“Vinho com alma, só o português”
(do livro “O Grande Banquete – a Transformação
e o Templo”, de Ricardo Ferreira)
Portugal possui geograficamente
uma posição privilegiada na Península Ibérica, junto ao Oceano Atlântico, que
determinou o seu pendor lançando-o, no século XV, na grande descoberta
marítima.
Em 1143, D. Afonso Henriques,
(primeiro rei português) fundou Portugal, que manteve definitivamente as suas
fronteiras durante o século seguinte, constituindo-se assim num dos países mais
antigos da atualidade. Esta circunstância e conjuntura colaboraram para a
intensa identidade cultural e para a coesão e união interna.
O território português possui
uma área de 92,212 km², com uma população de 10,32 milhões, faz fronteira a
norte e leste com a Espanha e a sul e oeste delimitado pelo oceano Atlântico.
País pequeno, rico na variedade da paisagem, tem uma herança histórica e cultural
muito valiosa, possui uma deliciosa e maravilhosa gastronomia. Suas praias são
conhecidas, as suas serras e planícies magníficas para descansar com ótimas
acomodações. A paisagem está cheia de igrejas, catedrais, palácios, solares,
casas senhoriais e castelos medievais, que são a representação de uma longa e
preciosa história. Povo hospitaleiro que sabe receber quem o visita.
O que atrai e convida também é o
clima. Em Portugal continental o clima muda significativamente de região para
região por ser influenciado pelo relevo ou pela proximidade do mar. De uma
forma geral é ameno e a presença do sol é significativa e constante, principalmente
no Algarve, Alentejo e Estremadura (onde fica a capital Lisboa). Na região dos
Açores a precipitação é maior, mas o clima é agradável, e a Madeira apresenta
um clima quase tropical.
A memória coletiva faz parte do
nosso passado e sem passado não existe identidade.
Apesar de estar envolvida em
dúvidas e alguns mitos, julga-se que a vinha terá sido cultivada pela primeira
vez no vale do Tejo e no Sado, em cerca de 2000 a.C, pelo povo Tartesso, que habitava
aquela região.
Por volta do século X a.C, os
Fenícios apoderaram-se do comércio dos Tartessos, incluindo o vinho. Calcula-se
que tenham trazido algumas castas de videiras que introduziram na antiga
Lusitânia.
Os Gregos vieram no século VII a.C
para a Península Ibérica e desenvolveram a viticultura, dando uma especial e
importante atenção à arte de fazer vinho. Acredita-se que no século VI a.C, os
Celtas, a quem a videira já era familiar, supostamente trouxeram para a
Península algumas variedades de videira que cultivavam. Pensa-se que tenham
trazido igualmente as técnicas de tanoaria na fabricação de pipas e tonéis.
Com a fusão dos Celtas e dos
Iberos num só povo, dá origem aos Celtiberos, ascendentes dos Lusitanos, povo
que se afirma no século IV a.C. A expansão aguerrida e bélica de Roma na
Península Ibérica impeliu aos primeiros contatos com os Lusitanos, por volta de
194 a.C. Foram longos anos de lutas, só vencidas pelos Romanos dois séculos
depois, com a tomada de toda a Península em 15 a.C, conseguindo finalmente
submeter e dominar os Lusitanos.
A conquista da Península pelos
romanos ajudou e muito a modernização da cultura da vinha, com a introdução de
novas variedades e com o aprimoramento de certas técnicas de cultivo, nomeadamente
a poda. A cultura da vinha teve um crescimento considerável, nesse tempo, em
virtude da necessidade de se enviar comumente vinho para Roma, onde o consumo
crescia e a produção própria não atendia a procura. Vieram as invasões bárbaras
e com isso o declínio do Império Romano, a Lusitânia foi disputada aos Romanos pelos
povos Suevos e Visigodos que os venceram no ano 585 d.C, tendo acontecido, com
o decorrer do tempo, a fusão de raças e de culturas, deixando o paganismo e
adotando o Cristianismo.
A grande expansão do
Cristianismo acontece nos séculos VI e VII, não obstante já ser conhecido na
Península Ibérica desde o século II. O vinho torna-se então imprescindível e
obrigatório para o ato respeitado e venerado da comunhão. Os documentos
canônicos do período comprovam a obrigatoriedade da utilização do vinho puro da
videira na celebração da missa, produto designado por não adulterado, ao qual
tivesse sido apenas juntada uma pequena porção de água. No começo do século
VIII outros invasores se seguiram, agora vindos do Sul. Com os árabes
iniciava-se um novo período para a vitivinicultura Ibérica. A religião
muçulmana proibia o consumo de bebidas fermentadas, em que o vinho estava
incluído. No entanto, mostraram-se complacentes e condescendentes para com os
cristãos, aplicando-se aos agricultores uma política baseada na benevolência e proteção,
desde que os mesmos se entregassem aos trabalhos rurais, para deles tirar o
melhor rendimento.
