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sábado, 16 de maio de 2026

Ser mãe e profissional: o equilíbrio que não é perfeito, mas é possível

 

Lembro com clareza de uma manhã em que estava em uma reunião importante, com a bebê no colo e a câmera desligada. Eu tentava soar presente, objetiva, no controle, mas, na realidade, não tinha dormido três horas seguidas. Naquele momento, senti algo que muitas mulheres vivem, mas poucas conseguem colocar em palavras: a solidão de sustentar múltiplas identidades ao mesmo tempo, sem que isso seja, de fato, reconhecido.

 

Eu estava em home office. Mas, muitas das mulheres que lidero vivem essa mesma pressão dentro de uma operação, com headset, metas rodando no monitor e, muitas vezes, sem a rede de apoio que eu tenho.

Sou psicóloga, Diretora de RH em uma empresa global e atleta desde os cinco anos de idade, a natação sempre fez parte de quem eu sou. Também sou mãe de duas filhas. A mais velha tem sete anos, a mais nova acabou de completar um ano. E, sem hesitar, posso dizer: a maternidade foi a experiência mais transformadora da minha vida. Principalmente a primeira.

 

“A maternidade não pede licença. Ela entra na sua rotina, atravessa sua agenda e redefine quem você é”.

 

Minha primeira gestação foi marcada por descobertas, mas, também, por bastante solidão. Sem uma rede de suporte estruturada, ficou claro para mim algo incômodo: o mercado de trabalho ainda não sabe lidar bem com mulheres que se tornam mães.

 

Muito menos com aquelas que retornam do puerpério ainda em reconstrução (física, emocional e identitária). Porque não se trata de fraqueza. É biologia. É emoção. É uma reorganização completa da vida.E, por muito tempo, o mundo corporativo tratou isso como um desvio, ou como algo a ser rapidamente “corrigido” para que a mulher volte a performar como antes. Como se maternidade fosse uma pausa. Não é.

 

Hoje, na posição que ocupo, tenho clareza sobre a responsabilidade que carrego: fazer diferente. E também a consciência de que não é possível dar conta de tudo o tempo todo. O que existe, na prática, é um exercício constante de escolher prioridades, ajustar expectativas e seguir com equilíbrio possível.

 

Tenho o privilégio de estar em uma empresa que entende que apoiar mães não é um gesto de empatia, é uma decisão estratégica. Por lá, estruturamos o Programa Maternar com esse princípio. Porque licença-maternidade, isoladamente, não resolve. Acompanhamos a gestante ao longo de toda a jornada, com apoio do ambulatório, orientação e, principalmente, escuta. Porque uma mulher grávida não é um risco a ser gerenciado. É uma profissional que precisa de suporte para continuar contribuindo com consistência.

 

Se a gestação começa a ganhar espaço nas empresas, o puerpério ainda é, muitas vezes, negligenciado — e esse costuma ser o momento mais sensível. Uma mulher que retorna ao trabalho após o parto não está “de volta ao normal”. Ela está lidando com exaustão, adaptação emocional, mudanças hormonais e uma nova dinâmica de vida.

 

Por isso, estruturamos ações específicas para esse período: apoio social, conteúdos direcionados e espaços seguros de troca. As rodas de conversa, por exemplo, têm um impacto que vai além de qualquer política formal. Existe algo muito potente em perceber que você não está sozinha. Que não é falha individual, é contexto.

 

E, no retorno ao trabalho, especialmente durante a amamentação, o que essa mulher precisa não é de resiliência heroica. É de estrutura. Nossas salas de lactação existem por isso: para garantir dignidade e viabilizar a continuidade da amamentação mesmo em uma rotina profissional exigente. Não é detalhe. É o que diferencia suporte real de discurso.

 

O esporte sempre foi meu ponto de equilíbrio. Treino cedo, no intervalo do dia ou no fim da jornada. Nado, faço musculação, pedalo e, mais recentemente, comecei a correr. Me fortalece e me organiza. Me dá clareza. E foi também por meio dele que entendi algo importante sobre conciliação.

 

Conciliar não é equilibrar tudo perfeitamente, mas, sim priorizar com consciência. É aceitar que, em alguns dias, o treino vai esperar. Em outros, o trabalho espera. É construir uma rotina possível, não ideal.

 

Com duas filhas, aprendi que não existe uma única forma de viver a maternidade. A primeira foi mais dura. A segunda, mais consciente. Mas, em ambas, o que fez diferença foi ter uma rede de pessoas, de políticas e de cultura. Uma rede que não me obrigou a escolher entre ser uma boa mãe ou uma boa profissional. Porque essa escolha não deveria existir.

 

“A maternidade não reduz o potencial de uma mulher. Ela amplia.” É nisso que acreditamos, na prática. Todos os programas que estruturamos são gratuitos para nossas colaboradoras. Não por benevolência, mas porque entendemos que reter talentos femininos é uma decisão de negócio. E porque uma empresa que cuida das suas pessoas constrói um nível de comprometimento que não se impõe, mas se conquista.

 

Se você está vivendo essa fase, equilibrando filhos, carreira, cansaço e cobrança, saiba: não é exagero. É real. É exigente. E não precisa ser solitário. E, se você é líder, gestor ou tomador de decisão, fica um convite simples: pergunte às mães da sua equipe o que elas precisam. E, dessa vez, escute de verdade. 

 

Adriana Wells - formada em Psicologia, Diretora de Recursos Humanos da Foundever, e atleta com mais de três décadas de dedicação à natação. Atua há anos na interseção entre people management, saúde organizacional e cultura inclusiva.


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