Nascimento do periquito cara-suja em vida livre marca avanço histórico para a conservação da Caatinga
A Reserva Natural Serra das Almas (RNSA), localizada
entre Crateús, no Ceará, e Buriti dos Montes, no Piauí, registrou um marco
histórico para a conservação da Caatinga com o primeiro registro reprodução
natural do periquito cara-suja (Pyrrhura griseipectus), espécie ameaçada de
extinção, na área protegida.
As
aves nasceram dia 17 de março, e vêm sendo monitoradas desde 21 de fevereiro,
quando as mães colocaram os primeiros ovos. Na ocasião, pesquisadores que atuam
na reserva identificaram 33 ovos da espécie em caixas-ninho instaladas na área,
confirmando o primeiro evento reprodutivo do periquito cara-suja, em vida
livre, no local. Desde então, a equipe passou a acompanhar o desenvolvimento
dos ovos até a eclosão dos filhotes.
Até
então, os únicos filhotes registrados na Serra das Almas eram resultado de
reprodução dentro do viveiro de aclimatação, estrutura utilizada para que as
aves se adaptem gradualmente às condições naturais antes da soltura definitiva
na natureza. Por isso, o registro de ovos nas caixas-ninho instaladas na área
da reserva representa um avanço importante no processo de adaptação da espécie
ao ambiente natural.
A
reintrodução dos primeiros periquitos cara-suja na reserva começou em junho de
2024 por meio do projeto Refaunar Arvorar, iniciativa dedicada à reintrodução
de aves nativas ameaçadas no Ceará, começando com o periquito cara-suja e a
jandaia-verdadeira (Aratinga jandaya). O projeto é realizado pela Associação
Caatinga e pela ONG Aquasis, em parceria com o Parque Arvorar, do Beach Park.
Considerado
uma das aves mais raras do Brasil, o periquito cara-suja não era registrado na
Serra das Almas havia cerca de 114 anos. Atualmente, 23 indivíduos adultos
vivem soltos no local, resultado do processo de reintrodução iniciado nos
últimos anos. A reprodução natural reforça o sucesso da iniciativa e evidencia
a importância da reserva, gerida pela Associação Caatinga, como refúgio
essencial para a recuperação da espécie e para a conservação da biodiversidade
da Caatinga.
A
Caatinga celebra o retorno de um canto raro
O
período reprodutivo teve início em outubro de 2025, quando os primeiros casais
foram observados em comportamento de cópula. Com a chegada das chuvas, surgiram
os primeiros ovos nas caixas-ninho instaladas pela equipe do projeto. As
estruturas são ninhos artificiais de madeira que imitam cavidades naturais de
árvores, locais frequentemente utilizados por diversas espécies de aves para a
reprodução.
Segundo
Ariane Ferreira, analista de projetos socioambientais da Associação Caatinga,
os primeiros resultados superaram as expectativas da equipe. “A quantidade de
ovos foi maior do que esperávamos. Nossa expectativa é que este seja um ano de
sucesso e que a população de periquito cara-suja na reserva possa até dobrar já
em 2026”, afirma.
A
equipe agora concentra os esforços no acompanhamento do desenvolvimento dos
filhotes. “Vamos monitorar de perto essa fase porque podem ocorrer perdas
naturais. Nem sempre o casal consegue cuidar de todos os filhotes e também
existe risco de predação ou até de chuvas que possam inundar as caixas-ninho.
Por isso, realizamos um manejo constante para minimizar esses riscos e evitar
perdas sempre que possível”, explica Ariane.
Leanne
Soares, gerente do Parque Arvorar, explica que, em ação coordenada com o Ibama,
o Parque Arvorar atua como fiel depositário das aves resgatadas pelo órgão. No
local, essas aves recebem os cuidados necessários até que estejam aptas a
retornar ao ambiente natural. “Estamos muito felizes com os resultados desse
projeto. Cuidamos delas aqui com toda a estrutura e carinho, e saber que agora
estão por aí, se reproduzindo e voando em seu habitat natural, nos emociona e
reforça nosso compromisso com a conservação e recuperação da fauna local”,
afirma Leanne.
