Temos registros de muitas guerras que já se passaram pelo mundo. Por muitas vezes, esses conflitos armados iniciam pela falta de comunicação, por interesses políticos, interesses territoriais, por rivalidades étnicas ou divergências religiosas. Até mesmo por comportamentos egoístas, autoritários e intransigentes. Personalidades doentias que por detrás de carreiras e poder, escondem-se crianças mimadas que não tiveram um desenvolvimento de acordo com um padrão de normalidade. Por resultado disso, conflitos podem acontecer. Divergências familiares, confrontos com colegas, oposições sociais, conflitos armados.
Estruturas
físicas adultas, comandadas por mentes patologicamente infantis. O que se ganha
entrando em conflitos armados, que por muitas vezes, permanecem durante anos,
se não dessa forma, os seus resultados podem ser vistos por décadas.
Território?
Raiva?
Razão?
Ou
comportamento egoísta? Preencher vazios internos? Falta de autoconfiança
camuflada em atitudes autoritárias e violentas? Estamos vivendo um grande e
surreal conflito armado! Nem parece que já passamos por tanto crescimento
econômico, cultural, até globalização... Pra que? Em pleno século XXI um
confronto tipo vale tudo para se proteger? Atacar é a melhor defesa? Ainda?
E as
metodologias de negociação? E os grandes treinamentos que ensinam sobre a arte
de falar, de ouvir, como ensina o método Harvard que a melhor forma de negociar
é aquela que todos ganham. Isso não conta? Pra quem não aprenderam o olhar
empático, não.
Para
aqueles que não sabem dialogar e só ganhar, não adianta. E as consequências que
ficam depois de um conflito armado? Vidas perdidas de formas trágicas
impactando famílias e estruturas de instituições com consequências devastadoras
no presente e futuro de quem sobrevive.
Os
adultos precisando refazer histórias inteiras. Reconstruir lugares onde
morar,conquistar a própria dignidade e identidade. Consequências físicas,
psicológicas, financeiras. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), 78
crianças foram mortas e 100 ficaram feridas desde o final de fevereiro, mas com
certeza esses números já estão muito maiores nesse momento.
Segundo
o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), um milhão de crianças já
fugiram da Ucrânia para países vizinhos. Essas crianças, ficam com os mesmos
impactos dos adultos, mas com muitas variantes específicas. Desdobramentos
injustos, já que essas estão em momento de construção de personalidade, de
formação de um corpo físico que precisa de segurança, boa alimentação,
proteção.
O
estresse pós traumático, a depressão, a ansiedade ficam nesses sobreviventes
que tiveram suas vidas totalmente devastadas e o futuro modificado brutalmente.
As consequências da guerra para essas crianças são inúmeras e dificilmente
pode-se prever todas.
Tantas
perdas... Tantas consequências advindas de conflitos que se transformaram em
confrontos armados por território, na verdade, por necessidade de proteção.
Que
ironia.
Consequência.
Alguém
que, sabe o que é a angústia de ter um pai que lutou na guerra e esse voltar
pra casa gravemente ferido. Que sabe o sofrimento de ter a própria Mãe ferida e
inclusive considerada morta em função da guerra e depois descoberta viva pelo
esposo. Vladimir Putim vivenciou tudo isso, através de seus pais, simples
operários que passaram por situações e consequências da guerra.
Putim
conheceu um futuro depois das tragédias que chegaram com a Segunda Guerra
Mundial (1939 a 1945). Provavelmente, cresceu vendo os resultados que 6 anos de
conflito armado tinham deixado. Sabia bem que soldados poderiam perder a vida,
perder partes do corpo e padecer com estresse pós traumático pelo resto da
vida. Seu Pai foi um herói de guerra. Por debaixo de uma aparência inabalável,
Putim, viveu efeitos do confronto em sua vida que somadas as predisposições
pessoais podem ter suscitado formas de enfrentamento com distúrbios
patológicos.
No
livro escrito pelo jornalista russo-americana Masha Gessen 'O Homem Sem Rosto:
A Ascensão Improvável de Vladimir Putin' ele relata sobre a história desse
homem misterioso. Quando criança, conheceu uma realidade de superproteção. Seus
Pais não queriam perder o único filho e já sabiam a dor da perda pelos outros
dois filhos mais velhos que morreram antes do nascimento de Putim. Em função
desse tratamento, Vladimir Putim cresceu demonstrando comportamentos de uma
criança mimada.
Não
suportava frustração, era agressivo puxava cabelo, mordia aqueles que se
atrevessem a contradizê-lo. Assim que graduou-se em direito, ingressou no
Comitê segurança Nacional, a KGB (Serviço secreto a União Soviética). Um
trabalho próximo a espionagem, a desconfianças constantes, ao mesmo tempo que,
ilusoriamente, um trabalho de guarda, de tutela. Traidores que poderiam fingir
serem álibes.
Que
vida?
Essa
criança que viu seus pais sofrerem os efeitos de algo tão nocivo quanto uma
guerra, poderia ter escolhido outro caminho. Todos temos escolhas, embora essas
sejam mais complexas para aqueles com psicopatologias severas. Nem sempre
conseguem caminhar por lados saudáveis da mente. Mas, Putim, empenhou-se ao longo
de sua vida e mais do que nunca, seu presente espelha uma busca pelas
seguranças a todo custo. Parecendo até uma extensão do mundo mimado de uma
criança que teve excessos que podem ter favorecido faltas. Falta de empatia, de
respeito, de humildade, de consideração, de honestidade.
Faltas
que impõem cruelmente faltas para tantos.
Putim
impõe consequências de guerra para milhares de crianças, a uma nação e para o
mundo inteiro. Consequências de uma guerra, realidade da guerra que deixa
outras consequências de guerra. A resiliência será necessária. Perceber que
existem possibilidades em meio ao caos e que a vida continua. Difícil... Mas, é
o que essas crianças poderão vivenciar. Muitas conseguirão isso, infelizmente
muitas outras não. As que conseguirão terão apoio para fazerem essa
transposição de sentimento e forma de enxergar as situações trágicas da vida.
Já outras terão as próprias facilidades pessoais e possibilidades já
aprendidas
para dar continuidade, fazendo germinar dentro de si sementes plantadas pelos
pais e adultos que um fizeram parte de suas vidas.
Um
futuro incerto, mas que daqui a alguns anos veremos suas consequências, como um
acompanhamento longitudinal ano a ano, de como essas vítimas refizeram suas
histórias. As crianças que estão vivendo essa guerra e aquelas que viveram
outras, por muitas vezes se veem sozinhas caminhando para nem sabem onde.
Crianças que ficam sem famílias, e precisam continuarem vivas, só elas sabem
como. Sozinhas!
As
notícias apresentam que essas crianças são direcionadas por adultos íntegros a
abrigos e serão cuidadas e encaminhadas a lugares seguros. Mas e aquelas que
são observadas e direcionadas por indivíduos que praticam tráfico de crianças?
E aquelas que tiveram a sorte de serem direcionadas a abrigos “seguros” e
convivem diariamente com a sensação de estarem sozinhas, sem a proteção dos
seus cuidadores, sem a companhia dos seus irmãos? E aqueles sons de tiros,
bombas e gritos, que devem ser ensurdecedores e permanecem em suas mentes.
Elisa
Leão - Psicóloga Clínica, doutora em psicologia, professora, escritora e
palestrante.
Nenhum comentário:
Postar um comentário