Gestor de carreiras analisa os desafios e as oportunidades desse tipo de trajetória profissional e como começar
Um em cada quatro egressos do ensino superior que exercem
atividade remunerada no Brasil atua fora da área de formação, segundo um
levantamento do Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de
Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo). Esse dado reflete
um movimento crescente de transição de carreira e questiona
a rigidez dos modelos tradicionais.
O conceito de carreira linear, com um caminho claro e
previsível, está sendo cada vez mais desafiado no Brasil. Com as rápidas
mudanças tecnológicas e no mercado, profissionais estão optando por trajetórias
não lineares, nas quais as transições entre setores, áreas e
competências são frequentes. Esse fenômeno tem criado novas dinâmicas no
desenvolvimento profissional, mas também apresenta desafios
para quem ainda está preso a modelos tradicionais.
Segundo Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador da
FM2S Educação e Consultoria, gestor de carreiras e PhD pela Unicamp, o
modelo linear já não atende às exigências de um mercado dinâmico. "O
ambiente profissional está mais fluido, com mais pessoas buscando sentido em
suas jornadas, não apenas estabilidade. No entanto, a estrutura educacional e
organizacional do Brasil ainda prioriza caminhos previsíveis", afirma Santos.
Com uma carreira marcada por transições, o especialista
vivenciou na prática a flexibilidade exigida por uma carreira não linear.
Iniciando sua trajetória acadêmica com a graduação, seguida do mestrado e
doutorado, ele fez a transição para o empreendedorismo, destacando que seu
próprio percurso reflete as mudanças pelas quais o mercado está passando.
"Passei de acadêmico para empreendedor, algo que poucas pessoas imaginam
ser possível ou desejável. A transição exigiu uma adaptação rápida e um aprendizado
constante, o que é a essência de uma carreira não linear", relata Santos.
O especialista também destaca que, enquanto algumas
empresas incentivam a flexibilidade e o desenvolvimento de habilidades
multifacetadas, muitas ainda mantêm estruturas rígidas, dificultando a
adaptação dos profissionais às novas exigências. "Carreiras
não lineares exigem flexibilidade, capacidade de aprender e se reinventar. O
profissional de hoje precisa estar disposto a mudar de área, adquirir novas
habilidades e até mesmo repensar seu propósito", analisa.
Outro ponto importante levantado por Santos é a mudança na
percepção das empresas sobre a formação e trajetória dos profissionais. Muitas
começam a valorizar habilidades transversais e a experiência de vida, mas a
implementação dessa visão nos processos seletivos e promoções ainda é um
desafio. "Ainda há resistência em alguns setores em reconhecer a
experiência prática adquirida em trajetórias não lineares, o que limita a
diversidade de perspectivas nas empresas", aponta.
Para os profissionais que buscam uma carreira não linear,
Santos destaca três aspectos fundamentais: autoconhecimento para
identificar os pontos de interseção entre habilidades adquiridas em diferentes
áreas; valorização do aprendizado contínuo; e a busca por
experiências que realmente agreguem ao desenvolvimento pessoal
e profissional.
"Se o profissional souber lidar com os desafios dessa
jornada de mudanças constantes, ele estará mais preparado para o futuro do
trabalho, que já é uma realidade. O segredo está em entender que a
flexibilidade é a chave para não se perder no meio do caminho", conclui
Santos.
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