Organização Social de Saúde alerta para
contradições entre impacto positivo do setor e efeitos socioambientais ainda
negligenciados
Responsável
por cerca de 9,5% do PIB brasileiro e movimentando mais de R$ 900 bilhões ao
ano — conforme dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e da
Organização Mundial da Saúde (OMS), o setor de saúde é um dos maiores
empregadores do país e consumidores de recursos, como água, energia e materiais
descartáveis.
Apesar
disso, por muitos anos, permaneceu fora do foco principal das cobranças ESG
(Ambiental, Social e de Governança), que recaíam sobre outras indústrias.
“O
setor sempre foi visto como essencial por definição. A missão de salvar vidas
funcionava como um escudo ético, o que gerou certa indulgência histórica com
relação a impactos ambientais e práticas de governança - uma espécie de ‘vilão
perdoado’ diante de sua nobre finalidade”, analisa Everton Tumilheiro,
coordenador ESG no CEJAM (Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”).
Esse
cenário, no entanto, já começou a mudar. Pressões regulatórias, exigências de
investidores e aumento da percepção pública sobre os impactos negativos gerados
pela atividade assistencial estão levando organizações de saúde a incorporar a
sustentabilidade de forma mais sistemática.
Impactos transversais e responsabilidade ampliada
A
saúde é naturalmente associada ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS)
3 - Saúde e Bem-Estar, mas especialistas alertam que o setor tem influência
direta ou indireta em vários outros ODS da ONU, incluindo os que tratam de
igualdade de gênero, trabalho decente, inovação, consumo responsável e ação
climática.
Segundo
Tumilheiro, a transversalidade da saúde oferece ao setor um papel estratégico
na indução de boas práticas. “Além de ser um grande empregador, a saúde tem
capilaridade social e um diálogo diário com a população, o que aumenta sua responsabilidade
como agente de transformação social e ambiental.”
Com
mais de 20 milhões de empregos diretos e indiretos e responsável por
aproximadamente um terço da produção científica nacional, de acordo com dados
do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) e da Scielo Brasil, o setor
tem capacidade de liderar transformações que vão da educação ambiental ao
combate à desigualdade social.
“O
contato diário com milhões de pessoas e uma força de trabalho altamente
capacitada permitem que o setor atue como agente de mudança em temas que
extrapolam a assistência médica”, completa o especialista.
Passivos ambientais e desafios de governança
Entre
os principais desafios ambientais estão a geração e o gerenciamento de
resíduos, consumo de energia, uso de água e emissões indiretas de gases de
efeito estufa. Nos Estados Unidos, por exemplo, o setor é responsável por cerca
de 4,4 milhões de toneladas de resíduos plásticos por ano, segundo dados da Health
Care Without Harm (HCWH).
No
Brasil, a realidade é menos dimensionada por falta de dados consolidados, mas a
preocupação com a gestão de resíduos e a destinação final já entrou na pauta de
hospitais, operadoras e organizações sociais de saúde.
Tumilheiro
chama a atenção também para o impacto climático. Emissões de gases de efeito
estufa decorrentes de operações hospitalares, transporte de insumos e descarte
de materiais médicos começam a atrair atenção de órgãos reguladores.
“A
crise climática impacta diretamente a saúde pública, aumentando a incidência de
doenças respiratórias, infecciosas e cardiovasculares. Então, há uma relação
direta entre o que fazemos hoje em termos de gestão ambiental e a demanda
futura por serviços de saúde”, explica.
No
campo da governança, os riscos vão desde fraudes em compras públicas até
problemas de rastreabilidade na cadeia de fornecedores. A própria OMS já
alertou para os impactos da corrupção na qualidade e no acesso a medicamentos e
serviços.
“Lidamos
com recursos públicos e privados, cadeias complexas e um ambiente regulatório em
constante atualização. Isso exige atenção constante à integridade e ao
compliance.”
Da retórica à prática: um setor em transição
Ainda
que o discurso ESG esteja mais presente, os avanços na prática são desiguais.
Um levantamento da SITAWI Finanças do Bem mostra que, em 2023, apenas 27% das
empresas de saúde listadas na Bolsa de Valores (B3) publicaram relatórios ESG
com indicadores auditáveis.
Para
Tumilheiro, a pandemia de Covid-19 funcionou como um catalisador de mudanças,
mas o desafio agora é garantir que as boas práticas não fiquem restritas a
momentos de crise.
“Muitas
instituições passaram a olhar com mais atenção para temas como saúde mental,
inclusão social e redução de impacto ambiental. Mas transformar isso em
políticas estruturadas e metas de longo prazo ainda é um processo em
construção.”
Iniciativas do CEJAM
O CEJAM é uma das organizações que têm buscado
consolidar a agenda ESG dentro da governança institucional. Desde 2024, a
entidade é signatária do “Pacto Global da ONU”, além disso conta com um
“Programa de Integridade”, que inclui código de conduta, canal de denúncias e
treinamentos regulares para gestores e colaboradores.
No pilar social, disponibiliza aos mais de 23 mil profissionais uma plataforma online de saúde mental como benefício, oferecendo suporte psicológico gratuito e conteúdos educativos que promovem o bem-estar emocional e qualidade de vida.
Do ponto de vista ambiental, passou a adotar
insumos com menor impacto, como a substituição de luvas de PVC por alternativas
menos poluentes, além de estimular o consumo de refeições de base vegetal em
suas unidades de saúde. O projeto Descobrindo Sabores, feito em parceria
com a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), levou pratos veganos ao cardápio
de hospitais públicos.
“O desafio é tornar a sustentabilidade um eixo
estruturante da gestão em saúde, e não apenas uma resposta a pressões externas
ou a eventos pontuais”, finaliza Tumilheiro.
@cejamoficial
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