Além de cólica intensa, doença pode causar dor na
relação sexual, alterações intestinais, sintomas urinários e dificuldade para
engravidar
Uma pesquisa Ipsos publicada em maio mostrou que 4 em cada 10 brasileiras não conhecem detalhes sobre a endometriose e 77% das pacientes diagnosticadas já tiveram sintomas minimizados ou desconsiderados. No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, a endometriose afeta de 5% a 10% das pessoas com útero em idade reprodutiva, com tempo médio para diagnóstico de 3 a 8 anos. O ginecologista Claudio Severino Jr, do Hospital Samaritano Higienópolis, da Rede Américas, explica os principais sinais, impactos da normalização da dor e os avanços terapêuticos que podem contribuir para um cuidado mais adequado às pacientes.
Quais sintomas costumam ser ignorados por médicos e pacientes, mas
deveriam ser melhor investigados?
Sem dúvidas, a cólica menstrual intensa e a dor durante a relação sexual devem
ser investigadas. Não é normal, nem frescura, sentir dor nessas situações. Muitas
vezes, por medo ou por preconceitos ainda presentes na sociedade, esses
desconfortos acabam sendo silenciados. A mulher pode acreditar que será julgada
como preguiçosa por faltar ou render menos no trabalho, na academia ou na
escola.
A cólica deve ser sempre investigada, de preferência por profissionais
capacitados ou em centros de excelência. Isso também vale para casos de dor na
relação sexual: a mulher precisa ser ouvida. Na endometriose, a investigação e
o tratamento envolvem uma abordagem multidisciplinar. O médico lidera esse
cuidado e, de acordo com a necessidade de cada paciente, pode conduzir o
tratamento em conjunto com nutricionista, fisioterapeuta pélvico ou
ginecológico, psicólogo, grupo da dor e até profissionais de atividade física.
Além da cólica menstrual e da dor na relação sexual, quais outras dores
e sintomas podem indicar a evolução da doença?
Embora muito citada, a dificuldade de engravidar nem sempre é o primeiro sinal
da doença, já que a dor menstrual costuma ser a manifestação mais frequente e
inicial. No entanto, muitas vezes a endometriose acaba sendo identificada
somente quando a paciente tenta engravidar sem sucesso. Por isso, durante a
investigação de casais tentantes, é importante avaliar doenças que possam
interferir na fertilidade, e a endometriose está entre as principais condições
que devem ser consideradas.
Desconfortos intestinais e urinários podem estar ligados à condição?
Sim, alterações no hábito intestinal durante o ciclo menstrual são muito
frequentes na endometriose. Elas podem se manifestar como constipação
intestinal, prisão de ventre ou diarreia, e um dos principais diferenciais da
doença é justamente o caráter cíclico desses sintomas. Fora do período menstrual,
o hábito intestinal e a consistência das fezes costumam permanecer estáveis.
Outro sintoma comum durante a menstruação que pode indicar a doença é a
sensação de peso no reto, um incômodo na região pélvica, como se a evacuação
não tivesse sido completa. Esse desconforto merece investigação e pode indicar
casos de endometriose profunda. A doença também pode provocar alterações
urinárias como ardência ou dor persistente ao urinar, muitas vezes confundida
com cistite de repetição, além de hematúria, que é a presença de sangue na
urina. Esses sinais devem ser investigados, especialmente quando ocorrem
durante o ciclo menstrual.
Endometriose tem cura?
A endometriose é uma doença crônica cujo tratamento tem como objetivo controlar
os sintomas, evitar a progressão e melhorar a qualidade de vida da paciente por
meio de uma abordagem individualizada e multidisciplinar. Embora o tratamento
clínico não seja capaz de eliminar completamente a condição, ele é capaz de
estabilizá-la e devolver funcionalidade à rotina da paciente.
O tratamento inicial costuma ser medicamentoso, com contraceptivos orais
combinados ou progestágenos como primeira linha para controle da dor leve a
moderada, assim como redução da progressão da doença. Em casos específicos,
outras terapias hormonais também podem ser indicadas. Quando essa abordagem não
tem sucesso, discutimos com a paciente uma alternativa cirúrgica, que hoje é
cada vez menos invasiva, com destaque para a cirurgia robótica, recomendada em
casos de sintomas graves, presença de endometriomas, infertilidade, entre
outras situações mais complexas.
Rede
Américas
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