Tudo indica que 2021 não irá cumprir a expectativa de ser o ano da tão esperada retomada do crescimento. Os primeiros dados disponíveis sobre o comportamento da economia não são bons e analistas independentes estão falando em queda do PIB, não somente neste primeiro trimestre, em relação ao último trimestre do ano passado, mas, possivelmente, também do segundo trimestre face ao primeiro, o que compromete, irremediavelmente, um melhor desempenho para este ano, como um todo.
Considerando que o carregamento estatístico, de
2020, já garantia, mesmo sem crescimento real, um resultado ao redor de 3,6%
a.a., isto significa que se o PIB deste ano vier abaixo do piso das projeções
do mercado, que era de 3,5%, o Brasil terá mais um ano frustrado em
termos de crescimento econômico. O quadro é ainda mais preocupante porque o
país estará completando o sétimo ano sem crescimento acumulado, o que
significa, na prática, um empobrecimento progressivo dos brasileiros.
A continuidade da pandemia, a situação fiscal, o
elevado desemprego, o endividamento das famílias e das empresas..., podem ser
invocados para justificar este fraco desempenho, mas, no fundo, apenas
confirmam que o país não tem nenhum plano para a retomada do crescimento. Não
dá, pelo sétimo ano consecutivo, após termos avançado em leis e reformas
importantes como a trabalhista, a previdenciária, o marco do saneamento e
tantas outras, continuar culpando a falta de mais reformas por este resultado
medíocre.
Ainda que algumas destas reformas, como a
administrativa e, principalmente, a tributária sejam importantes, estes últimos
anos demonstraram que, embora necessárias, elas não são suficientes para
garantir o crescimento. Portanto, está mais do que na hora de abandonar crenças
fundamentalistas e ideologias e, de forma pragmática, passar a elaborar uma
estratégia de retomada do crescimento que utilize, além das forças do mercado,
o enorme poder do Estado reconfirmado, a nível mundial, pela crise de saúde
pública.
Esta estratégia passa por imunizar a grande maioria
da população, no menor prazo de tempo possível. Se tivermos vacinas, podemos
conseguir isto até o terceiro trimestre deste ano, evitando mais uma queda real
do PIB o que evitaria piorar a situação dos mais vinte milhões de desempregados
e desalentados e, pelo menos, outro tanto de brasileiros que vivem à margem da
sociedade, bem como o preocupante aumento da pobreza absoluta, o fechamento de
fábricas e o retrocesso na educação.
A par da vacinação, o governo deveria retomar os
investimentos públicos em infraestrutura, para criar empregos, até que o
crescimento da economia passe a cumprir este papel. A elevada dívida pública
não deve ser um impedimento absoluto para bloquear os investimentos públicos,
primeiro porque estamos falando de gastos anuais da ordem de 1,0 a 1,5% do PIB,
face a uma dívida de quase 90% do PIB e, segundo e mais importante, porque como
diz o FMI muito mais importante do que o valor do gasto público é sua
qualidade.
A imunização da população e a retomada dos gastos
públicos, ainda que nos termos modestos propostos, são os únicos motores
disponíveis para podermos voltar a crescer no curto prazo, inclusive em termos
de renda per capita, algo que não ocorre desde meados da década passada.
Entretanto, manter o crescimento, a médio e longo prazo, a taxas iguais ou
superiores ao crescimento mundial, condição necessária para reduzir nosso
distanciamento em relação aos países desenvolvidos e em desenvolvimento, exige
outras medidas.
Nossa estratégia de desenvolvimento precisa incluir
a forte redução das ineficiências sistémicas para assegurar um ambiente
macroeconômico favorável ao investimento produtivo, com câmbio competitivo,
inflação baixa e sob controle, financiamentos de longo prazo, e juros reais de
mercado inferiores à taxa de retorno da produção de bens e serviços. Um
ambiente de negócios amigável é outra pré-condição necessária, o que exige um
sistema tributário bem mais simples e menos distorcido, marcos regulatórios
adequados, segurança jurídica e forte redução das obrigações acessórias.
Tal ambiente implica, ainda, na disponibilidade de
energia a custos adequados, no estabelecimento de uma robusta rede de
comunicações de alta velocidade que interligue o país e seja acessível à grande
maioria da população brasileira, e em avanços substanciais e contínuos em nossa
logística. Isto irá eliminar dos custos de produção de bens e serviços
nacionais o peso do custo Brasil que, atualmente, reduz fortemente a
competitividade brasileira e deixa em desvantagem nossos produtos, tanto nas
exportações quanto no mercado interno.
Políticas públicas de desenvolvimento devem
permitir que o setor produtivo retome os investimentos tanto em máquinas
e equipamentos quanto em tecnologia, essenciais para garantir ganhos de
produtividade. A reconstrução da competitividade empresarial, o fortalecimento
das cadeias produtivas e a reversão do processo de desindustrialização deverão
contar com políticas para suportar os esforços empresariais com os programas de
digitalização, com o sensoriamento inteligente e a administração dos big data
resultantes, via I.A. e plataformas de integração.
Estas políticas públicas devem prever, ainda, forte
apoio à P&D, e inovação do setor privado, com recursos parcialmente a fundo
perdido, com a colocação de encomendas tecnológicas do setor público junto às
empresas e com o uso intensivo do poder de compra do Estado para direcionar o
desenvolvimento para as tecnologias emergentes e de retorno longo ou duvidoso,
bem como o aumento dos recursos públicos destinados à ciência e à pesquisa
básica e aplicada, principalmente nas áreas de saúde, biotecnologia, energia
renovável, novos matérias, baterias de alta eficiência, microeletrônica....
Finalmente, a educação de qualidade em todos os
níveis e, principalmente, a formação de uma massa crítica de recursos humanos,
bem qualificados, nas novas áreas do conhecimento é essencial para suportar
este esforço nacional de desenvolvimento, capaz de garantir um mínimo de
segurança industrial ao país o que, junto com a segurança alimentar, energética
e militar garantem a nossa soberania permitindo que o crescimento sustentado,
se dê na direção da melhoria da qualidade de vida da população brasileira e com
a democratização das condições de acesso às oportunidades para todos.
João Carlos Marchesan - administrador de empresas,
empresário e presidente do Conselho de Administração da ABIMAQ
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