Lembro com clareza de uma
manhã em que estava em uma reunião importante, com a bebê no colo e a câmera
desligada. Eu tentava soar presente, objetiva, no controle, mas, na realidade,
não tinha dormido três horas seguidas. Naquele momento, senti algo que muitas
mulheres vivem, mas poucas conseguem colocar em palavras: a solidão de
sustentar múltiplas identidades ao mesmo tempo, sem que isso seja, de fato, reconhecido.
Eu estava em home office. Mas,
muitas das mulheres que lidero vivem essa mesma pressão dentro de uma operação,
com headset, metas rodando no monitor e, muitas vezes, sem a rede de apoio que
eu tenho.
Sou psicóloga, Diretora de RH
em uma empresa global e atleta desde os cinco anos de idade, a natação sempre
fez parte de quem eu sou. Também sou mãe de duas filhas. A mais velha tem sete
anos, a mais nova acabou de completar um ano. E, sem hesitar, posso dizer:
a maternidade foi a experiência mais transformadora da minha vida.
Principalmente a primeira.
“A maternidade não
pede licença. Ela entra na sua rotina, atravessa sua agenda e redefine quem
você é”.
Minha primeira gestação foi
marcada por descobertas, mas, também, por bastante solidão. Sem uma rede de
suporte estruturada, ficou claro para mim algo incômodo: o mercado de trabalho
ainda não sabe lidar bem com mulheres que se tornam mães.
Muito menos com aquelas que
retornam do puerpério ainda em reconstrução (física, emocional e identitária). Porque
não se trata de fraqueza. É biologia. É emoção. É uma reorganização completa da
vida.E, por muito tempo, o mundo corporativo tratou isso como um desvio, ou
como algo a ser rapidamente “corrigido” para que a mulher volte a performar
como antes. Como se maternidade fosse uma pausa. Não é.
Hoje, na posição que ocupo,
tenho clareza sobre a responsabilidade que carrego: fazer diferente. E também a
consciência de que não é possível dar conta de tudo o tempo todo. O que existe,
na prática, é um exercício constante de escolher prioridades, ajustar
expectativas e seguir com equilíbrio possível.
Tenho o privilégio de estar em
uma empresa que entende que apoiar mães não é um gesto de empatia, é uma
decisão estratégica. Por lá, estruturamos o Programa Maternar com esse
princípio. Porque licença-maternidade, isoladamente, não resolve. Acompanhamos
a gestante ao longo de toda a jornada, com apoio do ambulatório, orientação e,
principalmente, escuta. Porque uma mulher grávida não é um risco a ser
gerenciado. É uma profissional que precisa de suporte para continuar
contribuindo com consistência.
Se a gestação começa a ganhar
espaço nas empresas, o puerpério ainda é, muitas vezes, negligenciado — e esse
costuma ser o momento mais sensível. Uma mulher que retorna ao trabalho após o
parto não está “de volta ao normal”. Ela está lidando com exaustão, adaptação
emocional, mudanças hormonais e uma nova dinâmica de vida.
Por isso, estruturamos ações
específicas para esse período: apoio social, conteúdos direcionados e espaços
seguros de troca. As rodas de conversa, por exemplo, têm um impacto que vai além
de qualquer política formal. Existe algo muito potente em perceber que você não
está sozinha. Que não é falha individual, é contexto.
E, no retorno ao trabalho,
especialmente durante a amamentação, o que essa mulher precisa não é de
resiliência heroica. É de estrutura. Nossas salas de lactação existem por isso:
para garantir dignidade e viabilizar a continuidade da amamentação mesmo em uma
rotina profissional exigente. Não é detalhe. É o que diferencia suporte real de
discurso.
O esporte sempre foi meu ponto
de equilíbrio. Treino cedo, no intervalo do dia ou no fim da jornada. Nado,
faço musculação, pedalo e, mais recentemente, comecei a correr. Me fortalece e
me organiza. Me dá clareza. E foi também por meio dele que entendi algo
importante sobre conciliação.
Conciliar não é equilibrar
tudo perfeitamente, mas, sim priorizar com consciência. É aceitar que, em
alguns dias, o treino vai esperar. Em outros, o trabalho espera. É construir
uma rotina possível, não ideal.
Com duas filhas, aprendi que
não existe uma única forma de viver a maternidade. A primeira foi mais dura. A
segunda, mais consciente. Mas, em ambas, o que fez diferença foi ter uma
rede de pessoas, de políticas e de cultura. Uma rede que não me obrigou a
escolher entre ser uma boa mãe ou uma boa profissional. Porque essa escolha não
deveria existir.
“A maternidade não reduz o
potencial de uma mulher. Ela amplia.” É nisso que acreditamos, na prática.
Todos os programas que estruturamos são gratuitos para nossas colaboradoras.
Não por benevolência, mas porque entendemos que reter talentos femininos é uma
decisão de negócio. E porque uma empresa que cuida das suas pessoas constrói um
nível de comprometimento que não se impõe, mas se conquista.
Se você está vivendo essa fase, equilibrando filhos, carreira, cansaço e cobrança, saiba: não é exagero. É real. É exigente. E não precisa ser solitário. E, se você é líder, gestor ou tomador de decisão, fica um convite simples: pergunte às mães da sua equipe o que elas precisam. E, dessa vez, escute de verdade.
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