Especialista explica os riscos do
"overtraining" tecnológico e ensina a equilibrar os dados do relógio
com a percepção do próprio corpo
Eles monitoram a frequência cardíaca, contam os passos, calculam o gasto calórico e até avaliam a qualidade do sono. Os relógios inteligentes (smartwatches) tornaram-se os novos "personal trainers" de pulso e são excelentes aliados para tirar pessoas do sedentarismo. No entanto, a busca incessante por bater metas diárias e "fechar os anéis" dos aplicativos está gerando um efeito colateral preocupante: a dependência dessas métricas tecnológicas está gerando ansiedade, frustração e até lesões físicas nos praticantes de atividade física.
De acordo com o Prof. Me. Estelino Pedroso, coordenador do curso de Educação Física do Centro Universitário Módulo, quando o usuário passa a depender exclusivamente das metas do dispositivo, a relação saudável com o exercício é comprometida.
"A ciência explica isso através da Teoria da Autodeterminação. A motivação mais duradoura para o exercício ocorre quando ela é sustentada por fatores intrínsecos, como o prazer, a satisfação pessoal e a promoção da saúde. Quando a prática passa a depender apenas de recompensas externas, como atingir metas de calorias ou acumular pontos no relógio, surgem sentimentos de culpa e ansiedade se esses objetivos não são alcançados", destaca o especialista.
Segundo
as diretrizes do American College of Sports Medicine (ACSM), as tecnologias
vestíveis devem ser utilizadas como ferramentas auxiliares, jamais substituindo
a avaliação profissional e a percepção individual do praticante.
O perigo do "overtraining" tecnológico
Embora os smartwatches forneçam dados fisiológicos importantes, seus algoritmos não são capazes de identificar sozinhos o estado completo de recuperação do organismo. Fatores como cansaço mental, estresse emocional, dores musculares e imunidade influenciam diretamente o rendimento e são ignorados pelos relógios.
O docente alerta que isso pode abrir portas para o overtraining (a síndrome do excesso de treinamento). "O relógio não provoca o overtraining diretamente, mas ele favorece esse comportamento disfuncional quando o usuário ignora dores ou sinais claros de fadiga extrema do próprio corpo apenas para cumprir a meta diária estipulada pelo dispositivo" explica Pedroso.
Para
evitar o desgaste, a recomendação científica é associar os dados do relógio à
chamada Percepção Subjetiva de Esforço (PSE), uma escala clássica que integra
as respostas musculares, cardiovasculares e respiratórias ao limite de cansaço
que o próprio indivíduo sente.
Como usar a tecnologia como aliada (sem pirar)
Para que o monitoramento tecnológico seja um parceiro do desempenho e não uma fonte de estresse, Pedroso elenca cinco recomendações práticas baseadas em evidências científicas:
- Monitore, não julgue: o
relógio serve para orientar o treino, mas não deve ser o "juiz"
do seu dia. Se o corpo pedir descanso, respeite, mesmo que a meta diária
não tenha sido batida.
- Escute mais o seu corpo:
estudos mostram que medidas subjetivas (como sensação de esforço, fadiga
acumulada e humor) são frequentemente mais sensíveis para detectar
alterações físicas do que os dados isolados do relógio.
- Respeite a recuperação: é
no período de descanso que o corpo se adapta ao treino e evolui. Ignorar o
repouso para somar pontos digitais aumenta drasticamente o risco de
lesões.
- Tenha metas individuais reais: a
prescrição do exercício deve considerar sua idade, rotina de trabalho e
nível de condicionamento, e não uma meta padrão pré-configurada no
aplicativo.
- Não tente compensar treinos perdidos: se faltou a um treino, evite acumular excesso de carga no dia seguinte para "compensar" as calorias no relógio. Isso sobrecarrega o organismo e gera fadiga acumulada.
"A
tecnologia é excelente para monitorar parâmetros, mas deve andar de mãos dadas
com a orientação de profissionais de Educação Física. Dessa forma, o relógio
deixa de ser uma fonte de cobrança e passa a contribuir efetivamente para uma
rotina ativa, sustentável e saudável", conclui o coordenador do Módulo.
Centro Universitário Módulo
www.modulo.edu.br
Nenhum comentário:
Postar um comentário