crédito - Rael Barja
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Após três meses de ingressos esgotados, a
encenação ‘site-specific’ de Rafael Gomes para a tragédia de Shakespeare
ganha um novo protagonista e prorroga seu enorme sucesso, transformando ruína
arquitetônica em dramaturgia.
Escrita entre 1599 e 1601 por William Shakespeare, Hamlet é
considerada a obra mais célebre da dramaturgia ocidental. A tragédia acompanha
o príncipe da Dinamarca confrontado com o assassinato do pai, a ascensão ao
trono de um tio usurpador e um mundo moralmente corrompido, no qual agir parece
tão impossível quanto não agir. Ao longo da peça, Shakespeare constrói um
retrato radical da dúvida, da crise de sentido e do conflito entre desejo,
poder e responsabilidade — temas que atravessam mais de quatro séculos de
história e seguem interpelando o presente.
Após uma primeira temporada de enorme repercussão, estrelada por
Gabriel Leone e vista por mais de 25 mil pessoas, o clássico estende sua
temporada na cena paulistana, reestreando com novo protagonista. A adaptação
inédita e contemporânea, com direção de Rafael Gomes e produção de
Rafael Rosi, inicia uma nova fase, reafirmando seu lugar como um dos
acontecimentos teatrais mais impactantes da cidade. E agora com Ícaro Silva
no papel título:
“Talvez eu tivesse pensado duas vezes sobre o desafio tremendo que
é ocupar o lugar de um ator brilhante como Gabriel Leone, em um elenco que há
meses arrebata o público, se não tivesse assistido à essa montagem tão especial
dirigida por Rafael Gomes. Mas como recusar esse convite, quando vi
pessoalmente o poder da peça sobre o público? É teatro da melhor qualidade, o
paraíso de qualquer ator. “
Parceiro de longa data do diretor em diversos outros trabalhos, incluindo quatro longas-metragens, Ícaro afirma:
“O privilégio maior é que esse me parece um momento ideal no tempo e no mundo para se aprofundar nas humanidades que Shakespeare desvela através da tragédia, especialmente em uma encenação como essa. Estou muito animado e não vejo a hora de ocupar o trono da Dinamarca.”
O espetáculo desloca o teatro para fora do teatro, ocupa o
canteiro de obras do Nu Cine Copan — desativado há décadas e atualmente em
reforma para ser devolvido à cidade como um cinema de última geração, previsto
para 2027 — e oferece ao público uma experiência site specific única,
transformando o próprio edifício, suspenso entre abandono e reconstrução, no
centro da dramaturgia.
Mais do que um cenário, a ruína arquitetônica torna-se linguagem.
Em vez da tradicional caixa preta, a montagem inverte a lógica do espaço: a
plateia, com cerca de 360 pessoas, ocupa a área onde antes ficavam a tela e o
palco do cinema, enquanto a ação se desenrola no antigo espaço da plateia,
criando um palco monumental. O público assiste à tragédia de Hamlet dentro de
um corpo arquitetônico marcado por camadas de memória urbana, uso e desgaste do
tempo.
“Hamlet fala de um mundo que ruiu, de estruturas que já não se
sustentam”, afirma Rafael Gomes. “Encenar a peça em um edifício em ruínas não é
um efeito estético, é uma tomada de posição. A ruína é o próprio estado do
drama.”
Um clássico em estado de crise
Na tragédia de Shakespeare, Hamlet é um jovem deslocado em um
mundo que já não reconhece. Incapaz de aderir plenamente às regras da corte e
igualmente incapaz de se retirar da ação, ele vive paralisado entre o desejo de
justiça e a impossibilidade de agir sem se corromper. Em Hamlet, sonhos que
virão, essa crise existencial encontra eco direto no espaço que abriga a
encenação: um edifício em suspensão, à espera de um novo destino.
