O setor de energia se encontra em um momento de
inflexão. Por um lado, impulsionado, cada vez mais, por uma demanda
sustentável, segura e eficiente. Mas, por outro, ainda enfrentando obstáculos
que dificultam essa materialização – indo desde empecilhos regulatórios, à
falta de uma verdadeira cultura inovadora nessas empresas que impulsione esse
movimento. Diante deste gap nítido entre a visão e realidade, apenas uma
mudança cultural profunda pautada em uma governança robusta poderá propor
caminhos estratégicos para essas metas, pavimentando um futuro energético bem
mais resiliente e inovador.
Em 2024, dados divulgados pela Câmara de Comercialização
de Energia Elétrica (CCEE) identificaram que o Brasil consumiu 3,9% mais
energia elétrica do que em 2023, ultrapassando, pela primeira vez, a marca de
70 mil megawatts (MW) médios. Para este ano, as expectativas, segundo o
Ministério de Minas e Energia (MME), são de um cenário de maior crescimento
neste consumo e mudanças significativas nos preços do petróleo, aspectos que
influenciam, diretamente, o planejamento estratégico dessas empresas para que
atendam essa demanda mantendo a preservação ambiental.
A própria ENEL, nesse sentido, obriga as empresas
nacionais deste setor que direcionem 1% de seu faturamento do ano anterior em
iniciativas de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), como parte do
programa da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), que responde à Lei
9.991/2000. A ideia é, justamente, financiar o desenvolvimento de tecnologias,
processos, equipamentos e produtos inovadores que contribuam para uma sociedade
mais moderna, sustentável, com maior qualidade nos serviços prestados e com
responsabilidade social.
Porém, em muitos casos, essa obrigação faz com que
muitas empresas direcionem esse dinheiro de forma equivocada, em projetos que
não vão para frente nem geram qualquer tipo de valor frente a esse objetivo,
tomando apenas tempo e recursos que não agregam em nada positivo. Resultados,
esses, que estão diretamente ligados à falta de uma verdadeira governança de
inovação incorporada no mindset corporativo que direcione essas decisões em
planejamentos mais assertivos e benéficos.
Ideias brilhantes, que contribuam com o
desenvolvimento de soluções financeiramente eficazes e que também sustentem a
preservação do ecossistema, podem surgir de diversas formas, assim como serem
aplicadas através de diferentes metodologias. Mas, se não houver nenhuma
sistemática por trás deste processo de testagem, experimentação e validação, as
chances de se frustrarem com essas propostas serão, certamente, maiores.
E, é justamente aqui que a governança da inovação
no setor de energia entra, sendo crucial para transformar essas ideias em
resultados sustentáveis. Ela estabelece a estrutura e processos necessários
para gerenciar o ciclo de vida da inovação e sua execução, conduzindo de forma
cadenciada para que cada etapa percorrida atinja o resultado esperado e
otimizando, com isso, o tempo e dinheiro investidos.
Isso inclui, na prática, uma série de cuidados que
influenciam, diretamente, nessa conquista: ter um bom funil de inovação que
filtre as propostas que tendem a atingir as metas esperadas; estabelecer uma
gestão de riscos que considere potenciais prejuízos ao negócio; prezar pela
capacitação dos times para que se qualifiquem em suas tarefas e, acima de tudo,
realizar um amplo mapeamento de mercado, identificando quais tendências ou
oportunidades fazem sentido ou não para sua realidade e objetivos.
Essa estruturação é o que contribuirá para que toda
iniciativa adotada internamente se mantenha alinhada às expectativas de cada
empresa e, ao mesmo tempo, às demandas do mercado, definindo uma visão mais
clara à longo prazo do que pretendem conquistar e quais soluções serão
necessárias para percorrer essa trajetória – tendo uma maior estratégica na
alocação dos recursos junto a planos de contingência em casos de desafios
inesperados, para que não se prejudiquem ao longo do caminho.
A cada ano, o crescimento econômico internacional,
as intensas ondas de calor impulsionadas pelas mudanças climáticas e o próprio
cenário macroeconômico exigirão, cada vez mais, a adoção de energias mais
renováveis e limpas. E, a melhor forma de permanecer em aderência a esse
cenário, sem que qualquer imprevisto macroeconômico impeça este sucesso, será
através desta governança de inovação que oriente nas ações que mais façam
sentido para cada empresa, para que saibam não apenas aonde querem chegar, mas
também o que devem fazer para isso.
Ela será a grande capitã que comandará todos os
elementos necessários para que as ideias inovadoras no setor de energia não
fiquem apenas no papel, mas se transformem em soluções concretas que contribuam
para um futuro mais sustentável, gerando valor tanto para a empresa quanto para
a sociedade e o meio ambiente.
Alexandre Pierro - mestre em gestão e engenharia da inovação, engenheiro mecânico, bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.
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