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domingo, 27 de setembro de 2026

Efeito sanfona na era das canetas: o novo perfil de paciente que chega ao consultório médico

Ciclo de uso e abandono de medicamentos emagrecedores leva pacientes frustrados à cirurgia bariátrica como alternativa mais duradoura

 

O perfil de quem busca tratamento para obesidade mudou. Se antes os consultórios médicos recebiam pessoas que haviam tentado várias dietas sem sucesso, hoje a maioria já passou também por um ou dois ciclos de canetas emagrecedoras e teve reganho de peso, diz o cirurgião bariátrico César De Fazzio, diretor do ICD (Instituto de Cirurgia Digestiva), em Brasília. 

“Um ponto que me preocupa muito é a origem do que esses pacientes usaram. Boa parte usou por conta própria, com canetas que entraram no país de forma ilegal, compradas no mercado paralelo, por rede social ou aplicativo de mensagem”, completa o especialista. Ele ressalta, no entanto, que mesmo nos casos em que são utilizados medicamentos seguros e em que há acompanhamento adequado, o paciente pode retomar parte dos quilos perdidos. “O reganho é a regra, não a exceção”, afirma o médico. 

O fenômeno é documentado pela literatura científica. Na extensão do estudo STEP 1, publicado na revista Diabetes, Obesity and Metabolism, pacientes perderam em média 17,3% do peso em 68 semanas de semaglutida e, um ano após a suspensão, haviam recuperado dois terços de tudo que haviam perdido, terminando o período de acompanhamento apenas 5,6% abaixo do peso inicial. No SURMOUNT-4, publicado no JAMA em 2024, pacientes que interromperam a tirzepatida após perda média de 20,9% recuperaram 14% do peso em 52 semanas, e apenas 16,6% mantiveram pelo menos 80% do resultado obtido. 

A explicação para isso é fisiológica. De Fazzio esclarece que cada indivíduo possui um ponto de ajuste de peso — chamado de set point —, que o organismo tenta manter com mecanismos hormonais potentes. Quando a pessoa emagrece, o corpo aumenta os hormônios que estimulam a fome, reduz os que promovem saciedade e diminui o gasto energético em repouso. Os fármacos ajudam a regular isso enquanto são aplicados, mas não eliminam esse mecanismo. “No dia em que a caneta é suspensa, principalmente de forma abrupta, essa pressão toda aparece de uma vez e o corpo encontra o cenário mais favorável possível para recuperar o peso, com mais facilidade e mais rapidez do que ele levou para perder”, explica. 

Uma metanálise com dados de mais de 1.500 pacientes identificou que o reganho começa por volta de oito semanas após a suspensão e segue por cerca de 20 semanas até estabilizar. Uma revisão sistemática de 48 estudos concluiu que, um ano após a interrupção, 60% de todo o peso perdido já havia retornado, com projeção de estabilização em torno de 75%. E não é só o peso: pressão arterial, glicemia e perfil lipídico seguem o mesmo caminho da balança. 

As taxas de abandono do tratamento reforçam esse quadro. Dados da literatura apontam descontinuação em 46,5% dos pacientes com diabetes e 64,8% nos sem diabetes, principalmente por custo elevado e efeitos gastrointestinais como náusea, vômito, diarreia e, em casos mais sérios, pancreatite e formação de cálculos na vesícula.
 

Quando a cirurgia pode ser uma opção 

Para o paciente que chegou nesse ciclo de uso e abandono e tem indicação cirúrgica clara, a cirurgia bariátrica oferece um mecanismo de ação fundamentalmente distinto. Em vez de introduzir um hormônio sintético que imita a ação de dois sinalizadores do organismo, o procedimento reorganiza a anatomia do trato digestivo e estimula o próprio corpo a produzir seus hormônios em quantidade e ritmo adequados. 

“A medicação é um hormônio sintético aplicado de fora. A cirurgia não imita nada. Ela faz o próprio organismo do paciente voltar a se reequilibrar", resume De Fazzio. Na prática, ao alterar o trajeto e a velocidade com que o alimento percorre o intestino, o procedimento estimula células do intestino que estavam pouco ativadas, elevando os picos de hormônios de saciedade e reduzindo o hormônio da fome. Estudos avaliaram pacientes operados nove anos depois e ainda encontraram gasto energético elevado e resposta hormonal de saciedade aumentada, o que demonstra que a mudança é estrutural, não temporária. 

Há ainda uma diferença clínica que o médico faz questão de explicar no consultório: com as canetas, a melhora das comorbidades associadas à obesidade, como diabetes tipo 2 e hipertensão arterial, costuma ser consequência do emagrecimento. Com a cirurgia, o ganho começa antes. “O paciente diabético frequentemente sai do hospital já com queda importante da glicemia e redução ou suspensão de medicação, ainda nos primeiros dias, quando mal perdeu peso”, afirma. 

Apesar dos benefícios para o organismo, De Fazzio alerta que o procedimento cirúrgico é recomendado somente para casos específicos. “Nada disso significa que todo mundo deve operar. A cirurgia tem indicação precisa e exige avaliação criteriosa. O que eu combato é a ideia de que existe atalho. Obesidade é doença crônica e o tratamento, seja qual for, precisa ser de longo prazo e conduzido por quem entende do assunto”, finaliza.

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