A adaptação é assinada por Rafael Gomes e Bernardo Marinho e
propõe deslocamentos internos no texto, incluindo a reorganização de alguns
solilóquios e centrando o foco do drama no enigma do desejo e nas personagens
consumidas por impasses internos e pelo transbordamento de suas paixões. A
montagem parte da tradução de Aderbal Freire-Filho, Wagner Moura e Barbara
Harrington, conhecida por sua linguagem direta e contemporânea, aproximando o
texto do espectador de hoje.
Ícaro Silva como Hamlet
Reconhecido como um dos nomes mais consistentes de sua geração no
audiovisual e no teatro brasileiro, Ícaro Silva assume agora um dos personagens
mais emblemáticos da história do teatro.
Com trajetória consolidada na televisão, no streaming, no cinema e
nos palcos, Ícaro reúne forte presença cênica, reconhecimento de público e
credibilidade artística. Sua presença em Hamlet não representa apenas a
chegada de um nome de grande repercussão: trata-se de uma escolha artística que
amplia o alcance simbólico da obra, atualiza sua leitura e fortalece seu
diálogo com o Brasil de hoje.
Ao longo da carreira, Ícaro também se destacou por participar
ativamente de discussões sobre representatividade e diversidade no
entretenimento brasileiro, especialmente no que diz respeito ao protagonismo
negro e à ampliação de espaços na indústria cultural.
Um gesto urbano e cultural
Após a temporada de Hamlet, sonhos que virão, o Nu Cine
Copan entrará em obras e será devolvido à cidade em 2027 como um importante
equipamento cultural, abrigando um cinema de grandes dimensões com tecnologia
de última geração.
O espetáculo marca, assim, um momento histórico e limiar: a última
grande ocupação artística do espaço antes de sua transformação definitiva.
“Existe algo de muito potente em habitar esse lugar exatamente
agora, neste intervalo entre o que foi e o que ainda vai ser”, afirma Rafael
Gomes. “O espetáculo acontece nesse estado de passagem. São, também, os sonhos
que virão.”
HAMLET, SONHOS QUE VIRÃO
de William Shakespeare
Direção: Rafael Gomes
Adaptação: Bernardo Marinho e Rafael Gomes
Tradução: Aderbal Freire-Filho, Wagner Moura e Barbara Harrington
Elenco: Ícaro Silva, Susana Ribeiro, Eucir de Souza, Samya Pascotto, Fafá
Renó, Bruno Lourenço, Daniel Haidar, Felipe Frazão, Rael Barja, Davi Novaes,
Conrado Costa, Giovanna Barros e Lua Dahora
Cenografia: André Cortez
Iluminação: Wagner Antônio
Figurino: Alexandre Herchcovitch
Visagismo: Pamela Franco
Trilha Sonora: Antonio Pinto e Barulhista
Design de Som: Gabriel D’Angelo e Fernando Wada
Design Gráfico: Izabel Menezes
Diretor Residente: Victor Mendes
Direção de Movimento e Coreografia: Fabrício Licursi
Diretor de Produção: Rafael Rosi
Coordenação de Produção: Luciana Fávero
Produtor Executivo: Diogo Pasquim
Realização: Art’n Company, Substância Filmes
e Viva do Brasil
Sinopse:
Após a morte do rei da Dinamarca, o príncipe Hamlet vê seu tio
assumir o trono e casar-se com sua mãe. Suspeitando das circunstâncias da morte
do pai, Hamlet decide fingir loucura para investigar a verdade e testar os
limites do poder, das paixões humanas e da própria razão.
Local: Nu Cine Copan
(Av. Ipiranga, 200 – Centro – São Paulo/SP)
Entrada pela Galeria do Copan
Quando: até 14 de junho
Quintas e sextas às 20h30
Sábados às 16h e 20h
Domingos às 17h
Ingressos: à venda no site https://nucinecopan.byinti.com/ e na
bilheteria do Teatro Renault
Duração: 130 min, sem intervalo
Capacidade: 360 lugares
Classificação indicativa: 14 anos

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