
Exemplares de tomateiro Micro-Tom infectados por Moniliophthora
perniciosa. Esta planta de pequeno porte e crescimento rápido, também
suscetível à ação deletéria do fungo, foi utilizada pelos pesquisadores como
modelo vegetal para investigar o processo que leva à doença do cacaueiro
conhecida como vassoura-de-bruxa (foto: Daniele Paschoal/Cena-USP)
O mecanismo de ação do fungo Moniliophthora perniciosa, que provoca nos cacaueiros a doença conhecida como vassoura-de-bruxa e traz grandes prejuízos aos produtores brasileiros, está sendo cada vez mais elucidado. Em artigo publicado no Journal of Experimental Botany, pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP) relataram que o patógeno faz com que a planta cresça desproporcionalmente, drenando sua energia. E quando esta morre, ele coloniza as células necrosadas e se nutre com a lignina acumulada.
Em trabalho anterior, o grupo já
havia mostrado que o fungo sintetiza o hormônio citocinina, que altera o
equilíbrio hormonal da planta e leva ao crescimento excessivo dos tecidos
infectados, competindo com a produção dos frutos e o crescimento das raízes, exaurindo
a planta por meio de um mecanismo semelhante ao do câncer (leia mais em: agencia.fapesp.br/36258/).
Agora, o
grupo descobriu que o processo de infecção ocorre em duas etapas. Na primeira o
fungo libera citocinina, que faz o cacaueiro produzir seu alimento favorito, a
lignina, que ele consome na segunda.
O engenheiro agrônomo Antônio Figueira,
professor do Cena-USP e coordenador da pesquisa, explica: “Há dois tipos de
patógenos de plantas: os biotróficos, que requerem tecidos vivos para se
nutrir; e os necrotróficos, que se alimentam de tecidos mortos. Existe também
uma classe híbrida, constituída pelos chamados hemibiotróficos, que infecta
inicialmente células vivas e, em uma fase subsequente, passa a parasitar
células mortas. O Moniliophthora perniciosa pertence
a essa terceira classe”.
Segundo
Figueira, esse fungo apresenta uma fase biotrófica muito mais extensa do que o
normal, que se prolonga por cerca de 30 a 45 dias. Nessa etapa, os esporos
germinam e dão origem a um micélio específico, mais grosso e irregular, que
cresce entre as células do hospedeiro, sem penetrá-las.
“Ocorre
pouca colonização dos tecidos. Por isso, é difícil observar por microscopia
essas hifas dos fungos na planta infectada. Por outro lado, o tecido do
hospedeiro apresenta os sintomas espetaculares da doença: superbrotação e
engrossamento dos ramos. Ou seja, apesar de estar em baixa densidade no tecido,
o fungo causa sintomas marcantes”, diz.
No artigo
agora publicado, os pesquisadores demonstram que esse hipercrescimento funciona
como um dreno de energia da planta hospedeira, reduzindo o número e o peso dos
frutos e a biomassa da raiz. Tudo isso sem que haja uma maior produção de
micélio do fungo.
“Na fase
posterior da doença, ocorre a morte do tecido. E, então sim, os micélios
penetram nas células e crescem bastante. Esse micélio é morfologicamente
distinto, delgado e linear, e coloniza todo o tecido morto. Nessa fase,
inicia-se, após um período, a produção dos cogumelos”, informa Figueira.
O novo
estudo respondeu a uma pergunta que estava no ar. Ou seja: por que o fungo
coloniza a planta, causa tantos sintomas e parece não se beneficiar com isso?
“Descobrimos
que, durante a fase inicial, por intermédio do hormônio vegetal citocinina, o
fungo induz na planta infectada uma alta produção de tecidos vasculares, cujas
paredes celulares secundárias acumulam lignina. O acúmulo da lignina serve de
nutrição ao patógeno após a morte do tecido”, esclarece o pesquisador.
As espécies próximas da Moniliophthora perniciosa são todas saprofíticas,
nutrindo-se de tecidos mortos. Aparentemente, a causadora da vassoura-de-bruxa
evoluiu para ser capaz de infectar tecidos vivos; modificar seu metabolismo
para promover a síntese de seu alimento favorito, a lignina; e já estar
presente na planta quando da morte do tecido. “Isso confere à Moniliophthora perniciosa uma clara vantagem
competitiva em relação a fungos concorrentes”, sublinha Figueira.
Cacauicultura em crise
A
vassoura-de-bruxa foi descrita pela primeira vez em 1919. Mas era uma doença
que parecia confinada e endêmica no ambiente amazônico. No final da década de
1980, porém, ela se propagou pelo sul da Bahia. E, como decorrência, o Brasil,
que chegou a ser o segundo maior produtor mundial de cacau, com safras de mais
de 400 mil toneladas, teve sua produção reduzida para cerca de 100 mil
toneladas na década de 2000.
O setor
está se recuperando lentamente. Mas a Bahia, que era o principal Estado
produtor, foi superada pelo Pará. E a produção nacional, contabilizada em 2020,
ainda ficou bem abaixo do patamar alcançado no período áureo: 250 mil
toneladas, a sétima posição do ranking mundial. Os novos estudos são muito
promissores para o desenvolvimento de novas técnicas de manejo.
A pesquisa recebeu apoio da FAPESP
por meio de sete projetos (16/10498-4, 13/04309-6, 16/10524-5, 17/17000-4, 15/00060-9, 18/18711-4 e 19/12188-0).
O artigo Infection by Moniliophthora perniciosa reprograms tomato Micro-Tom
physiology, establishes a sink, and increases secondary cell wall synthesis pode
ser acessado em: https://doi.org/10.1093/jxb/erac057.
José Tadeu
Arantes
Agência
FAPESP
https://agencia.fapesp.br/fungo-induz-crescimento-anormal-do-cacaueiro-para-depois-se-alimentar-do-tecido-morto/38359/
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