Especialistas defendem que
identificar sinais nos primeiros anos é decisivo para o desenvolvimento de
crianças com TEA, TDAH, TOD e altas habilidades
O
avanço do debate sobre saúde mental e desenvolvimento infantil tem levado a um
aumento expressivo no número de diagnósticos relacionados ao neurodesenvolvimento.
Mais do que uma questão de prevalência, especialistas apontam que o fator
determinante por trás dessa mudança é o maior acesso à informação e a ampliação
do olhar clínico sobre comportamentos que antes eram negligenciados.
Com
isso, a intervenção precoce tem se consolidado como um dos principais pilares
para melhorar prognósticos e ampliar a autonomia de crianças e adolescentes ao
longo da vida.
“Quando
a gente fala de desenvolvimento infantil, tempo é variável crítica. Não é só
sobre diagnóstico, é sobre o que se faz com ele e quando se começa”, afirma
Marcela Oliveira, especialista em neuroreabilitação infantil.
Dados
recentes do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), divulgados em
2023, indicam que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) já atinge 1 em cada 31
crianças de 8 anos nos Estados Unidos. No Brasil, o Ministério da Saúde estima
que o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) esteja presente
em cerca de 5% a 8% das crianças em idade escolar, além de uma crescente identificação
de quadros como o Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD) e altas habilidades.
“O
que a gente observa hoje não é apenas um aumento de casos, mas uma melhora na
capacidade de identificar sinais mais cedo. Ainda assim, muitas crianças chegam
para avaliação tardiamente, e esse tempo faz diferença real no
desenvolvimento”, afirma Marcela Oliveira, especialista em
neuroreabilitação infantil e fundadora da Clínica Follow Kids,
clínica especializada que já acompanhou mais de 6 mil crianças e adolescentes
em diferentes perfis de desenvolvimento.
A
especialista explica que, embora distintos, esses quadros compartilham um ponto
em comum: todos exigem um olhar individualizado e intervenção direcionada desde
cedo.
“O
desenvolvimento infantil não segue uma única linha. Cada criança tem um perfil
neurológico, sensorial e comportamental próprio. Quando você entende isso cedo,
consegue intervir de forma muito mais assertiva”, explica Marcela.
Diagnósticos diferentes, caminhos únicos
No
caso do TEA, por exemplo, os níveis de suporte variam de acordo com a
intensidade das necessidades da criança, podendo ir de quadros leves, com maior
autonomia, até casos mais complexos, que demandam suporte intensivo. Já no
TDAH, as manifestações podem incluir desatenção, impulsividade e
hiperatividade, impactando diretamente o desempenho escolar e as relações
sociais.
O
TOD, por sua vez, é caracterizado por padrões persistentes de comportamento
desafiador, opositor e, muitas vezes, agressivo, exigindo não apenas
intervenção clínica, mas também orientação familiar estruturada.
Em
outro extremo, crianças com altas habilidades ou superdotação frequentemente
enfrentam desafios menos visíveis, como desmotivação, isolamento social ou
dificuldades de adaptação ao ambiente escolar tradicional.
“Existe
uma tendência de olhar apenas para o déficit ou apenas para o talento, quando,
na prática, o desenvolvimento é sempre multifatorial. Uma criança pode ter uma
habilidade muito acima da média e, ao mesmo tempo, dificuldades importantes em
outras áreas”, pontua.
O papel da intervenção precoce no desenvolvimento
Estudos
publicados pelo National Institute of Child Health and Human Development
indicam que intervenções iniciadas antes dos 5 anos têm impacto significativo
no desenvolvimento cognitivo, social e comunicativo, especialmente em crianças
com TEA.
Mas
os benefícios não se restringem a um único diagnóstico.
“No
TDAH, por exemplo, a intervenção precoce ajuda a estruturar funções executivas,
organização e controle inibitório. No TOD, permite trabalhar comportamento e
regulação emocional antes que esses padrões se cristalizem. Em crianças com altas
habilidades, evita o tédio crônico e o desengajamento escolar”, explica
Marcela.
Segundo
ela, o erro mais comum ainda é esperar. “Muitas famílias escutam que cada
criança tem seu tempo e acabam adiando uma avaliação. Em alguns casos, esse
atraso custa anos de desenvolvimento que poderiam ter sido potencializados.”
Muito além da criança: impacto na família e na escola
A
intervenção precoce também transforma a dinâmica familiar. O diagnóstico,
muitas vezes, chega acompanhado de insegurança e desconhecimento, o que pode
gerar atrasos no início do tratamento.
“Quando
a família entende o que está acontecendo, ela passa a ser parte ativa do
processo. Não é só a criança que evolui, é todo o entorno”, afirma.
No
ambiente escolar, o impacto também é direto. A presença de mediadores,
adaptações pedagógicas e planos individualizados são ferramentas importantes,
mas ainda representam um desafio estrutural para muitas instituições.
“A
inclusão não é só colocar a criança na sala. É garantir que ela tenha condições
reais de aprender e se desenvolver ali dentro”, diz.
Especialização e personalização como caminho
Para
especialistas, o avanço no diagnóstico precisa vir acompanhado de qualificação
técnica e abordagem multidisciplinar. O tratamento envolve diferentes áreas,
como terapia ocupacional, fonoaudiologia, psicologia, psicopedagogia e
acompanhamento médico.
“Não
existe protocolo único. Existe leitura clínica, ajuste constante e
acompanhamento próximo. Cada plano terapêutico precisa fazer sentido para
aquela criança específica”, reforça Marcela.
Ela
destaca que, na prática, muitos atendimentos começam antes mesmo da chegada à
clínica. “Somos frequentemente acionados por hospitais e outros profissionais
para avaliar crianças em contextos complexos, inclusive em pós-operatórios ou
condições raras. Isso mostra o quanto o olhar para o desenvolvimento precisa
começar o quanto antes, independentemente do ambiente.”
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