Há quem diga que o futuro do trabalho será dominado pelas
máquinas. Inteligência artificial, automação, robôs colaborativos — tudo isso
já está aí, processando dados, tomando decisões e até escrevendo textos como
este. Mas, se a automação leva vantagem em tarefas repetitivas, analíticas e
até criativas, o que resta para nós, humanos?
Segundo relatório do World Economic Forum (WEF), as habilidades mais demandadas incluirão pensamento analítico, resolução de problemas, autogestão, aprendizado ativo e — veja só — inteligência emocional. Em outras palavras, saber lidar com pessoas, inclusive você mesmo, será mais valioso que lidar com planilhas. Essa inversão de valores não é moda. É uma resposta estratégica a um mundo cada vez mais volátil.
A lógica é simples: quanto mais a tecnologia avança sobre tarefas mecânicas e repetitivas, mais o valor do trabalho humano migra para aquilo que não cabe em códigos binários. Ambiguidades, conflitos, decisões que exigem sensibilidade — tudo isso ainda está fora do alcance dos algoritmos.
Um sistema de IA pode identificar um erro contábil em segundos. Mas só um ser humano consegue explicar isso com tato a um cliente furioso. Um robô organiza o estoque com precisão, mas não acalma uma equipe pressionada diante de uma meta mal desenhada. Em contextos de incerteza — e o Brasil é especialista nisso —, as soft skills deixam de ser "plus" e se tornam escudo.
A pergunta inevitável é: por que ainda tratamos essas habilidades como acessórios, quando são o que resta de mais genuinamente humano? Parte da resposta está na formação técnica que prevalece nas escolas e universidades. Aprende-se a passar em provas, não a escutar, dialogar ou liderar. Soma-se a isso um velho preconceito corporativo: tudo o que não pode ser quantificado com precisão é rotulado como supérfluo. Mas ignorar esse território é um erro estratégico. Empresas que negligenciam soft skills pagam caro em rotatividade, ruído interno e perda de inovação.
O Brasil tem aqui um paradoxo interessante. Por um lado,
há resistência: muitos ainda veem essas habilidades como tema de palestra
motivacional. Por outro, há vantagem competitiva: somos treinados na marra a
improvisar, adaptar, manter o bom humor no caos. Essas são, em essência, soft
skills — e têm alto valor de mercado. Só falta reconhecê-las como tal.
Como fortalecer suas soft skills na prática
1. Comece pelo autoconhecimento.
Ferramentas como DISC (Dominance, Influence, Steadiness,
Conscientiousness), MBTI (Myers-Briggs Type Indicator) — ou até
boas conversas com mentores — ajudam a identificar padrões, pontos fortes e
zonas cegas;
2. Peça feedback real. Nada de
tapinhas nas costas. Feedback construtivo exige escuta, vulnerabilidade e
rotina;
3. Invista em experiências fora do óbvio.
Teatro, mediação de conflitos, comunicação não violenta, liderança positiva.
Tudo que mexe com sua zona de conforto conta mais do que parece;
4. Pratique. Soft skill não se
aprende em aula. Ela se revela numa reunião difícil, numa conversa honesta, num
“não” bem dado. É músculo — exige treino.
No fim das contas, a pergunta certa não é se as máquinas vão substituir os humanos. É: quem, entre os humanos, vai fazer o que elas não conseguem?
A diferença entre ser substituído e ser essencial mora, cada vez mais, na capacidade de se relacionar, adaptar e liderar. Não é sobre o que você faz com as mãos, mas sobre o que você entrega com a cabeça — e com o coração.
Como dizia Peter Drucker, "o mais importante na
comunicação é ouvir o que não foi dito". E isso, caro leitor, nenhum
algoritmo faz por você.
Virgilio Marques dos Santos - sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria
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