Psicóloga explica por que essa pergunta está adoecendo mulheres
Embora pareça uma
pergunta comum, ela carrega uma armadilha que tem adoecido milhares de mulheres.
Para a psicóloga e neuropsicóloga Tattiana ASerra, o problema não está na
maternidade nem no trabalho, mas na crença de que uma mulher precisa abrir mão
de quem é para exercer um dos dois papéis.
"Quando perguntamos
a uma mulher se ela prefere ser mãe ou profissional, estamos partindo da ideia
de que essas identidades competem entre si. Na prática, essa lógica gera culpa
permanente, sensação de insuficiência e faz com que muitas mulheres sintam que
estão fracassando, independentemente da escolha que façam", explica a
especialista.
Segundo Tattiana, a
maternidade contemporânea vem sendo marcada por uma cobrança constante para que
a mulher seja uma mãe presente, uma profissional produtiva, uma companheira
disponível e ainda cuide da própria saúde física e mental. O resultado é uma
sobrecarga que vai muito além do cansaço físico.
"Existe uma
expectativa social de desempenho perfeito em todas as áreas da vida. É impossível
atender a todas essas demandas ao mesmo tempo sem pagar um preço
emocional."
Quando sobra apenas a
mãe
Para a psicóloga, um dos
efeitos mais silenciosos da maternidade é o desaparecimento gradual da
identidade feminina.
"Em muitos casos, a
mulher passa a ser reconhecida apenas como mãe. Seus interesses, sonhos,
amizades, hobbies e até sua carreira ficam em segundo plano. Aos poucos, ela
deixa de responder à pergunta 'Quem sou eu?' e passa a existir apenas em função
das necessidades dos filhos."
Esse processo pode
acontecer de forma quase imperceptível e contribuir para sintomas como ansiedade,
esgotamento emocional, baixa autoestima e dificuldade de reconhecer os próprios
desejos.
"Não é raro ouvir
mulheres dizendo que não sabem mais do que gostam, do que sentem prazer ou do
que fariam se tivessem algumas horas livres. Isso mostra o quanto a identidade
pode ficar restrita ao papel materno."
A culpa que nunca
termina
Outro fator que alimenta
esse sofrimento é a culpa materna.
Segundo Tattiana, independentemente
da decisão tomada, muitas mulheres sentem que estão errando. Se permanecem mais
tempo no trabalho, acreditam que estão negligenciando os filhos. Se priorizam a
família, sentem culpa pela carreira interrompida ou pelos projetos pessoais adiados.
"Essa culpa não
nasce da maternidade. Ela nasce das expectativas irreais que a sociedade construiu
sobre o que significa ser uma 'boa mãe'."
A especialista ressalta
que esse ciclo costuma ser reforçado pelas redes sociais, onde predominam
imagens idealizadas de famílias, carreiras e rotinas aparentemente perfeitas.
O caminho não é
escolher, mas integrar
Na avaliação da
psicóloga, a solução não está em abandonar um papel para viver o outro, mas em
integrar todas as identidades que fazem parte da vida de uma mulher.
"Ser mãe não
precisa apagar a profissional, assim como a profissional não diminui a mãe. Uma
identidade fortalece a outra. Quando a mulher preserva espaços para cuidar de
si, manter vínculos, desenvolver sua carreira e cultivar seus interesses, ela
também oferece aos filhos um exemplo mais saudável de equilíbrio e
autonomia."
Para Tattiana ASerra, é
preciso substituir a lógica da escolha pela da integração.
A pergunta não deveria ser 'mãe ou profissional?'.
A pergunta correta é: como podemos promover uma cultura de liberdade e
aceitação de que às mulheres não nasceram para ser desenhadas, mas sim para
desenhar sua própria identidade, sendo elas mães ou não.
Em um momento em que a ascensão feminina ocupa cada
vez mais espaço no debate público, compreender essa fragmentação da identidade
é um passo importante para promover a integração feminina, sem que tenha que
existir essa discussão.
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