A paisagem diante de seus olhos contrastava com a
angústia que dilacerava sua alma, no entanto, a placidez do seu rosto escondia
a tormenta que a consumia por dentro. Sorriu ao contemplar as águas agitadas,
cor de barro, nas quais navegava. Era uma sensação de pertencimento,
reconhecimento. Sabia que ali, havia pouco, uma tempestade devastara tudo, tal
como acontecera com ela. Mas não havia como fugir; às vezes, permanecer na dor
é a única escolha possível, uma vez que o medo de não existir nada além é quase
palpável. Contudo, pensou, a natureza sempre encontra um jeito de refazer-se.
Mas e ela? Conseguiria cura-se também?
Pousou o olhar no livro que descansava em seu colo.
Na capa, o título La sombra del viento exibia palavras que não pertenciam à
sua língua pátria, mas, sim, ao idioma escolhido por seu coração. “Coisas de
outras vidas”, pensou.
A narrativa, assinada por Carlos Ruiz Zafón, a fez
refletir sobre o quão assustador pode ser esquecer-se de algo, aquele momento
em que uma lembrança se torna embotada, porque, longe de ser libertador, é algo
que aterroriza, pois ratifica uma certeza: a finitude da vida.
Daniel, o protagonista da narrativa, é levado por
seu pai ao cemitério dos livros esquecidos. Lá, ao escolher uma obra de forma
aleatória, ele vê-se envolvido numa trama orquestrada por alguém que,
aparentemente, deseja destruir todos os livros escritos pelo enigmático Julián
Carax, autor fictício. Ambientado em uma Barcelona gris, na década de 1940, o
romance vai além da atmosfera de mistério que pontua diálogos bem construídos e
intensos, propondo ao leitor uma reflexão sobre um tema inquietante, mas
essencial: nossas escolhas e o quanto nos é lícito sofrer por elas.
Com o pensamento em fuga, trouxe da memória o
trecho do livro que sabia de cor: “Na altura em que a razão é capaz de
compreender o sucedido, as feridas no coração já são demasiado profundas”. No
momento, ela vivia toda a intensidade daquelas poucas palavras, então, desejou,
mais uma vez, retroceder no tempo. Em seu desespero, imaginava se poderia
esvaziar o rio à sua frente e recuperar sua essência, que, simbolicamente,
jazia lá no fundo, mas se deu conta de que para certas coisas não há conserto.
Não se pode mudar o que aconteceu, voltar atrás, tampouco terminar sempre uma
história com final feliz. Agora, teria que acomodar aquela agonia em algum
lugar dentro de si, de difícil acesso, debaixo de tantas outras dores. E, já
que era impossível extirpar certos sentimentos, restava-lhe acostumar-se com a
incômoda presença deles, porém sem dirigir-lhes sequer um olhar, porque, se
fossem revisitados, voltariam a machucá-la.
Ao olhar pela janela do barco onde estava, viu
outra embarcação diminuta, frágil, porém ágil. Ali, ela se deu conta de que era
como o pequeno barco, que, mesmo diante da imensidão daquelas águas escuras,
revestia-se diariamente de resiliência, tornando-se forte o bastante para
enfrentar as ondas, mas com a consciência de se render ao inevitável: um dia,
sucumbiria também às intempéries.
Aquele momento fugaz perdeu-se quando um raio de
sol se refletiu nas águas, encontrando o seu olhar. Ela voltou a ter esperança,
lembrou-se de sua juventude, da força que sempre carregava consigo nos momentos
mais difíceis, ainda que agora fosse diferente; estava assombrada, rota por
dentro. Não havia como se recuperar. Aquela dor lhe trouxera medos que ela não
conhecia.
Num ato inconsciente, levou a mão ao colo buscando
o livro de páginas já desgastadas. Ao continuar a leitura, surpreendeu-se com
uma descoberta: Zafón, de uma acuidade singular, acenava com a possibilidade
das segundas chances, mesmo diante de perdas inevitáveis.
Ela sorriu novamente, agora com um quê de
expectativa no ar. O barco seguia, assim como sua vida também precisava encontrar
um novo rumo. Fechou o grosso exemplar e decidiu prestar atenção no caminho que
se descortinava à sua frente. Ainda havia tempo para apreciar a paisagem. A
chuva que ameaçava cair, assim como suas lágrimas, tardaria a reaparecer.
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