O
pesquisador e especialista em avaliação acadêmica e gestão da educação
superior, Alexandre Nicolini, afirmou hoje em São Paulo que “embora os
resultados obtidos pelos estudantes em avaliações como o Enade, o Enamed e a
Prova Nacional Docente (PND) costumem provocar uma corrida das IES em busca de
explicações para notas abaixo do esperado, o foco da análise nem sempre está no
lugar certo”. Para Nicolini, “esses indicadores avaliam muito mais do que o
desempenho individual dos estudantes: eles refletem a qualidade da formação
construída ao longo de todo o curso a partir do modelo de gestão adotado por
muitas instituições”.
Segundo
Nicolini, quando um curso apresenta resultados insatisfatórios, a primeira
pergunta não deveria ser o que aconteceu com os alunos, mas como a instituição
conduziu o processo de formação. “O desempenho do estudante é consequência de
um conjunto de decisões acadêmicas tomadas durante toda a graduação",
afirma Nicolini.
O
pesquisador afirma que um dos erros mais comuns é acreditar que um bom curso
resulta apenas da soma de bons professores e de disciplinas bem planejadas.
"Um curso não é um conjunto de componentes curriculares independentes. Ele
precisa funcionar como um sistema. Se cada disciplina define seus próprios objetivos,
métodos e formas de avaliação sem articulação com as demais, ninguém consegue
garantir que as competências previstas para o egresso estejam sendo
desenvolvidas de forma consistente", explica.
Na
avaliação de Alexandre Nicolini, um dos principais fatores que compromete os
resultados é o modelo de gestão adotado por muitas instituições: “A coordenação
de curso frequentemente concentra esforços em atividades administrativas e
operacionais, deixando em segundo plano aquilo que realmente impacta a aprendizagem.
Gestão acadêmica não é controlar calendário, preencher relatórios ou organizar
reuniões. É coordenar decisões, acompanhar evidências, promover integração
entre docentes, monitorar o desenvolvimento das competências e agir rapidamente
quando os indicadores mostram que a formação não está produzindo os resultados
esperados", ressalta.
O
especialista também chama a atenção para a necessidade de transformar o Projeto
Pedagógico do Curso (PPC) em um instrumento vivo de gestão. "Muitas
instituições elaboram excelentes PPCs, mas eles acabam permanecendo como
documentos formais. O projeto pedagógico precisa orientar o planejamento das
disciplinas, as metodologias utilizadas em sala de aula, as avaliações e todas
as experiências de aprendizagem. Quando existe distância entre o que está
escrito e o que realmente acontece, essa diferença aparece nos resultados do
Enade e das demais avaliações nacionais."
Para Nicolini, melhorar os indicadores exige uma mudança de cultura dentro das instituições de ensino superior. “Os cursos que apresentam melhores resultados normalmente têm governança acadêmica, definição clara de responsabilidades, acompanhamento contínuo dos indicadores e integração entre todos os envolvidos no processo formativo. Não se trata de preparar o estudante apenas para uma prova. Trata-se de garantir uma formação consistente, alinhada ao perfil profissional que a sociedade espera", afirma.
O
especialista defende que os resultados do Enade, do Enamed e da PND devem ser
utilizados como instrumentos estratégicos para revisão da gestão dos cursos,
permitindo identificar fragilidades e promover melhorias contínuas. "Essas
avaliações oferecem um diagnóstico valioso. Quando interpretadas corretamente,
deixam de ser apenas indicadores de desempenho e passam a orientar decisões
capazes de elevar a qualidade da formação e, consequentemente, os resultados
dos estudantes", conclui.
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