Cirurgião oncológico alerta: a escolha do centro e da equipe
pode representar a diferença entre um tratamento potencialmente curativo e uma
cirurgia incompleta
A carcinomatose peritoneal é uma condição
caracterizada pela disseminação de tumores pela cavidade abdominal. A cirurgia
para tratamento da carcinomatose peritoneal é de alta complexidade, comparada a
um transplante de órgão. Por este motivo, depende de uma série de fatores,
incluindo a experiência da equipe e a infraestrutura do centro onde a cirurgia
será realizada.
"A cirurgia citorredutora não é uma
cirurgia comum. Estamos falando de um procedimento extremamente complexo,
muitas vezes longo, envolvendo múltiplos órgãos, grandes ressecções,
reconstruções intestinais e decisões intraoperatórias altamente
especializadas", afirma o Dr. Arnaldo Urbano Ruiz, cirurgião geral e
oncológico, coordenador do Centro de Doenças Peritoneais da BP – A Beneficência
Portuguesa de São Paulo.
Estudos internacionais, como o publicado
pelo Dr. Shigeki Kusamura no Annals of Surgery,
demonstram que a cirurgia citorredutora associada à HIPEC, que é a aplicação de quimioterapia hipertérmica diretamente na
cavidade abdominal, possui uma das curvas de aprendizado mais longas e
complexas da oncologia cirúrgica. Os dados mostram que os resultados melhoram
progressivamente com o volume de casos. Entre 40 e 70 procedimentos, observa-se
melhora inicial da segurança cirúrgica; entre 80 e 100, aprimoram-se os
resultados oncológicos; e somente a partir de 140 a 150 casos o cirurgião
atinge verdadeira proficiência, com menores complicações e maiores taxas de
citorredução completa.
"Quando o paciente é operado em
centros sem experiência ou por equipes com baixo volume de casos, aumenta
significativamente o risco de cirurgia incompleta, complicações graves,
necessidade de novas operações e progressão precoce da doença. Em muitos casos,
uma primeira cirurgia inadequada pode comprometer definitivamente as chances
futuras do paciente", alerta o Dr. Arnaldo.
A complexidade desse tratamento vai além
da sala de operação. O cuidado adequado exige integração entre diversas
especialidades, como a cirurgia oncológica, anestesia, UTI, enfermagem especializada,
oncologia clínica, nutrição e suporte intensivo pós-operatório.
"A cirurgia citorredutora associada à
HIPEC não depende apenas do cirurgião. Depende de uma equipe altamente
especializada e de um centro preparado para oferecer toda essa estrutura",
reforça o especialista.
A experiência da equipe influencia
diretamente variáveis críticas do tratamento, como a chance de retirada
completa da doença, o risco de complicações graves, o tempo de internação, a mortalidade
cirúrgica e, sobretudo, a sobrevida do paciente.
"Carcinomatose
Peritoneal não deve ser tratada como uma cirurgia oncológica convencional.
Trata-se de uma subespecialidade altamente complexa, cujo resultado depende
diretamente da expertise da equipe envolvida. Na prática, experiência salva
vidas", conclui o Dr. Arnaldo.
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