“Um
dos indicadores mais importantes de sucesso no curto prazo, em um processo de
reintrodução, é a reprodução. O fato de o cara-suja já estar se reproduzindo na
Serra das Almas apenas um ano após sua chegada mostra que a espécie está
conseguindo se estabelecer bem nesse novo ambiente. Esses indivíduos vieram de
um ecossistema diferente, na úmida Serra de Baturité, e precisaram aprender a
explorar as plantas da Caatinga, reconhecer novos predadores e estabelecer seus
territórios. O nascimento dos primeiros filhotes confirma essa capacidade de
adaptação e é ainda mais promissor porque essas novas gerações já nasceram bem
mais adaptadas à realidade local. Isso é muito importante, pois essa ave, que
também é da Caatinga, está voltando a crescer nesse habitat de forma
promissora”, destaca Fábio Nunes, coordenador do Projeto Cara-Suja, realizado
pela Aquasis.
Projeto
Refaunar Arvorar
A
cronologia das ações de reintrodução do periquito cara-suja na Reserva Natural
Serra das Almas começou em setembro de 2023, com a construção do viveiro de
aclimatação. Em junho de 2024, chegaram à reserva 18 indivíduos para adaptação
ao ambiente. Em novembro do mesmo ano, outros 10 periquitos provenientes da
vida livre na Serra de Baturité foram translocados para o local.
A
primeira soltura ocorreu em dezembro de 2024, com os 18 periquitos pioneiros.
Em janeiro de 2025, o grupo foi reforçado com três aves oriundas de uma
apreensão do IBAMA. A segunda soltura aconteceu em abril de 2025, mês em que
também foram registrados quatro filhotes nascidos na reserva. Em maio, chegaram
ainda dois filhotes vindos da Serra de Baturité.
A
terceira soltura foi realizada em 8 de julho de 2025, com oito indivíduos. Em
agosto, mais 12 periquitos foram levados para aclimatação. Já em 1º de outubro
de 2025, foi observado comportamento de cópula entre casais reintroduzidos. A
quarta soltura ocorreu em 19 de novembro de 2025, com nove indivíduos. Em 21 de
fevereiro de 2026, foram encontrados os primeiros ovos de periquitos cara-suja
na Serra das Almas, indicando a reprodução natural da espécie no local.
União
pela conservação da biodiversidade
Daniel
Fernandes, diretor executivo da Associação Caatinga, explica que a entidade deu
início em setembro de 2025 à fase V do projeto No Clima da Caatinga, realizado
pela Associação Caatinga, em parceria com a Petrobras, via Programa Petrobras
Socioambiental. Segundo ele, um dos eixos centrais desta etapa é o
fortalecimento das ações de conservação de aves ameaçadas na Reserva Natural
Serra das Almas. “Nesse contexto, ganham destaque tanto a ampliação das
iniciativas de educação ambiental voltadas à observação de aves quanto os
preparativos da Serra das Almas para acolher espécies em risco de extinção”,
destaca Daniel.
Nesta
nova fase do No Clima da Caatinga, a Associação Caatinga também investe em
ações estruturantes para aprimorar a acolhida ao periquito cara-suja. Entre as
iniciativas previstas estão o plantio de mudas frutíferas nativas em áreas
estratégicas da reserva, a produção e instalação de comedouros, o apoio
logístico às equipes de campo, o monitoramento dos recintos de aclimatação e
intercâmbios técnicos com outras áreas de reintrodução no Ceará, assegurando
que a reserva siga protocolos reconhecidos e eficientes de manejo.
Sobre
a Associação Caatinga
A Associação Caatinga é uma organização da sociedade civil,
sem fins lucrativos, cuja missão é conservar a Caatinga, difundir suas riquezas
e inspirar as pessoas a cuidar da natureza. Desde 1998, atua na proteção da
Caatinga e no fomento ao desenvolvimento local sustentável, incrementando a
resiliência de comunidades rurais à semiaridez e aos efeitos do aquecimento
global.

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