Documentos corroboram e
demonstram a importância da vinha e do vinho no território português, antes do
nascimento da nacionalidade. O vinho é o principal produto exportado nos
séculos XII e XIII. Com o inicio da reconquista cristã, as lutas acontecem por
todo o território e as permanentes ações de guerra destruíam as culturas e as
vinhas.
A criação de Portugal, em 1143,
pelo Rei D. Afonso Henriques, e a reconquista da totalidade do território
português aos mouros, em 1249, possibilitaram a instalação das ordens
religiosas, militares e monásticas, com especial ênfase para os Santiago da
Espada, Templários e Cister, que povoaram e plantaram imensas regiões,
tornando-se funcionais núcleos de colonização agrícola, ampliando, deste modo,
as áreas de cultivo da vinha. O vinho passou, nesse momento, a fazer parte da
dieta do homem medieval e ter algum significado nos ganhos e proveitos dos
senhores feudais da época.
Os vinhos produzidos em Portugal
tornaram-se conhecidos até no norte da Europa. Efetivamente foi na segunda
metade do século XIV que a produção de vinho encetou um grande desenvolvimento,
recuperando-se e aumentando-se a sua exportação. No período da expansão
portuguesa, séculos XV e XVI, as naus e os galeões que partiam em direção à
Índia, transportavam, entre outros produtos, o vinho.
Não podemos esquecer os vinhos
de roda ou de torna viagem. Analisando o tempo que demoravam as viagens, quase
sempre, em média de seis longos meses em que os vinhos se mantinham nas barricas,
espalhadas pelos porões das naus, sacudidas pelo balancear das ondas ou
expostos ao sol. E o vinho ficava melhor!
O envelhecimento delicado e
ameno era harmonizado pelo calor dos porões ao passarem, pelo menos duas vezes,
o Equador e pela manutenção do vinho nos tonéis, tornando-os únicos, magníficos
e, como tal, vendidos a preços genuinamente fabulosos. O vinho de roda ou de
torna viagem veio desta maneira facilitar o conhecimento baseado na experiência
de um tipo de envelhecimento, cujas técnicas científicas se viriam a
desenvolver a posterior.
Lisboa em meados do século XVI
era o maior polo de consumo e distribuição de vinho do império – a expansão
marítima portuguesa conduzia este produto aos quatro cantos do planeta.
Portugal e a Inglaterra
assinaram um tratado em 1703 (Methwen), onde as permutas comerciais entre os
dois países foram regulamentadas. Estabeleceu-se um regime especial para a
entrada de vinhos portugueses na Inglaterra. A exportação de vinho
incrementou-se a partir desta data. No século XVIII, a vitivinicultura, bem
como outros enfoques em Portugal, sofreram a mão e o controle da intensa presença
do Marquês de Pombal. Por isso, a região do Alto Douro e do famoso Vinho do
Porto beneficiou-se de uma série de medidas protecionistas.
Foi criado pelo Marquês de
Pombal, em 10 de setembro de 1756, a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas
do Alto Douro, para disciplinar a produção e o comércio dos vinhos da região, e
procedeu-se a demarcação da região. A região do Douro é a primeira região demarcada
oficialmente no mundo.
No inicio do século XX
procedeu-se a regulamentação oficial de várias outras denominações de origem
portuguesa. Para além da região produtora de Vinho do Porto e dos vinhos de
mesa Douro, demarcaram-se as regiões de produção de alguns vinhos, Moscatel de
Setúbal, Carcavelos, Dão Colares, vinhos da Madeira e Vinho Verde.
Anos depois, e com a nova
perspectiva na economia portuguesa (adesão de Portugal à comunidade europeia)
e, por conseguinte, na viticultura, o conceito de denominação de origem foi
sintonizado com a legislação europeia e comunitária, e foi criada a
classificação de Vinho Regional para os vinhos de mesa com indicação
geográfica, reforçando-se a política da qualidade e característica única dos
vinhos portugueses.
Hoje em dia estão reconhecidas e
defendidas, na totalidade do território de Portugal, 33 Denominações de Origem
e oito Indicações Geográficas.
Ricardo Ferreira - escritor, consultor empresarial, palestrante
e proprietário da casa de vinhos Portuguesa Maluca, em Salvador. Nascido em
Angola e criado em Portugal, mora desde 1994 em Salvador, Bahia. É autor da
trilogia literária “O Grande Banquete” (composta pelos livros “A Transformação
e o Templo”, “Viagens à Nossa Volta” e “Eles e Elas e os Risos do Fado”), em
que faz viagens pela cultura e história dos três países que o formaram como
cidadão e ser humano, em narrativas que transitam pelo limite entre a realidade
e a ficção. Defensor da lusofonia, atua com o intuito de estreitar, a nível
comercial, cultural e social, os laços entre Angola, Portugal e Brasil.
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