A cantora neozelandesa Lorde
afirmou, em entrevista para o programa The Late Show with Stephen Colbert, nos
EUA, que participou de um tratamento experimental com MDMA
(3,4-metilenodioximetanfetamina) que a permitiu superar o medo de se apresentar
ao vivo. Segundo a artista, a terapia foi realizada com acompanhamento de
profissionais, sem o uso recreativo da substância.
O uso terapêutico de MDMA só é
liberado, até o momento, na Austrália, enquanto em países como EUA e Brasil o
tema ainda esteja sendo debatido por seus respectivos órgãos reguladores. No
entanto, estudos científicos apontam que o psicodélico, quando utilizado em um
protocolo específico, pode trazer grandes avanços no tratamento de doenças como
depressão e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).
“A comunidade científica
reconhece os benefícios que o medicamento promove. Estudos de Fase 3 atestam a
eficácia significativa no tratamento de pessoas que têm maior resistência a
outras terapias – 67-72% dos participantes não preencheram mais os critérios
para TEPT após o uso controlado de MDMA. Isso porque o medicamento propõe um
novo paradigma: em vez de suprimir o sintoma, busca oferecer ao paciente outra
forma de enxergar sua dor”, explica Lucas Cury, médico pós-graduado em
Neurologia.
A substância MDMA é
reconhecida pelo seu uso recreativo como princípio ativo em drogas ilícitas, e
é fato que, se utilizada de forma inadequada, os efeitos podem ser
intensificados, gerando efeitos colaterais adversos. “Por isso, é fundamental o
uso de formulações certificadas e seguras, com controle de pureza e dosagem,
bem como seguir os protocolos devidos”, explica o médico.
O tratamento proposto
atualmente envolve o uso do MDMA durante sessões de psicoterapia, com o devido
acompanhamento de especialistas, para que o paciente consiga falar sobre seus
traumas sem ativar os gatilhos de medo e insegurança. Desse modo, a conversa
com o psicoterapeuta tem maior fluidez. “O MDMA é administrado de forma oral em
doses específicas, com monitoramento físico e emocional durante toda a sessão.
Pacientes com histórico de traumas severos, resistentes a tratamentos
tradicionais ou com TEPT crônico são os que mais tendem a se beneficiar da
terapia assistida por MDMA. Há também ganhos potenciais para indivíduos com
dificuldade de socialização, fobia social ou bloqueios emocionais profundos
decorrentes de vivências traumáticas”, pontua Lucas Cury.
Como atua no cérebro
O efeito do MDMA é de uma
reciclagem da rede neural, quebrando padrões repetitivos de comportamento e
percepção que aprisionam o paciente em ciclos de sofrimento. “A substância não
é uma pílula mágica, mas uma ferramenta que, aliada à psicoterapia, tem o
potencial de oferecer cura real, onde antes havia apenas contenção
sintomática”, diz o profissional.
No cérebro, o medicamento
promove uma liberação de serotonina e estimula a liberação de ocitocina, o
hormônio que contribui para uma intensa empatia e conexão emocional durante o
uso. Além disso, o MDMA diminui a hiperconectividade da amígdala — região
cerebral ligada à memória emocional, ao medo e à resposta de alerta —
permitindo que o paciente observe experiências traumáticas com mais sobriedade
e lucidez. “Como resultado, há uma atenuação da fobia social, fortalecimento
das microrrelações interpessoais e maior capacidade de conexão por meio do
olhar, o que reduz sentimentos causados por traumas ambientais e sociais
pregressos.
No Brasil, contudo, ainda não
há aprovação regulatória definitiva. Apenas a importação excepcional pode ser
solicitada via Anvisa em casos individualizados e com justificativa médica.
“Espera-se que os avanços científicos comprovados e as aprovações regulatórias
em outros países sirvam de impulso para que nosso país também passe a fazer uso
terapêutico do MDMA. Isso será um importante passo na promoção de saúde mental
e qualidade de vida para milhares de brasileiros que esperam por um tratamento
mais eficaz para seus traumas”, finaliza Lucas Cury.
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