Inclusão do
sequenciamento genético de nova geração é visto como um momento histórico e
resulta de ações da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), com o apoio de
importantes entidades médicas, sociais e da população brasileira
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O SUS (Sistema Único de Saúde) passa a oferecer
teste genético para identificar genes selecionados associados ao risco
hereditário de câncer de mama. A medida consta de portaria publicada ontem
(13/05) no Diário Oficial da União (DOU). A inclusão do Sequenciamento de
Nova Geração (NGS, na sigla em inglês) para os genes BRCA1
e BRCA2
é resultado de uma solicitação da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) à
Conitec, comissão responsável por avaliar a incorporação de novos medicamentos,
equipamentos, protocolos de diagnósticos e de tratamentos no SUS. “Este é um
momento histórico para a população atendida pela rede pública de saúde e de
celebração por parte da comunidade médica brasileira”, afirma Guilherme Novita,
presidente da SBM.
A solicitação à Conitec, que culminou com a
inclusão do teste genético no SUS, foi baseada em estudo científico de
avaliação econômica e impacto orçamentário liderado pelos mastologistas
Henrique Lima Couto, presidente da SBM-Regional Minas Gerais, e Rosemar Rahal,
membro do Departamento de Saúde Pública da SBM. Na elaboração do dossiê
participaram também os fármaco-economistas Ludmila Perez Gargano e Fernando
Zanghelini.
As mutações genéticas nos genes BRCA1 e
BRCA2
alcançaram grande visibilidade nos noticiários de todo o mundo após uma
entrevista de Angelina Jolie ao The New York Times. Em 2013, a atriz
declarou ter feito uma mastectomia redutora de risco com reconstrução bilateral
após a detecção de mutação genética no gene BRCA1, que representa um risco elevado
para o desenvolvimento de câncer de mama.
Presidente do Departamento de Oncogenética da SBM,
a mastologista Alessandra Borba afirma que pessoas com mutação nos genes BRCA1 e
BRCA2
têm mais chances de desenvolver vários tipos de câncer, como mama e ovário,
entre outros. A mutação no gene BRCA representa um risco de 60-80% para
câncer de mama e 20-40% para o de ovário. “Há mais de dez anos, o acesso ao
teste genético existe nos planos de saúde, mas ainda não é plenamente
disponibilizado na rede pública”, ressalta. Em clínicas particulares, o exame
custa de R$ 1.000 a R$ 3.000 e em geral inclui o sequenciamento de outras
dezenas de genes, os chamados painéis multigênicos.
A partir da identificação da mutação genética,
medidas redutoras de risco, como mastectomia e salpingo-ooforectomia (retirada
das trompas e dos ovários), indicam importante impacto em redução do
desenvolvimento da doença, aumentando também as chances de algumas pacientes
portadoras de mutação estarem vivas e reduzindo custos de novos tratamento
evitáveis.
Segundo a portaria publicada no DOU,
o Sistema Único de Saúde tem até 180 dias para começar a ofertar o
sequenciamento. Antes da incorporação do exame pelo SUS, apenas alguns estados brasileiros
possuíam leis locais para incorporar na rede pública o teste genético e a linha
de cuidado para mulheres com câncer de mama hereditário, como é o caso de Goiás
com o projeto Goiás Todo Rosa, liderado pela mastologista Rosemar Rahal.
O mastologista Henrique Lima Couto destaca a
atuação da SBM no processo para estender a realização do exame em todo o
território nacional. “É o cumprimento do papel da entidade de representar as
pacientes, produzir conhecimento e participar ativamente da formulação de
políticas na rede pública de saúde, que assiste atualmente cerca de 80% da
população brasileira”, completa.
A incorporação da testagem NSG no SUS, segundo Lima
Couto e Alessandra Borba, deve ser realizada de forma escalonada. “A inclusão
do teste, com custos e impactos orçamentários definidos para uma população-alvo
inicialmente restrita é o primeiro passo”, afirmam. “O que se espera nesse
processo é uma ampliação progressiva e economicamente segura de testagem que
vai permitir a construção gradual de uma linha de cuidados integral.”
A mastologista Alessandra Borba destaca a importância
de iniciar a linha de cuidado neste momento com os genes BRCA1
e BRCA2
tanto para câncer de mama como para câncer de ovário, o qual teve medicação de
alto custo aprovada vinculada à testagem genética, e ainda não implementada. A
mastologista ressalta ainda a importância da incorporação da análise do gene TP53,
também associado a câncer de mama hereditário, assim como outros cânceres, como
parte de um processo contínuo de expansão dessa linha de cuidado devido a uma
mutação fundadora nas regiões Sul e Sudeste do país. Na segunda fase de
expansão, enfatiza, também é crítico olhar para testagem de familiares e
prevenção real de câncer com estratégias redutoras de risco. Para isso,
aconselhamento genético, acesso a exames como ressonância e também a cirurgias
redutoras de risco com reconstrução são fundamentais para ampliar a
custo-efetividade, reduzir a incidência de câncer, aumentar conhecimento
genético da população, entre outros benefícios.
A jornada que culminou com incorporação do teste
pelo SUS foi iniciada na gestão anterior da entidade, sob a presidência do
mastologista Tuffi Hassan. Conduzida pelo atual presidente da SBM, Guilherme
Novita, a estratégia contou com contribuições dos mastologistas João Henrique e
Alessandra Borba, do Departamento de Oncogenética, de Carlos Ruiz, do
Departamento de Saúde Pública, de Annamaria Massaud Rodrigues dos Santos, do
Departamento de Acesso e Direito dos Pacientes da SBM e de Daniel de Araújo
Brito Buttros à frente do Departamento de Comunicação. A Sociedade Brasileira
de Mastologia destaca ainda o apoio de importantes sociedades médicas, como a
Associação Médica do Brasil, o Conselho Federal de Medicina e da sociedade
civil organizada, em especial a FEMAMA, presidida pela médica Maira Caleffi, e
de pessoas físicas que participaram da Consulta Pública da Conitec. A
participação de pacientes, familiares e mastologistas foi decisiva.
“A SBM considera que a inclusão do teste genético
no SUS é apenas o início da caminhada. São necessárias ainda muitas ações, que estamos
dispostos a encampar como entidade médica, visando à democratização do
tratamento do câncer de mama no Brasil”, conclui Guilherme Novita.
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