| Parque Nacional do Itatiaia, no Rio de Janeiro: existem poucas áreas de Mata Atlântica contínua como esta unidade de conservação (foto: William Zaca) |
Pesquisa em 52 áreas do bioma mostra que a dispersão natural de novas plantas é impulsionada pela quantidade de floresta no entorno e pelo regime de chuvas
A dispersão de sementes por meio do vento, da água
ou de animais é um processo crucial para a renovação de florestas e a
preservação da biodiversidade. No caso da Mata Atlântica, um novo estudo
mostrou que a quantidade de floresta na paisagem ao redor de uma área e o
volume de chuvas são os principais fatores para garantir a riqueza e a
diversidade dessas sementes. Na prática, a pesquisa revelou que um pequeno
pedaço de mata que possui outras áreas verdes na vizinhança tem mais capacidade
de se regenerar do que um fragmento enorme, porém totalmente isolado no meio do
desmatamento.
Os autores avaliaram esse processo de dispersão –
conhecido como “chuva de sementes” – em 52 fragmentos de Mata Atlântica distribuídos
por toda a extensão do bioma, do Nordeste ao Sul do Brasil. Os resultados
foram publicados em
maio no Journal of Ecology.
Os fragmentos incluíam desde áreas pequenas, com
cerca de 4 hectares, até outras bastante extensas, com milhares de hectares
contínuos (um hectare tem 10 mil metros quadrados; aproximadamente a área de um
campo de futebol). O número de espécies de sementes – ou seja, a riqueza – aumentou
conforme cresciam a cobertura florestal e a precipitação, independentemente do
tamanho dos fragmentos.
“A cobertura florestal se mostrou uma métrica-chave
para avaliar a composição da paisagem, ou seja, a quantidade de hábitat. É ela
que mais influencia os parâmetros da chuva de sementes em florestas
tropicais”, explica Luís Felipe Daibes,
primeiro autor do estudo. A investigação foi realizada com apoio da FAPESP durante seu
pós-doutorado no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista
(IB-Unesp), em Rio Claro.
Segundo o pesquisador, ao compreender os padrões da
chuva de sementes na paisagem, é possível direcionar melhor as estratégias de
conservação, priorizando ecossistemas mais conectados. Além disso, os
resultados permitem melhorar a capacidade de prever como as comunidades de
espécies podem funcionar diante de cenários como a perda de biodiversidade e as
mudanças climáticas.
Áreas remanescentes
Atualmente, restam entre 23% e 24% da cobertura
original da Mata Atlântica, a maior parte dela distribuída em fragmentos
florestais pequenos e isolados entre si. O trabalho conseguiu mostrar que a
contribuição desses fragmentos para a biodiversidade é maior à medida que
aumenta a cobertura florestal em torno deles e a precipitação, não
necessariamente o tamanho do fragmento.
“O curioso é que áreas muito fragmentadas podem até
produzir uma quantidade maior de sementes. No entanto, essas paisagens tendem a
ser dominadas por algumas poucas espécies generalistas [altamente adaptáveis e
pouco exigentes] com muitas sementes pequenas”, conta Daibes, que realizou
parte do trabalho durante estágio com bolsa FAPESP na universidade Virginia
Tech, nos Estados Unidos, e atualmente é pesquisador do Jardim Botânico do Rio
de Janeiro.
O estudo contou também com apoio da FAPESP por meio
de um Projeto Temático. A Fundação concedeu ainda
uma série de auxílios a partir dos anos 2000 que permitiram a realização dos
trabalhos que produziram os dados necessários para o estudo.
As informações foram extraídas de diversos
trabalhos acadêmicos realizados entre 1987 e 2021, em diversos pontos do bioma,
numa colaboração que contou com mais de 60 autores de diferentes instituições.
O estudo compilou e analisou um banco de dados de
1.905 recipientes coletores de sementes em 52 fragmentos de Mata Atlântica. No
total, foram amostrados 1,3 milhão de sementes, com 1.029 grupos de plantas
identificados pelo menos quanto à família botânica a que pertencem.
Os coletores são como peneiras ou redes de malha
suspensas no chão da floresta ou amarradas em galhos, com diâmetro entre 20
centímetros e um metro, que acumulam folhas, frutos e sementes. Eles permitem
verificar a quantidade e a diversidade de espécies de sementes que são
dispersadas num determinado local.
![]() |
| Pesquisa compilou dados de coletores de sementes de 52 fragmentos de Mata Atlântica pelo Brasil (foto: Luis Felipe Daibes/Jardim Botânico do Rio de Janeiro) |
Por conta das dificuldades logísticas, estudos
desse tipo são geralmente realizados em apenas um local, normalmente por um
ano. Coletores de sementes são postos no chamado sub-bosque, abaixo da copa das
árvores, e a cada mês os pesquisadores coletam essas sementes e as identificam.
“Nunca havia sido feito um trabalho tomando toda a
dimensão do bioma, do Nordeste ao Sul do país. Isso dá bastante robustez aos
nossos resultados”, afirma o pesquisador.
Dispersão por animais
As sementes podem ser dispersadas por animais
(zoocóricas), pelo vento, rios ou simplesmente caindo no chão. Os pesquisadores
confirmaram que áreas com maior pluviosidade possuem mais sementes zoocóricas.
Estas são provenientes de árvores que produzem frutos suculentos que atraem
aves e mamíferos, que por sua vez podem dispersá-las longe da árvore-mãe,
inclusive para outros fragmentos de floresta.
Uma das consequências do desmatamento é justamente
a perda de espécies com sementes grandes, uma vez que animais de grande porte
que comem frutos são os primeiros a serem extintos localmente pela perda de
hábitat (leia mais em: agencia.fapesp.br/58565).
No estudo, verificou-se pela chuva de sementes que
fragmentos com baixa cobertura florestal, principalmente em locais mais secos,
tendem a ter a dominância de um conjunto limitado de espécies pioneiras.
“As espécies pioneiras, de crescimento rápido e que
não necessariamente dependem da fauna para se dispersar, são importantes na
regeneração da floresta, dando sombra para espécies de crescimento lento. No
entanto, apenas com elas não se constrói um ecossistema funcional”, destaca
Daibes.
Em muitas áreas, o histórico de desmatamento e fragmentação
alterou o padrão da chuva de sementes. Fragmentos dominados por poucas espécies
generalistas e cercados de monocultura, como a cana-de-açúcar, são comuns.
Esses trechos isolados não recebem sementes de outros fragmentos nem podem
fornecê-las, uma vez que não há para onde dispersá-las além da própria área.
“Se só for possível conservar um fragmento numa
área agrícola, é importante que a região tenha alguma cobertura florestal no
entorno. Se houver vários outros fragmentos num raio de cinco quilômetros com
mais de 60% de cobertura florestal, há mais chances de haver sementes trocadas
entre eles, mantendo a diversidade”, exemplifica o pesquisador.
Nesse contexto, completa, a escolha de áreas de
reserva legal nas propriedades rurais e áreas públicas de conservação poderia
priorizar trechos com maior cobertura florestal e que tenham áreas adjacentes
que possam se conectar entre si.
O artigo Landscape features predict
broad-scale seed rain patterns across fragments of the Brazilian Atlantic
Forest pode ser lido em: https://besjournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1365-2745.70328.
André Julião
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/conexao-entre-fragmentos-florestais-importa-mais-que-tamanho-na-restauracao-da-mata-atlantica/58839

Nenhum comentário:
Postar um comentário