria brasileira. Sem transformar esse contexto em tema central da exposição, a curadoria destaca o legado de pesquisadores como Osório César e Nise da Silveira, pioneiros ao compreender a produção artística como forma legítima de expressão, rompendo com leituras exclusivamente patologizantes da experiência psíquica. Essa perspectiva ganha fôlego no texto de catálogo do psiquiatra Dr. José Gallucci Neto, que propõe um deslocamento fundamental: em vez de buscar nas obras a confirmação de um diagnóstico, convida o espectador a reconhecer nelas a singularidade de uma experiência estética. Segundo ele, a criação artística não pode ser reduzida a sintoma, tampouco compreendida como consequência do sofrimento mental. Cada obra estabelece uma relação própria com a linguagem, produzindo sentidos que ultrapassam enquadramentos clínicos. 

Nesse contexto interpretativo, a exposição também se aproxima da trajetória do Museu de Imagens do Inconsciente (MII), cuja contribuição para a preservação e o estudo dessas produções permanece incontornável. A interlocução com a instituição foi decisiva para a mostra, permitindo incorporar obras de Esther Morgannah e Enio Sérgio, que têm trabalhos apresentados pela primeira vez em São Paulo, e ampliar o horizonte inicialmente formado pelo acervo da Galeria Estação. 

Como observa Eurípedes Junior, músico, museólogo, curador e pesquisador que atuou por 30 anos no MII, autor de Do Asilo ao Museu: Nise da Silveira e as coleções da loucura (Editora Holos, 2024), esse patrimônio não representa apenas um capítulo da história da psiquiatria, mas um conjunto de obras que conquistou reconhecimento artístico próprio, exigindo novas formas de preservação, pesquisa e difusão. Ao longo das últimas décadas, esse acervo deixou de ocupar exclusivamente o campo da saúde mental para integrar o debate sobre arte brasileira e produção contemporânea. 

Essa mudança de perspectiva também atravessa a própria concepção curatorial. Ao comentar o processo de pesquisa, Ribeiro ressalta que a exposição não pretende construir um panorama sobre doença mental, mas criar uma situação em que cada artista pudesse ser reconhecido por sua potência inventiva. 

É justamente nesse ponto que o diálogo com Maura Lopes Cançado revela convergência. A expressão "uma língua nova" não funciona como metáfora da loucura, mas como símbolo de resistência às classificações. Assim como a escritora construiu uma obra que tensiona os limites entre literatura, experiência e linguagem, os artistas que compõem a exposição elaboram universos visuais que nascem de regras próprias, indiferentes às convenções estéticas ou aos sistemas tradicionais de interpretação.

Ao reunir artistas de origens, gerações e percursos tão distintos, a Galeria Estação reafirma uma vocação que acompanha sua trajetória desde a fundação em 2004: ampliar o campo da arte brasileira a partir de produções que desafiam fronteiras culturais, sociais e estéticas. Em Uma Língua Nova, esse compromisso encontra uma de suas expressões mais contundentes.

 

SERVIÇO

Exposição Uma língua nova

Curadoria de José Augusto Ribeiro

Período: de 25 de agosto a 26 de setembro de 2026

Abertura: 25 de agosto de 2026, às 18h. Bate-papo com José Augusto Ribeiro, Dr. José Gallucci Neto e Eurípedes Junior, às 20h.

Espaço expositivo: 2º andar e mezanino

 

Galeria Estação

Endereço: Rua Ferreira Araújo, 625 - Pinheiros, São Paulo.

Horários de funcionamento: segunda a sexta, das 11h às 19h; sábados, das 11h às 15h; não abre aos domingos.

Telefone: (11) 3813-7253

Email: contato@galeriaestacao.com.br

Site: www.galeriaestacao.com.br/

Instagram: @galeriaestacao

 

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